MESSI, ANDRÉ GOMES E A MENTALIDADE NO ESPORTE

Por @PepGenius Nos últimos dias, em entrevista a revista “Panenka”, André Gomes, meio-campista da seleção de Portugal e do Barcelona, abriu o jogo e revelou o que está ocorrendo por trás de sua má fase que é perceptível para todos que assistem aos jogos do clube culé. Segue abaixo alguns trechos da entrevista: “Não me […]

Por @PepGenius

Nos últimos dias, em entrevista a revista “Panenka”, André Gomes, meio-campista da seleção de Portugal e do Barcelona, abriu o jogo e revelou o que está ocorrendo por trás de sua má fase que é perceptível para todos que assistem aos jogos do clube culé. Segue abaixo alguns trechos da entrevista:

“Não me sinto bem em campo, não estou desfrutando. Os primeiros seis meses correram bem, mas depois as coisas mudaram. Talvez a palavra não seja a mais precisa, mas tornou-se um pouco num inferno, porque comecei a ter mais pressão. Eu convivo bem com a pressão, só não convivo bem é com a pressão em mim mesmo.”

“Já me aconteceu, em mais do que uma ocasião, não querer sair de casa, porque as pessoas podem me olhar de lado. Ter medo de sair de casa por sentir vergonha. E uma coisa que me incomoda é que me digam que consigo fazer as coisas bem, porque eu pergunto a mim mesmo: “Então, por que não faço assim?”

De fato o rendimento de André Gomes tem sido abaixo do esperado, olhem os números do jogador na UEFA Champions Legue dessa temporada, via SofaScore:

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Coincidentemente, nos últimos dias o jogador de basquete Kevin Love, do Cleveland Cavaliers também relatou ter passado por problemas, inclusive um ataque de pânico em seu texto ao The Players Tribune.

E isso soa um alarme para uma reflexão que é sempre necessária sobre a vida e também sobre o esporte de alto rendimento, e da importância da saúde não só física, mas também mental e psicológica.

De acordo com o processo formativo no futebol e outros esportes, onde trato mais a fundo nessa reflexão aqui , existem diferentes estágios de habilidades na aprendizagem motora e os atletas profissionais e de elite, claramente se encontram no Estágio Autônomo, onde possuem um domínio muito amplo e eficiente da atividade realizada (jogar futebol), necessitando de níveis de concentração menores na realização da atividade, porém mantendo uma grande eficácia, ou seja um ato quase automático.

Kevin Love, pivô do Cleveland Cavaliers, teve um ataque de pânico durante uma partida de basquete.
Kevin Love, pivô do Cleveland Cavaliers, teve um ataque de pânico durante uma partida de basquete.

Segundo várias pesquisas na área: os atletas de maior êxito parecem ter um alto nível de autoconfiança, uma maior concentração, utilização de pensamentos positivos, níveis inferiores de ansiedade pré-competitiva e competitiva e maior capacidade de consertar os próprios erros.

Quando o jogador não consegue focar, seu nível de ansiedade é alto e ele começa a pensar demais para realizar as ações, isso pode impactar diretamente e muito negativamente em sua performance no campo (caso de André Gomes). Do outro lado da “escala”, quando o jogador está se sentindo muito bem e o ambiente ajuda na realização da tarefa, encontramos o que chamamos de estado de “flow” ou de fluxo , que foi desenvolvido por Mihaly Csikszentmihalyi, psicólogo húngaro. Algumas dessas características que fazem parte desse estado onde geralmente o atleta consegue o rendimento mais alto:

  1. Concentração e foco (um alto grau de concentração em um limitado campo de atenção).
  2. Perda do sentimento de auto-consciência.
  3. Sensação de tempo distorcida.
  4. Equilíbrio entre o nível de habilidade e de desafio (a atividade nunca é demasiadamente simples ou complicada).
  5. A sensação de controle pessoal sobre a situação ou a atividade.
  6. A atividade é em si recompensadora, não exigindo esforço algum.

Parece ser o estado em que Iniesta, Messi jogam e que todo jogador profissional busca atingir ou chegar mais perto dele, vale lembrar que a experiência de “flow” é individual, e com certeza você já passou por ela em alguma situação (em uma pelada ou em alguma tarefa no trabalho).

Jogadores como Messi, Cristiano Ronaldo e Neymar parecem viver um eterno estado de flow.

Dito isso, sabemos que as pessoas são indivíduos diferentes (composição emocional, nível motivacional, experiências, entre várias questões mais) e que também dependem de um meio para se relacionar, como no futebol, estão envolvidas dentro de um grupo de atletas que se relaciona com uma comissão e que estão englobados dentro de um clube que se relaciona diariamente com os fãs, torcedores, mídia e sociedade, portanto não é um processo nada simples. E de acordo com os fatos e estímulos recebidos as pessoas podem ter diferentes reações.

O caso de André Gomes é bom para refletirmos sobre dentre várias coisas… A vida de um jogador de futebol de topo deve ser realmente muito boa, eles podem fazer o que gostam, tornar de seu hobby sua profissão e recebendo bem para isso, mas nem sempre é assim. Não podemos nunca nos esquecer que apesar de protagonizarem cenas heróicas, dignas de filmes de Hollywood e que muitas vezes acreditemos que nem sejam humanos (Messi), os jogadores são humanos, por trás de todos existe uma pessoa, como você e como eu, que tem problemas pessoais, que passa por dias ruins. Parece óbvio, e é, mas muitas vezes muitas pessoas esquecem disso.

Ainda mais com o advento e uso cada vez mais até exagerado de redes sociais, as pessoas acostumaram a cobrir todos os eventos, palpitar sobre tudo, e inclusive lançar opiniões que tem causas negativas a outras pessoas e muitas vezes maldosas, como é comum de se ver por exemplo no Twitter,e essa exposição sem limites pode levar a atrapalhar o atleta. Não acho que ninguém gostaria de ver notícias criticando e apontando falhas e desempenhos ruins sobre si em noticiários e jornais de TV…

Então, porque a um jogador de futebol, sim? “Ganham muito dinheiro, tem que aguentar as crítica, a pressão…”

Não creio que seja nem ético e nem moral criticar maldosamente, uma coisa é a crítica embasada e pontual, outra coisa é a crítica maldosa e negativa… E isso pode causar aos jogadores episódios de dificuldades psicológicas, ansiedade, crises e muitos outros fatos como medo de jogar e errar, medo do público… e esse medo afeta sua vida pessoal , seu relacionamento familiar e também tira a concentração no jogo, aumenta a ansiedade, favorece mais erros, entre outros vários fatores.

Deixo abaixo um trecho da entrevista recente ao El Pais, de Imma Puig, psicóloga de renome que tem 15 anos de Barcelona FC , além de clientes que envolvem os empresários mais ricos do mundo…

“Pergunta. Talvez exista muita gente que “sempre está muito bem”, não?

Resposta. Claro. E também acontece que essa imagem que queremos transmitir de que precisamos estar sempre ótimos nos é um pouco empurrada pela sociedade em que vivemos. Não podemos estar sempre contentes, bonitos, sem problemas de saúde e com dinheiro. Isso são vicissitudes e não costumam acontecer todas ao mesmo tempo. Existem pacientes que vêm e me dizem: “Ai, está tudo bem comigo, mas estou triste!”. Eu lhes digo: “Estar triste faz parte da vida”. Tenho clientes que estão na crista da onda, que são os maiorais…, mas sentem as mesmas coisas que os que não estão tão bem. Estão tristes, sentem-se sozinhos… Os sentimentos não entendem de dinheiro.

Pergunta. Bom, o dinheiro ajuda…

Resposta. O ser humano, se tem atendidas as necessidades básicas, prefere sentir-se querido do que pago.”

O Superman só existe em filmes, não nos esqueçamos, somos de carne e osso, e apesar do futebol nos apresentar as vezes cenas dignas de filmes, somos HUMANOS. E como seres humanos deveríamos nos solidarizar como fizeram os torcedores no Camp Nou na partida contra o Chelsea quando o português entrou em campo . Torcemos para que André Gomes se recupere rápido e volte a jogar bem:

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