O que a “troca” de Rangnick por Pioli pode dizer sobre o Milan e o futebol italiano

Reflexões sobre a permanência milanista de Pioli e da desistência por Rangnick

O mundo do futebol já discutiu os acontecidos da última semana em Milanello. Muitos já discutiram sobre os efeitos da renovação de contrato de Stefano Pioli e a desistência por Ralf Rangnick. Mas talvez nem todos tenham discutido sobre os efeitos disso no futuro do Milan, e o porque de toda essa mudança.

O que a opção por Stefano Pioli diz sobre o futuro do Milan? Seria um pensamento de que a continuidade pode colocar o clube rossonero nos trilhos? Seria um deja vu com certos fatores ocorridos no passado recente milanista?

A discussão se deu porque, a medida em que o Milan confirmou sua vaga ao menos nas preliminares da próxima UEFA Europa League, muitos lembraram de dois treinadores recentes rossoneri que classificaram para a competição: Vincenzo Montella e Gennaro Gattuso. Estaria o Milan cometendo o mesmo erro com Pioli? 

O fato é que a situação de Ralf Rangnick foi mal conduzida em um contexto. No momento de parada do campeonato, o Milan embora tivesse em um “projeto de arrancada” e nas semifinais da Coppa Italia, onde acabaria eliminado pela Juventus, a insatisfação sobre as atuações por parte da diretoria comandada pelo CEO Ivan Gazidis, era grande.

Durante a pandemia, a contratação de Rangnick chegou a ser dada como certa pela imprensa italiana, já se falava em contratação de novos nomes jovens, na manutenção de Lucas Paquetá, no jovem húngaro Szoboszlai, do Red Bull Salzburg, para a próxima temporada.

Porém, a medida em que a temporada volta, o Milan ganha um clássico jogando bem diante da Lazio, ganha o clássico com a rival Juventus com uma virada épica de lavar a alma de qualquer milanista pelos quatro anos sem ganhar dos bianconeri, e empata outro jogo da trinca de clássicos do campeonato, agora com o Napoli.

A arrancada se explica em números. O Milan tem a terceira melhor campanha do campeonato no ano de 2020, em que conta o returno da Serie A e mais duas rodadas do turno, tendo perdido poucos pontos e se transformando do 4º pior ataque do campeonato no Natal, para marcar 2 gols ou mais em 10 partidas consecutivas pela primeira vez desde 1964.

A melhora se explica em números, como este gráfico do Statsbomb, que explica na métrica da expected Goals (xG), a evolução da criação de jogadas e gols milanistas, e o quanto os adversários criam e marcam diante do Milan:

Milan xG
O gráfico de expected Goals ao longo da temporada milanista. (Foto: StatsBomb/The Athletic)

Depois de demitir Boban, com quem ele se separou pelas declarações sobre Rangnick, e com o “bico” de Maldini, diretor-esportivo que quase deixou o clube, Gazidis agora afirma ter escolhido Pioli pela “maneira como ele fez nossa visão e como transfere [para o campo] sua personalidade e os valores de nosso clube”. Ele também acrescenta como “melhorou o desempenho dos jogadores individuais e do coletivo”, que seria a ideia de um trabalho de Rangnick.

O Milan diz que não é uma decisão baseada em resultados recentes, mas na mesma temporada 2019–20, demitiu Marco Giampaolo por três derrotas consecutivas. Vale lembrar que Stefano Pioli não era a primeira opção de Gazidis, que preferia Luciano Spalletti, mas este tinha contrato com a Inter, o que obrigaria os milanistas a pagar a multa para uma de suas maiores rivais.

Stefano Pioli, por sua vez, tem o desafio do segundo ano de temporada, sob o qual nem sempre costuma repetir o sucesso do primeiro, e que o complicou no seu melhor trabalho, na Lazio. E nos últimos trabalhos em grandes clubes, mal completou um ano em Inter e Fiorentina. O que pode ser complicado em um momento de pressão na próxima temporada no Milan. 

Mas teria a direção milanista medo de revolucionar o clube, ou mesmo de entregar as chaves de Milanello a Ralf Rangnick e começar de novo um projeto? É bem verdade que essa situação pode ser relativizada por alguns mais “conservadores”.

Rangnick começou a ser procurado pelo Milan em novembro, e as conversas ficaram maiores em março. A ideia original era que o treinador alemão de 62 anos fosse uma espécie de “manager”, em uma situação comparável a Wenger, no Arsenal, e Sir Alex Ferguson, no Manchester United.

Inevitavelmente, os mais conservadores, embora Rangnick tenha mostrado ideias ótimas de jogo, pesa a sala de troféus “modesta” para o treinador para um clube tão vencedor como o Milan. E um pensamento curioso, como se dissesse “que garantias um técnico de 62 anos que nunca foi procurado por um clube grande, daria ao Milan?”

É bem verdade que Rangnick faz seu ótimo trabalho no ambiente Red Bull em um sistema que não possui nem a metade da pressão por resultados do ambiente milanista. Mas até que ponto o lidar com a pressão serviu para a desistência?

Embora Ralf Rangnick tenha influenciado taticamente grandes treinadores alemães, como Jurgen Klopp, justificaria dar o cargo de manager, “conquistado” pelos próprios Wenger e Ferguson em condições muito especiais em Arsenal e Manchester United, a alguém que pouco atuou nos últimos anos como treinador?

É bem verdade que o conservadorismo contra estrangeiros na Itália é um grande problema. Parece estranho dizer, mas dentre os treinadores estrangeiros do atual campeonato, apenas Paulo Fonseca, da Roma, não tem um histórico na liga, tendo em vista que Mihajlovic, do Bologna, e Juric, do Verona, foram jogadores na Serie A em seu passado de atletas.

E o conservadorismo na Itália se reflete em opiniões. Como a do jornalista Michele Cristiciello, da Sportitalia: “Os alemães ficam na Alemanha”. Seria isso reflexo do pensamento italiano que apenas quem se adapta a mentalidade local serve para comandar os grandes clubes do país?

Ou seria essa apenas uma decisão dos atletas e para os atletas, tendo em vista os apelos de Donnarumma e Ibrahimovic, líderes do elenco, pela permanência de Pioli? Seria a possível renovação de contrato dos dois um fator causado pela renovação do treinador?

Teria o Milan mesmo mudado de ideia e pensado numa continuidade, ou apenas “tido vergonha” de demitir em um bom momento da equipe, em que se destacam as boas qualidades do time de Pioli, em campo e na administração do vestiário do grupo, mas pronto para fritar no primeiro tropeço?

É algo a se observar nas cenas dos próximos capítulos. O fato é que a mudança no Milan é tão constante que tudo o que se diz nessa coluna pode estar datado e ultrapassado no próximo mês, na próxima semana, ou nas próximas 24 horas. E em meio a tantas perguntas, para essas mudanças constantes, valem as reflexões.

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1 comentário

  1. Há no Milan uma busca incensante por identidade. A esperanca de fazer um novo Milan baseado no velho Milan. Espero que Pioli saiba lidar com isso

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Caio Bitencourt

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