Não é só Ibrahimovic: o que está por trás da recuperação do Milan

Por que alguns jogadores como Theo Hernandez e Rebic estão crescendo após a chegada de Ibrahimovic; e por que outros como Paquetá caem

O “efeito Ibra” poderia ser para muitos a única resposta pra melhora do Milan. Afinal, desde a chegada do atacante sueco e ídolo dos rossoneri, o time está invicto em 2020. Tudo desde uma derrota acachapante sofrida para a Atalanta por 5–0 no último jogo de 2019.

Mas desde a chegada de Ibrahimovic, o Milan venceu 5 dos seus últimos 7 jogos, e só não venceu em partidas onde o sueco não foi titular. Ibra, aliás, fosse pelos números individuais, não seria tão impressionante. Marcou apenas 2 gols em 5 jogos.

Por outro lado, se nota uma mudança no efeito de ânimo dos milanistas. Sua ausência já foi sentida na partida contra o Verona no último domingo, ou mesmo no time que suou pra vencer o Torino na prorrogação na Coppa, com gol dele. É quase um efeito de “proteção” aos jovens jogadores da equipe milanista.

Mas, embora o efeito anímico do Milan com Ibrahimovic justifique muitas coisas, é raso resumir a melhora rossonera no campeonato e na Coppa apenas com o sueco. É claro que a mentalidade vencedora de um jogador que dentre os clubes que passou, só não foi campeão no Los Angeles Galaxy, pesa para um elenco jovem, e que inspire uma outra atmosfera, e que ajude a registrar outro índice de atenção do elenco. Mas não é só isso.

Rafael Leão está tendo um ótimo início de 2020 (Foto: AC Milan)

Outros jogadores são parte dessa mudança no mês de janeiro. É bem verdade que os números não são tão amplos, embora o Milan pese pela eficiência. Foram 7 gols marcados no campeonato desde a virada do ano, apesar dos 3 na Spal nas oitavas da Coppa e dos 4 no Torino nas quartas.

Ofensivamente alguns jogadores melhoraram nos últimos jogos. É o caso de Samu Castillejo no lado direito, de Bennacer na fase de construção de jogo no meio-campo, e outros como o atacante Rafael Leão, que tem deixado seus gols e contribuindo com a melhora da equipe. 

É o caso de um homem que está sendo um dos grandes nomes do Milan após a chegada de Ibrahimovic: o croata Ante Rebic, que tem seu melhor momento desde que chegou ao clube rossonero. Até o jogo contra a Udinese, ele parecia anônimo no elenco e um flop garantido.

Este gol, o da vitória contra a Udinese, e o gol da vitória diante do Brescia, somado as boas atuações, deram sobrevida ao croata com a camisa do Milan, mas acima de tudo, foram as mudanças da fase ofensiva de Pioli que ajudaram não apenas Rebic, como todos os outros da linha ofensiva a crescerem.

As atuações de Rebic têm melhorado o Milan (Foto: AC Milan)

A chegada de Ibra fez Pioli mudar o esquema tático do 4–3–3 para o 4–4–2. Isso causou com que os jogadores ofensivos ganhassem mais liberdade. Çalhanoglu no lado esquerdo, fez dar mais condições as subidas de Theo Hernandez, quanto na direita, Conti ajuda nas jogadas de Samu Castillejo.

Nesse contexto, Rebic pode jogar pela meia-esquerda, como entrou no jogo em que fez o gol da vitória diante da Udinese, ou mesmo como segundo atacante, como fez diante de Brescia, substituindo Rafael Leão, e Verona, substituindo Ibrahimovic. 

Rebic, tem menos habilidades técnicas do que Leão na posse de bola, mas mais intensidade. Essas características técnicas o tornam uma arma particularmente vantajosa contra defesas cansadas , a partir daí, se tornam racionais para o porquê de se tornar tão decisivo ao entrar no segundo tempo das partidas.

Tudo isso torna a boa fase recente de Rebic ao entrar nos jogos, somada a boa fase de Ibrahimovic no retorno, embora não sendo de longe o velho Ibra, e as boas participações de Rafael Leão, embora este só tenha marcado diante do Cagliari, uma alternância saudável para Pioli como opções ofensivas. 

A melhora também está na fase defensiva milanista. O time só sofreu 3 gols nesse mês de janeiro, e muito se deve a um trabalho que sempre tem o goleiro Donnarumma e o líder defensivo Romagnoli como destaques, e vai muito além do sucesso de Theo Hernandez, o principal jogador defensivo da equipe. 

Entre ataque e defesa, Theo Hernandez merece um capítulo a parte. Justo ele que no período em que jogava no futebol espanhol, era visto como um defensor inconsistente, e que precisava melhorar na Itália para sobreviver na posição.

É bem verdade que defensivamente ao longo do campeonato, teve seus problemas. Especialmente levando em conta os problemas que Milan enfrenta de vez em quando para cobrir a subida de suas costas, para encontrar equilíbrio nas transições quando perde a bola naquele lado, sendo os rossoneri vulneráveis por ali, o que faz atacar os espaços na ala esquerda após recuperar a bola ser uma estratégia adotada por muitos adversários do Milan.

Por outro lado, a fase defensiva de Theo tem melhorado a medida em que o tempo de bola defensivo nas divididas tem melhorado, de forma em que o francês não costuma fazer tantas faltas, e que tenha confiança para dominar fisicamente nos duelos, embora corra risco de deixar espaços pelo lado esquerdo em um modelo agressivo de defesa. 

Já ofensivamente, para muitos, as jogadas pelo seu lado esquerdo são as melhores armas ofensivas do Milan. Ele é o jogador defensivo que mais dribla na Serie A, e um dos jogadores defensivos que mais cria jogadas na Serie A, com média de 1,1 jogada criada/jogo, ainda distante do 1,8/jogo do líder no quesito, Kolarov, da Roma. 

Rebic marcou o único gol do Milan na vitória sobre o Brescia (Foto: AC Milan)

Por outro lado, ao contrário de outros defensores, Theo, no entanto, tem as intuições de um atacante, quando em momentos de posse de bola, escolhe o corredor interno para se encontrar em uma posição favorável pra finalizar a gol. Muitas vezes, então, na origem de seus gols, há jogos que geralmente associamos a um atacante. 

No caso de Theo, como disse uma frase do texto sobre ele feito por Federico Aquè para L’Ultimo Uomo: “ Saber se defender, se preocupar com o que acontece na sua área quando você não tem a bola, continua sendo fundamental para um defensor, mas não é mais a única medida de seu valor, ou a principal”.

Os exemplos são, primeiramente o gol contra a Udinese, em que marcou de voleio na área do pênalti depois de uma cobrança de escanteio, com rapidez e uma técnica de chute típica de grandes talentos ofensivos. Contra o Bologna, ele entrou na área partindo do lado oposto ao desenvolvimento da ação (no lado direito), e invadiu a pequena área pra marcar após a magnífica assistência de Suso.

Há quem também não sentiu o efeito anímico de Ibrahimovic e da melhora do Milan. Podemos citar sobre Piatek, que sua fonte secou na temporada, com apenas 4 gols, e acabou deixando o clube para ir a Bundesliga jogar pelo Hertha. Podemos citar sobre Suso, longe dos bons momentos, e longe do 4–4–2 ideal de Pioli, e que acabou perdendo espaço com a boa fase de seu compatriota Samu Castillejo.

Podemos aplicar especialmente ao caso de Lucas Paquetá, que sempre que entra, joga pelo lado direito do campo. A ideia de Pioli, era que ele, movendo para a ala direita, queria ocupar melhor o meio-campo e elevar o nível de drible nessa área do campo, já que uma das jogadas típicas do brasileiro é de cortar de fora pra dentro com a bola, e pensando na fase criativa de jogo de Paquetá.

Paquetá tem bons momentos quando encontra entrosamento com os companheiros, atrai a marcação e cria espaços, especialmente nas fases iniciais de jogo. Por outro lado, seus piores momentos, e os que pesam para estar fora do time, envolvem sua visão de jogo, em vista que sempre prefere o passe mais curto, e nem tanto o passe que quebra defesas. 

E seu drible tem sido mais para manter a posse e recomeçar o jogo, que propriamente quebrar linhas defensivas, o que pesa para que Pioli prefira Bonaventura no lado direito nas últimas partidas, já que Jack, como Bonaventura é conhecido pelos milanistas, possui a técnica e a inteligência para conectar o jogo em áreas intermediárias, e sabe como estar muito mais presente nos momentos decisivos, vide os gols marcados por ele na temporada.

Por outro lado, a má fase de Paquetá e Suso, remanescentes no atual Milan, acaba não sendo um problema em vista a evolução dos outros jogadores na equipe, e ambos acabaram dando passagem a outros companheiros de time em melhor momento. 

Em meio a todo esse efeito, o Milan teve uma melhora impressionante. Desde a virada do ano, foi a 4ª equipe que mais pontuou, com 11 pontos nestes 5 jogos de 2020, só menos do que Lazio (13) e Juventus (12), e igualado ao Verona (11), e até mais que a vice-líder Inter (9). Um efeito não apenas de Pioli, Ibrahimovic ou qualquer outro, mas muito do psicológico. 

É bem verdade que o Milan continua oscilante, mas agora com um outro padrão. Acreditando mais em si mesmo, e com evolução de muitos dos seus jogadores, podendo acreditar em sucessos na Coppa Italia e um retorno as copas europeias. 

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Caio Bitencourt

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