O ataque revitalizado do Manchester United

Rashford, Martial e James ganham sequência como um trio ofensivo e trazem características interessantes para as pretensões de Ole Gunnar Solskjaer

O Manchester United vai tentando se reencontrar. Solskjaer assumiu a bronca após trabalhos pouco animadores de Moyes, Van Gaal e Mourinho e, no geral, o time ainda deixa muito a desejar. Mas vive sua ‘quebra’ mais pesada após a saída de Sir Alex Ferguson, com um processo visível de renovação do elenco e realinhamento de princípios.

Se o sucesso virá com o treinador atual é difícil cravar – até porque Liverpool e City atingiram um nível muito acima -, mas alguns pontos trabalhados devem ajudar a refrescar o clube. E o setor ofensivo, por mais que ainda precise de reforços e vá mudar daqui certo tempo, tem uma boa oportunidade de se acertar.

Em um time que busca atacar com velocidade e fluidez, a parceria entre Marcus Rashford, Anthony Martial e Daniel James pode dar resultado. Vamos entender o funcionamento.

O vídeo acima dá um exemplo da principal característica em questão: o recuo do francês e a infiltração de seus companheiros. Se Rashford entende dessa movimentação por trás da defesa justamente por ter sido um atacante centralizado durante anos, James é uma máquina de profundidade. Um dos jogadores mais rápidos da Premier League, caiu como uma luva no time.

O ex-Swansea está a todo momento preparado para ultrapassar nas costas da última linha adversária e receber no espaço, o que carrega vantagens diretas e indiretas. É uma rota clara ao gol e, se na temporada passada balançou as redes apenas quatro vezes, em 19/20 já foram três. A expectativa é que com a sequência de seus companheiros (que tiveram lesões) os números sigam aumentando.

E, mesmo quando ele não participa do momento decisivo, é fundamental para a equipe ganhar território. Ao representar essa ameaça constante, o oponente tem que tomar uma decisão entre avançar a marcação ou baixar um pouco para não correr tanto risco contra ele. Gera tempo e espaço para a construção das jogadas – que já não é das melhores, então precisa ainda mais de condições favoráveis.

James veio como incógnita, mas se provou um achado do clube (Foto: Reprodução/Fox Sports)

Pelo centro, Martial potencializa tudo isso e desperta uma versão convincente de Rashford. O francês sempre apresentou atributos técnicos impressionantes e tem um físico bem respeitável, mas com Mourinho foi tratado de forma pouco proveitosa. Exigências que não batiam com seu perfil, quebra de ritmo quando parecia engrenar (contratação de Sánchez, por ex.) e outros fatores que reduziram também sua confiança.

Agora, precisa justificar a decisão de Solskjaer em vender Lukaku para a Inter. Na situação tática abordada aqui, faz total sentido. O belga tem um corpo dominante para fazer o pivô e é dotado de uma consciência espacial acima da média. Sobra visão, ideias e tomada de decisão, mas falta refinamento na execução. Cansamos de ver cenários em que ele tinha tudo pra dar continuidade ao ataque de forma inteligente, mas perdeu a posse por um erro no fundamento.

Martial, por sua vez, não traz esse risco de modo geral. Não é um Firmino e ainda pode aprender com seu compatriota Benzema, mas tem grande capacidade de envolver as peças que estão ao seu redor. Sabe proteger a bola, tem controle em espaços curtos – importante para quem joga em uma área extremamente povoada – e constrói oportunidades para os outros dois.

Com Solskjaer, Martial voltou a ser 9 – na função e na camisa (Foto: Reprodução/90min)

Com uma função dessas e cercado por peças que fazem seus gols, mas não são artilheiros natos, precisa ter um grande discernimento da hora de prender a zaga e a hora de fazer o movimento incisivo por si. Deu ótimos sinais disso em sua campanha de estreia na Inglaterra, sob o comando de Louis van Gaal. Usava a 9 na época, mas foi obrigado a trocar pra 11 na chegada de Ibrahimovic.

Recuperou o número antigo agora, foi responsabilizado com um papel semelhante e vai mostrando que pode dar conta do recado. Outro fator crucial tem a ver com sua personalidade. É daqueles que, se não colocado em um panorama amigável para suas características, pode se desligar das partidas. Era o que acontecia em muitos jogos do desconexo conjunto treinado por Mourinho.

  • Rashford é o artilheiro (8) e líder de assistências (4) do United na temporada.
  • Martial contribuiu com 5 gols e 1 assistência em sete jogos como titular.
  • James já registrou 3 gols e 2 assistências na Premier League, com média muito superior a de seus 4 gols e 9 assistências em toda a última edição da Championship.

Como centroavante, portanto, o risco dessa versão pouco intensa de Anthony aparecer diminui consideravelmente. Recebe mais a bola, está em contato constante com o jogo e percebe a importância de sua participação para o bem do time. E de seu parceiro de altos e baixos em Old Trafford, Rashford. Como citei anteriormente, o inglês surge com uma versão muito mais convincente quando se alia com o francês.

Rashford até aqui faz sua temporada mais ‘madura’ pelos red devils (Foto: Reprodução/The Sun)

Martial parece ser um ótimo ponto de referência para as ações pretendidas por Marcus, que gosta de vir de trás e superar os marcadores com dribles, mudanças de direção e tabelas rápidas. E é também arma letal para os ataques e contra-ataques em velocidade que fazem do United um time perigoso até quando não está em seus melhores dias.

O United costuma se sair melhor usando dessa profundidade e não por acaso tem mais facilidade contra equipes que atacam, fazem pressão alta e sobem as linhas. Falta bastante coisa para voltar a ser um dos gigantes temidos do país e, consequentemente, do mundo. Mas, diante desse cenário de tentativas de reconstrução, os mínimos pontos de evolução e relativo convencimento devem ser valorizados. A ver se o trio ganha sequência – e é mais bem municiado – daqui pra frente.

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Lucas Filus

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