O combate ao virtuoso virtual

Contra os entendimentos ditatoriais sobre as respostas que o jogo exige, o combate ao virtuoso virtual, esteja ele dentro ou fora do campo, é o caminho para tornar o futebol universal e capaz de responder às redes sociais e humanas onde este nos permite evoluir.

Os últimos anos têm marcado a expansão do virtuoso virtual, aquele que, por intermédio de uma conjugação de virtudes nunca colocadas à prova, se ensaia no discurso crítico como se criticar incluísse a subida a um pedestal. São indivíduos que não tiveram ainda que se enfrentar na realidade do processo relacional que, em termos sociais e humanos, se insere o futebol. Este discurso, que tende a cultivar-se nas redes sociais, reflete-se também naqueles que estão no comando de equipas.

Lugares de onde olhar o jogo

Olhemos primeiro para o pedestal. É curioso como na tradição continental europeia e sul-americana o treinador insiste em estar rente à relva. Essa tradição demonstra muito da importância da relação pessoal do homem-técnico com a realidade prática, pressentindo uma aproximação ao fenómeno que não será tanto tática, mas muito mais de liderança. Nessa tradição, o técnico aparece como capitão que comanda as tropas envolvendo-se na batalha.

Na tradição britânica, o treinador tinha por costume associar-se ao espaço da bancada para, de um ponto mais alto, poder observar as movimentações em campo, procurando depois intervir do ponto de vista posicional. Aliás, o tradicional “Manager” estava, até, muitas vezes longe do campo do treino, deixando esse momento de preparação física para os seus adjuntos, aparecendo depois para as sessões de preparação do jogo em si.

Naturalmente que as tradições servem para serem revistas e, em tempos onde as diferenças culturais e vivenciais se esbatem, tornando-se muito mais natural que um cidadão português viva mais de perto as realidades do campeonato inglês do que o do seu país, bem como um brasileiro pode estar muito mais ligado na realidade da Europa do que do seu Estadual, a construção de novos mitos torna-se consequência – ainda que muitos mitólogos prefiram associar-se à tentação de se encararem como novos pensadores sem aparato histórico concreto para sua base.

Purificação do discursos

O virtuoso virtual exaspera-se com a falta de unanimidade para com as suas ideias. Esteja ele no comando de uma equipa, no comentário ou na análise do jogo, tende a uma purificação de discurso que nem sempre, no entanto, se associa a uma construção, mas, na maioria das vezes, se alimenta de acontecimentos externos para se definir em contraciclo com o conhecimento do jogo.

Esta purificação do discurso não nasce no futebol. Bem pelo contrário. O crescimento do radicalismo e xenofobia tende a assentar arraiais na confusão de notícias que tendem a criar mundos alternativos ao gosto do conspirador de serviço. É na área da conspiração que o ato de purificar fará o seu caminho. Porque quem purifica tende a normalizar tudo aquilo que lhe é contrário para o dinamitar como inimigo de um caminho único.

Na sua pele sensível vão então nascendo pequenas confusões, que se adornam de incompreensão acerca do que o rodeia no mundo, tanto como de entendimentos básicos sobre a forma de valorizar currículos e acontecimentos. Por isso escutamos treinadores que passam ciclos inteiros a recuperar memórias de vitórias passadas, tanto como somos inundados por apreciações cínicas sobre a forma de trabalhar de quem se envolve no jogo.

O individualismo e o homem providencial

A busca do resultado no futebol sempre alimentou um certo providencialismo, focando na figura do treinador uma espécie de salvação da espécie, ignorando por completo o plano processual da construção de uma equipa. Essa tendência para o individualismo também apareceu sempre nas figuras de jogadores-chave que fazem a diferença em todo e qualquer contexto, independentemente da realidade que o rodeia.

O futebol enquanto ato coletivo, a formação do treinador e o crescimento da análise do jogo permitiram a clarificação do caráter comunitário do jogo. A equipa é uma comunidade, o jogo é um encontro de realidades que se adaptam uma à outra na busca de uma vitória, valorizando-se a identidade coletiva acima do ocasional golpe de sorte. Mas os tempos, que são de crise um pouco por todo o mundo, lançam dúvidas que o ser salvador se apressa a desmontar para a criação do seu virtual virtuosismo.

É esse o perigo que, em 2021, devemos voltar a combater. Reforçando a ideia de um jogo coletivo, preparado e estudado, trabalhando para entender o crescimento tecnológico que nos permite chegar mais longe na nossa capacidade de pensar o futebol, associando-nos em redes de conhecimento que permitem a evolução das nossas ideias e contribuem para a comunidade do jogo. Lutando, dessa forma, contra quem quer ficar com a bola só para si.

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Luís Cristovão

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