O DNA do Real Madrid é vencer

Depois de perder por 1-0 em Paris, o Real Madrid de Ancelotti chegou no Bernabéu determinado em sair com a classificação. Problemas iniciais, Karim Benzema e a decisão de Ancelotti em mudar o jogo com duas substituições.

Ver tudo que aconteceu até o intervalo da segunda partida depois de ter visto os primeiros 90 minutos em Paris foi desanimador. Eram poucas coisas para se corrigir no Bernabéu, e com o fim do jogo e a classificação na mão, qualquer um pôde ter a certeza que Carlo Ancelotti sabia o que estava fazendo, por mais arriscado que fosse.

O Real Madrid começou com tudo. Deixou espaços para o PSG partir no contra-ataque a todo momento. E se você reparar bem, essa atitude justifica completamente a escolha do Ancelotti em jogar completamente recuado no Parc des Princes. O resultado poderia ter sido pior, a grande preocupação foi a transição defensiva, e isso estava sendo determinado lá em Paris, não só em Madri. Falar depois é muito fácil, mas se resguardar foi de fato o certo. Ancelotti errou em determinadas ocasiões, mas acertou na hora de definir a classificação, que não aconteceria sem seu poder dentro do jogo.

Começou a partida no Bernabéu com as mesmas funções, um time titular com peças diferentes, mas as mesmas funções. De qualquer forma o problema seguiu o mesmo: escolher Asensio como titular na ponta-direita novamente. Fede Valverde em campo era fundamental para ajudar Carvajal a marcar e cobrir os espaços que envolviam Mbappé. Mas também era necessário a presença do Asensio no ataque, principalmente para desafogar as corridas do companheiro no corredor ofensivo – o primeiro gol do PSG saí por conta disso, Carvajal tem a opção de ser mais seguro nos botes com o uruguaio do lado, mas para isso o camisa 11 precisa contribuir lá na frente.

A virada de chave do Real Madrid, ainda que tenha tomado o gol, foi transformar a pressão em chances claras. Nos primeiros 30 minutos era fundamental que acontecesse pelo menos o empate no agregado, primeiro por conta do cansaço em ser tão enérgico e segundo pela dinâmica que o PSG iria impor dali para frente, com o placar debaixo do braço. O time espanhol tomou diversas bolas nas costas por conta desses avanços descoordenados no lado direito. Mbappé reinou como em Paris, mas não foi o suficiente. Um outro francês tinha um plano.

A jornada do herói

A forma como Benzema se transformou num jogador sistema desde que chegou fez muita gente o subestimar como o grande atacante que é. Hoje ele segue provando a enormidade da sua carreira, mas também do seu talento. (Reprodução/ Real Madrid)

Karim Benzema é uma entidade do futebol e um dos maiores jogadores da história desse esporte e do Real Madrid. Ele sempre entendeu o papel que desempenhava ali dentro das quatro linhas.

Desde a temporada 2018/19 vem se revolucionando sendo o principal jogador da equipe. Mas se revolucionando daquele jeito que sempre foi: jogando muita bola. Seu desempenho individual melhorou consideravelmente? Talvez, mas o jogador-sistema ele sempre foi, desde quando chegou lá em 2009. A maneira como se sacrificava pelo time, pelos companheiros e pelo clube era de brilhar os olhos daqueles que gostam de futebol.

“Juego para la gente que sabe de fútbol” – Karim Benzema

Em 2017 teve seus momentos ruins, o que gerou uma grande crise no personagem Benzema como jogador importante na equipe. A verdade é que ele sempre soube analisar muito bem tudo isso, e jamais se deu por vencido, até porque fase ruim todo mundo tem. A reviravolta não é bem uma reviravolta, é apenas o mundo se curvando de vez para ele. O francês decidiu mais uma vez.

Noite no Bernabéu

Saindo do banco, Eduardo Camavinga e Rodrygo mudaram o jogo. E por incrível que pareça Ancelotti fez isso numa tacada só. Perder os 45 minutos inicias foi difícil, claro. Mas entender isso depois também foi fundamental. O time não fazia um jogo ruim, mas a sensação era clara que poderia ser bem melhor.

Os dois jovens saíram do banco para mudar o ritmo da equipe. Fede já estava como um touro, mas a entrada de Camavinga e Rodrygo foram o gás perfeito para a remontada. O brasileiro deu vida para o lado direito, atacou os espaços e incomodou como Asensio jamais pudera. O jovem francês entrou novamente numa posição e função diferente do que lhe é geralmente proposto como volante, mas cumpriu como sempre fez nas oportunidades que teve. Diferencial no jogo vertical, dominado por Carlo Ancelotti que foi feliz mais uma vez ao escolher dois jogadores tão jovens, mas tão determinantes numa partida de futebol. Coisa de quem sabe o que é o jogo. Respeito.

Além deles devemos destacar também Éder Militão, que com a falta de um lateral dominante na defesa pelo lado direito, fez uma partida tremenda segurando três dos jogadores mais geniais do mundo. A presença de Alaba, que salvou o time em tantas interceptações e desarmes providenciais, também deve ser notada, ainda mais se tratando de um jogador recém chegado ao Real Madrid. Se identificou de cara com os companheiros, com o clube e também com a torcida. Entendeu o peso do escudo que defende.

É claro que o nome do jogo fica com Benzema. E nem tem problema algum em cima disso. O ponto é que no ataque seu companheiro mais fiel cresce mais uma vez… Como o protagonista que é, definiu de novo o espírito necessário para virar esse confronto. Futebolisticamente claro, é o seu charme, o craque brasileiro define no talento. Mas Vinícius é diferente de qualquer outro. Sempre foi claro isso, desde o jogo contra o Emelec quando ainda vestia a camisa do Flamengo. Mas a real é que sua maior força é a sua mente. Acima dos demais. Absurdamente resistente. A resiliência em pessoa. Não desiste nunca, segue tentando e tentando. E eu intimamente peço: não pare de tentar nunca Vini, você é diferente. Fortaleza mental.

Uma fortaleza mental chamada Vinícius Junior. (Reprodução/Real Madrid)

E não podemos deixar de falar dele… Luka Modric é genial. O passe para achar Benzema no segundo gol é coisa de gênio… Um verdadeiro Bola de Ouro. Poucos no futebol são capazes de pensar e executar tão rápido com tanta precisão e perfeição, e o croata continua sendo interminável, até quando irá seguir assim? Não parece ter fim, e duvido muito que tenha alguém do Real Madrid achando isso ruim.

O Real Madrid vence naquilo que mais foi falado antes da partida começar: “90 minuti en el Bernabeu son molto longos”.

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