O DOUTOR (ANTI) FUTEBOL

Por Bolívar Silveira Na Argentina, existem coisas que não se misturam, pela simples razão de não serem compatíveis. O vermelho e branco não combina com azul e ouro, a empanada não pode tabelar com uvas passas e Bilardistas não podem concordar com Menottistas. A Argentina, sem dúvida, é um país complicado, mas vamos nos conter […]

Por Bolívar Silveira

Na Argentina, existem coisas que não se misturam, pela simples razão de não serem compatíveis. O vermelho e branco não combina com azul e ouro, a empanada não pode tabelar com uvas passas e Bilardistas não podem concordar com Menottistas. A Argentina, sem dúvida, é um país complicado, mas vamos nos conter apenas no último exemplo de incompatibilidade. Mais precisamente em Salvador Bilardo.

As escolas surgiram após as campanhas campeãs mundiais da seleção albiceleste. Os seguidores de Bilardo são aqueles que supostamente admiram a vitória por si só e acreditam que os fins justificam os meios. Geralmente defendem que o seu amado treinador é o criador de diversas inovações táticas. Por outro lado, os Menottistas, gostam do jogo pausado, do futebol pensado e trabalhado. Preferem o meio ao fim. Defendem a bola na rede como uma justiça de um bom futebol.

O Footure se aproveita dessa dicotomia do futebol platense para pontuar os aspectos táticos e algumas anedotas dos dois treinadores. Neste primeiro artigo o estudado será Salvador Bilardo, o campeão de 1986, e vice-campeão de 1990.

Antes de se tornar treinador, Bilardo foi jogador. Participou de campanhas históricas pelo Estudiantes de la Plata, sob o comando Osvaldo Zubeldia. Treinador que segundo ele, aprendeu tudo, as coisas boas e as ruins. O mito conta que Zubeldia fornecia agulhas para seus jogadores fincarem nos adversários dentro de campo, história que explica um pouco daquele Estudiantes e um pouco del Doctor.

Um dos principais argumentos táticos, dos bilardistas, é que o treinador inventou o 3-5-2 e que por isso é um adiantado. Segundo Jonathan Wilson, não é bem assim. Sepp Piontek com sua Dinamarca dos anos 80 e Ciro Blazevic com seu Dinamo Zagreb, também nos anos 80, teriam postulado suas equipes com três defensores. A certeza é que o primeiro campeão mundial, com linha de 3 defensiva, foi sim, Salvador Bilardo.

Tendo três zagueiros e sabendo que as equipes estavam atuando sempre com dois atacantes, o treinador treinava para liberar os seus laterais para atacarem. Mas diferentemente do que costumeiramente se via, dos laterais percorrem apenas os corredores, os jogadores atacavam por dentro. Fazendo a função que Doctor denominava de Lateral-Volante. Essa função dos laterais foi vista há pouco tempo no Barcelona e no Bayern de Pep Guardiola. Entretanto, os laterais-volantes do argentino tinham como objetivo, além de gerar jogo por dentro, chegar à ponta adversária de lado contrário, para cruzar. Por isso, muitas vezes, os laterais atuavam de perna contrária. Essa tática, Bilardo explica muito bem neste vídeo.

Um ponto onde o treinador despontava como inovador era no treinamento de bola parada. Para Salvador, os escanteios e as faltas possuíam extrema importância. Na época, chamavam o estilo dos seus times de antifútbol, claramante essa influência veio de seus ex-comandante Osvaldo Zubeldia, também acusado de antifútbol.

As histórias do campeão de 1986 vão além da tática, existem milhares de peculiaridades sobre o seu relacionamento com os jogadores, algumas que demonstram a maneira minuciosa de como Bilardo enxergava o futebol. Há uma particularmente ligada ao seu estilo de antifútbol, em um confronto direto pelo campeonato argentino. Ele treinando o Estudiantes enfrentaria o Menotti que treinava o River Plate, em grande fase. Durante a semana o treinador campeão de 1978 disse que o River Plate jogava um “Fútbol Champagne”, endeusando seu estilo acadêmico e claramente menosprezando a escola bilardista. Carlos Salvador não deixou por menos, enquanto seu time entrava em campo ele estendeu uma mesa e estourou um champanhe. Ao ser perguntado, respondeu que estava ali para desfrutar. O Estudiantes perdeu por 2 a 0, mas isso pouco importa.

Bilardo desfrutando do fútbol champagne
Bilardo desfrutando do fútbol champagne

As histórias não param por aí. Em semana de jogos decisivos, el doctor entrava em contato com as esposas dos jogadores e aconselhava os dias, horários e posições que os seus atletas deveriam ter relações sexuais, para não afetar no desempenho físico. O folego era uma preocupação constante do treinador. Em caso de gol de sua equipe ele proibia comemorações efusivas, os jogadores tinham que comemorar com os seus companheiros de setor, evitando assim grandes distancias percorridas, para o jogador não cansar. Definitivamente um profissional atento a tudo, Salvador Bilardo.

Por precisar de um time sempre atento e intenso, o treinador nunca convocava jogadores que estavam lesionados ou com problemas físicos recentes. A não ser que passassem em seus testes. Um pouco antes da Copa América de 1989, Ruggeri, já campeão do mundo, estava se recuperando lesão, em casa. Quando da recepção do seu condomínio, Bilardo chamou por interfone, pediu que ele descesse fardado. Assustado, assim o fez. Já na rua, o treinador explicou que eles iriam até a Plaza Flores (uma das maiores praças de Buenos Aires) para Ruggeri treinar e demonstrar que estava curado. Não bastasse o treinamento em público, os companheiros de treino foram crianças e Bilardo ainda o obrigava a chutar a gol, assim demonstrava que estava mesmo sem dores.

Carlos Salvador Bilardo é sem dúvida uma figura importantíssima para a evolução do futebol argentino e também um homem com uma maneira peculiar de ser. Afinal, um treinador que não comemora o título mundial porque sofreu dois gols de cabeça em uma final, merece ser respeitado. ¡Salud, Doctor!

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