O DRIBLE NA COPA E NO BRASIL

Por Valter Júnior O gol é a alegria do futebol. O drible é o divertimento. É tão divertido que muitos ousam preferir o drible ao gol. Driblar é enganar o adversário sem ser antiético. Driblar é jogar futebol brincando. É mostrar sua superioridade técnica ao oponente. Driblar é fazer que vai para um lado e […]

Por Valter Júnior

O gol é a alegria do futebol. O drible é o divertimento. É tão divertido que muitos ousam preferir o drible ao gol. Driblar é enganar o adversário sem ser antiético. Driblar é jogar futebol brincando. É mostrar sua superioridade técnica ao oponente. Driblar é fazer que vai para um lado e ir para outro. Driblar é quebrar o ritmo para acelerar novamente logo em seguida.

Driblar foi, é e será o ganha pão de grandes craques da bola. Lhes tirem do time se é para lhes tirar o direito de fintar o adversário.

Driblar está, na maioria das vezes, relacionado a ter a bola, iludir o adversário com um movimento, ultrapassá-lo e seguir adiante na jogada. Em tempos de espaços exíguos, o drible é uma das armas para quebrar linhas e abrir retrancas. Até aqui, segundo dados do SofaScore, foram aplicados 360 dribles bem sucedidos na Copa do Mundo, uma média de 15,6 a cada 90 minutos. Um dos mais belos deles, entretanto, não aparece nos números. O que Cristiano Ronaldo fez no zagueiro Da Costa foi simples, eficaz e bonito. O português fingiu que ia para um lado, e quando o defensor foi acompanhá-lo, ele tomou outra direção. Foi como aquela ultrapassagem de Ayrton Senna sobre Damon Hill em Interlagos (ok, pode ir lá no Youtube rever a ultrapassagem, mas volte).  Esse movimento deixou CR7 livre para cabecear e decidir o jogo.

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Que drible! Um drible sem bola, porque futebol se joga na maior parte do tempo sem ela e também se dribla antes da sua chegada. Um movimento econômico, comum no basquete e no futebol americano, um esporte pródigo nesse tipo de lance em que os receivers precisam criar espaço e tempo para conseguirem pegar a bola oval, e eficaz.

O drible, em sua origem no Brasil, mais do que uma maneira de levar vantagem sobre o marcador, foi uma forma de afirmação. Em uma época em que a participação do negro não era bem vista no esporte bretão, as faltas eram praticamente liberadas em quem não era branco. O ato de driblar foi a maneira encontrada para fugir das pancadas e do mau caratismo da arbitragem. No fim, se acabou indo além, se transformando numa forma de expressão, num estilo de jogo. Passou a ser uma identidade do futebol brasileiro. O nosso “jogo bonito”. A maior e melhor propaganda do futebol tupiniquim. Um bom driblador pode preparar o passaporte porque provavelmente será negociado para a Europa. Esse é o fundamento que mais atrai os olheiros quando olham um avante brasileiro.

A principal característica do nosso estilo virou crítica a Neymar após a estreia brasileira na Copa do Mundo. O drible não é o único prato no cardápio dele, mas está mais para prato principal do que para entrada ou sobremesa. O atacante do PSG deveria ser criticado se abdicasse de sua habilidade e não tentasse o drible, se tivesse se transformado num burocrata que domina e passa para o lado, que joga o problema para outro resolver. Ao tentar fintar, Neymar assume a bronca para si. Faz o que se espera dele. Contra a Suíça, ele errou metade dos dez dribles tentados. Um ou outro pode ter sido desnecessário, faz parte. É um preço tão baixo para o banquete que pode ser aproveitado caso a tentativa funcione. O drible faz parte da essência de Neymar e do futebol brasileira. Essa essência não pode ser reprimida

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