O papel de Zaccagni no Hellas Verona

O meia italiano tem sido uma das boas novas do campeonato e já foi convocado para a seleção, mas quais são seus segredos?

A Serie A passou a ter olhar diferente sobre Mattia Zaccagni na atual temporada com o Hellas Verona. O meia de 25 anos faz uma de suas melhores temporadas no futebol italiano em sua segunda grande época na elite do Belpaese, um grande feito para quem frequentou nos últimos anos, em meio a muitos empréstimos, os campos da Lega Pro e da Serie B.

Mas quem é esse jogador que mesmo tendo uma idade mais avançada se cogitada a maneira de certos clubes contratarem, faz empolgar clubes como Juventus, Lazio e Napoli, que pensam em contar com seu futebol na próxima temporada? 

Zaccagni pode ser um jogador que não empolga pelos números, uma vez que seus 5 gols e 5 assistências em suas primeiras 21 partidas na atual temporada. Não parece um jogador com chutes fortes, uma vez que tem alguns problemas na finalização, não é muito veloz e não tem um drible insinuante, mas por outro lado, parece constante e sabe aproveitar sua movimentação.

Vale ressaltar sua trajetória, de certa forma desprezada pelas próprias categorias de base do Verona, mas reaproveitada por Andrea Mardolini no próprio clube gialloblù, e nos empréstimos por Venezia e Cittadella, até a oportunidade definitiva em 2017–18, em que jogava mais distante do gol.

Naquele momento, não parecia um talento “fuoriclasse”, mas cresceu em busca de um objetivo de virar um jogador de elite. Mas, se há um momento para indicar esse crescimento, deve ser na final dos playoffs de 2018–19, que colocou o Verona de volta na Serie A, em que marcou o primeiro dos três gols dos gialloblù no retorno a elite.

No retorno do Verona a elite em 2019–20, o time gialloblù tinha uma permanência vista como improvável devido a ausência dos grandes nomes na formação daquela equipe, calcada em um 3–4–2–1 em que Zaccagni jogava pela esquerda, se associando a Lazovic, e buscando movimentos em profundidade por ali.

E muitas vezes, as jogadas saem da esquerda para a direita. Na temporada 2019–20, as jogas chegavam por várias vezes a serem concluídas no outro lado. Que o diga o fato de que na última temporada, o jogador do lado oposto Faraoni marcou 5 gols, e mesmo dentre os que estão do seu lado, na atual temporada, Dimarco até aqui já marcou 3 vezes, isso pensando apenas nos alas, parte importante do jogo de Juric.

Este tipo de situação costuma fazer com que Zaccagni deixe os companheiros na cara do gol, embora o Verona tenha dificuldades em relação a conclusão dessas mesmas jogadas, muito por conta da ausência sentida nos últimos tempos de centroavantes, em que o time após tentar com Kalinic, espera suprir com Lasagna.

Mas a eficiência dos meias como Barak, somada a eficiência defensiva do Verona, também pela ajuda de Zaccagni nesse quesito, faz com que o baixo número de gols do time seja minimizado, embora seja um problema que incomoda Ivan Juric e os tifosi gialloblù.

Com o time do Vêneto, Zaccagni virou um jogador capaz de ter movimentos de driblador, de dar canetas em adversários, como aliar seu jogo a um espírito de luta, e marcar ninguém mais, ninguém menos que Ribéry, com bom combate. Para o treinador croata, o italiano defende de forma excepcional.

Parafraseando uma frase do texto de Marco D’Ottavi sobre ele em L’Ultimo Uomo: “Zaccagni não tem um aspecto em que se destaque claramente. Tem um bom controle, mas não ótimo; é bastante técnico, mas não é refinado; ordenado, mas não é geométrico”

É bem verdade também que parte das dificuldades do Verona envolvem a ausência de um centroavante de confiança, para trocar passes e receber melhor a bola de Zaccagni e dos outros companheiros, mas por outro lado, uma média de apenas 1 chute por jogo soa muito baixa.

Mesmo com uma média baixa de finalizações, o seu grande pecado, o estilo refinado de passes na cara do gol, o jogo mais direto, e sem rodeios, serviu para que Roberto Mancini o convocasse pela primeira vez para a Azzurra em novembro de 2020, o que pode fazer com que o meia sonhe com a vaga na próxima Euro. 

Vale ressaltar também o seu estilo de movimentação, porque apesar de não ser um camisa 10 mais “clássico”, ele se move bem entre os espaços, especialmente pelo lado esquerdo, e dialogando bem com Lazovic, ou com o único atacante da vez, em vaga que na atual temporada foi ocupada mais por Kalinic, e nos últimos jogos tem sido por Lasagna. 

Essa movimentação, somada ao fato de que melhorou o seu controle de bola, e que embora não seja tão veloz, saiba usar muito bem a velocidade que tem, faz com que seja um jogador equilibrado, com suas valências e inteligência tática bem distribuídas para ser o destaque do Verona. 

Talvez sua grande definição técnica seja feita por Ivan Juric, em uma entrevista dada nos últimos meses: “Mattia é um dos jogadores mais inteligentes que treinei até agora. Ele faz seus companheiros jogarem bem e se defende de maneira excepcional. Se conseguir ser mais incisivo nos últimos 20/25 metros, pode aspirar [uma vaga] na seleção”.

O sonho com a vaga na Azzurra pode fortalecer o lado técnico de Zaccagni, que embora não tenha empolgado na base, vem tendo um aumento de nível importante para o futebol de elite, e com um crescimento profissional que pode fazê-lo ser mais que um “jogador de sistema”, aproveitando sua visão de jogo e crescida de produção.

A idade talvez possa afugentar o hype. A concorrência também é ingrata, mas Zaccagni provou que merece ter seu valor e pode crescer ainda mais para se aprimorar como líder técnico de uma equipe, seja continuando no Hellas Verona com Juric, ou em qualquer outra parte. 

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Caio Bitencourt

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