O PESO DA ARQUIBANCADA

Por @felipesimonetti O futebol nos últimos anos tem sido (e tem que ser) encarado de maneira mais séria. Vemos uma série de gestões mais responsáveis que pensam não somente no resultado da rodada de domingo, mas que focam no saneamento de dívidas, crescimento de patrimônio e conquista da liderança no país. Entretanto, nada disso é possível […]

Por @felipesimonetti

O futebol nos últimos anos tem sido (e tem que ser) encarado de maneira mais séria. Vemos uma série de gestões mais responsáveis que pensam não somente no resultado da rodada de domingo, mas que focam no saneamento de dívidas, crescimento de patrimônio e conquista da liderança no país. Entretanto, nada disso é possível sem a torcida. Seja porque é ela quem vai viabilizar e dar o “confere” no trabalho de uma diretoria no final de um temporada, seja porque é ela quem movimenta bilhões no futebol brasileiro – direta e indiretamente.

Muito se associa o ganho com a torcida meramente ao apoio em campo, que empurra o time como um 12º elemento. Quando se resolve ir mais adiante vê-se, porém, que o público influencia também nas receitas do clube. Sendo direto, segundo a análise econômico-financeira do Itaú BBA, os ganhos com bilheteria e sócio-torcedor representaram 14% de todo o faturamento dos clubes brasileiros em 2016. Mas a análise certamente não para por ai. Não podemos ser simplistas e ignorar a presença do torcedor também na negociação por cotas de televisão, acordos de patrocinadores e compra de produtos licenciados.

Para se ter noção, o Palmeiras, atual campeão brasileiro e clube com o maior número de associados (122 mil segundo o Movimento Por Um Futebol Melhor), faturou em 2016 quase R$105mi com o arrecadado entre o programa sócio Avanti e as bilheterias do Allianz Parque. De acordo com o relatório do Itaú BBA, foi a segunda maior fonte de receita do clube, ficando atrás apenas dos direitos de TV (R$128mi).

MATCHDAY

Um ponto relevante ao se analisar o impacto do torcedor na gestão econômica do clube é o que ficou popularmente conhecido como “matchday” – ou dia de jogo. Essa receita engloba não somente o faturado com a venda de ingressos, mas também com o programa de sócio torcedor e o consumo interno nos estádios.

Considerar esse conjunto de ganhos de maneira conjunta é de extrema relevância, como já destacou o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello. Os clubes brasileiros vivem em realidades muito distintas no que se refere à posse ou administração de um estádio, portanto, é desleal comparar os ganhos sem maior abrangência. Entretanto, ainda deve-se pensar além, como destaca o cartola. Por não possuírem estádio próprio, vários clubes perdem a oportunidade de obter benefícios com bilheteria e inviabilizam a expansão do programa de sócio-torcedor.

A título de exposição, a maior torcida do país encheu os cofres rubro-negros com R$66mi (10% a menos que no ano anterior), enquanto a massa corintiana colaborou com R$75mi (+44% em relação a 2015).

Fig-12

PATROCINADOR

O futebol certamente não seria o mesmo sem torcida. Isso é bem dimensionado pela quantidade recebida pelos clubes com publicidade: R$550mi no ano de 2016 entre os 27 clubes analisados pelo Itaú BBA (13% do faturamento total). Sem esse dinheiro não haveria glamourização do esporte, estádios de luxo e o espetáculo certamente não seria o mesmo.

Obviamente um grande influenciador na negociação por novos contratos de publicidade é a exposição da marca. Como já é de costume, os clubes em melhor fase costumam receber bônus, enquanto um rebaixamento pode levar a cortes do faturamento de uma equipe. Entretanto, junto desta conta pesa o tamanho da torcida: os cinco clubes de maior torcida do país (Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Vasco segundo a última pesquisa LANCE!/Ibope) possuem 59,2% do total de 154 milhões de torcedores; seu faturamento com publicidade, por conseguinte, representa 54,2% do total.

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TELEVISÃO

Por fim, os ganhos com televisão hoje estão entre os maiores debates do futebol brasileiro. Flamengo e Corinthians lideram a divisão de cotas da Rede Globo com R$170mi, mas neste ponto não há grandes surpresas, haja visto também o desempenho recente dos clubes no campeonato. O maior espanto percebe-se na comparação entre Vasco (clube de péssimas campanhas recentes) e Atlético Paranaense (clube em disputa pela Libertadores): R$100mi X R$35mi. A diferença maior se escancara na série B, onde o Internacional dispara com as cotas de R$60mi recebidas da Globo. O Colorado vem seguido do Goiás (R$35mi) e depois vem todos os outros clubes, que recebem apenas R$5mi cada.

Isso ocorre pois o modelo atual de distribuição se vale majoritariamente (em um nível até extremo) do tamanho das torcidas. Na Premier League, por outro lado, a distribuição é bem mais equilibrada e leva em conta diversos fatores (50% igualitário, 25% relativo ao desempenho do clube e 25% relativo ao tamanho da torcida), não atoa o campeão Chelsea receberá “apenas” £57mi a mais que o lanterna Sunderland: £150,8mi X £93,4mi.

Percebe-se o tamanho impacto da torcida também nas cotas de televisão do futebol brasileiro. Felizmente o acordo está mudando e deverá ser semelhante ao praticado na Inglaterra, mas na proporção 40/30/30. Em matéria de Cassio Zirpoli (Diário de Pernambucano) foi realizada uma simulação de como ficaria essa distribuição com a situação atual. Resultado: o Corinthians passaria de R$170mi para R$103,2mi (-39,2%) enquanto a Ponte Preta teria o maior aumento, de R$23mi para R$57,2mi (+149%). A diferença na série A (Flamengo X Avaí), portanto, diminuiria de R$147mi para “somente” R$74mi.

Vê-se, portanto, graças a diversos relatórios e levantamentos – com destaque para o supracitado do Itaú BBA (vale conferir as 200 páginas na íntegra) – a importância e o impacto da torcida para as receitas do clube. O faturado no dia do jogo, anualmente com patrocinadores e com cotas de televisão é o que, de fato, mantem o clube de pé como receita recorrente (excluindo venda de atletas).

Tudo parece uma ciência muito exata quando se explica por meio de números, mas nunca podemos nos esquecer do fator emocional do jogo. Como destacado pelo diretor de marketing do Cruzeiro, Marcone Barbosa, por mais que um programa de sócio-torcedor seja muito vantajoso, ele ainda depende do desempenho do clube, e ai entra a boa gestão. Deve-se entender a decisão do torcedor, que aliará seu lado emocional ao seu lado racional ao se associar. Assim, o desafio é surfar nos momentos de alto desempenho, mas manter regularidade com vantagens perenes não somente no escopo do futebol (vide descontos em produtos de supermercado), para ativar o lado racional do consumidor.

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Valores arrecadados com jogos e sócios em 2015:

1º) Palmeiras – R$ 119,6 milhões
2º) Corinthians – R$ 90 milhões*
3º) Internacional – R$ 82,5 milhões
4º) Flamengo – R$ 73,2 milhões
5º) Grêmio – R$ 67,3 milhões**
6º) Cruzeiro – R$ 43,3 milhões***
7º) São Paulo – R$ 41,1 milhões
8º) Atlético-MG – R$ 37,9 milhões
9º) Santos – R$ 37,9 milhões
10º) Fluminense – R$ 21,6 milhões
11º) Botafogo – R$ 17 milhões
12º) Vasco – R$ 10,6 milhões
* Corinthians não contabiliza renda da Arena no balanço 2015
** Grêmio também ‘perde’ bilheteria: mais de R$ 20 milhões da Arena não entram no balanço divulgado pelo clube
*** Cruzeiro não detalha arrecadação de bilheteria e sócios, colocando tais receitas no mesmo montante que conta premiações
Fonte: Lance

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