O QUE ESPERAR DE VIEIRA NO NICE?

Por Eduardo Madeira Uma das atrações da temporada 2018/19 da Ligue 1, que acaba de começar, é a presença de Patrick Vieira no banco de reservas do Nice. Campeão mundial em 1998, o ex-volante vive a primeira experiência como técnico em solo francês, após debutar na função no New York City FC, na Major League […]

Por Eduardo Madeira

Uma das atrações da temporada 2018/19 da Ligue 1, que acaba de começar, é a presença de Patrick Vieira no banco de reservas do Nice. Campeão mundial em 1998, o ex-volante vive a primeira experiência como técnico em solo francês, após debutar na função no New York City FC, na Major League Soccer.

Em que pese ser um dos grandes nomes nesta temporada, Vieira precisa enfrentar um profundo processo de reformulação que passa o clube rubro-negro. A começar pelo próprio antecessor, Lucien Favre, que voltou à Alemanha para treinar o Borussia Dortmund.

Somado a isso, referências do time nos últimos anos, como o ótimo meio-campista Jean Seri e o goleador Alassane Pléa – autor de 16 gols na última Ligue 1 – foram vendidos para Fulham e Borussia Mönchengladbach, respectivamente, e forçam a nova busca por lideranças técnicas.

Ah, não nos esqueçamos de Mario Balotelli, com nome ventilado no Marseille e futuro indefinido.

Mas voltando ao personagem principal, Vieira pode apresentar o que na primeira temporada em casa?

Para o jornalista português Luis Cristovão, comentarista da MLS no canal Eurosport, o trabalho do ex-volante nos Estados Unidos indica sinal positivo do que ele pode vir a ser como treinador. “Não tanto ao nível de um modelo fixo de jogo, mas pela forma como ele procurou entender a cultura e as condicionantes para formar uma ideia de jogo que pudesse resultar no campeonato que disputava”, analisou.

Em duas temporadas e meia na MLS, o campeão do mundo em 1998 com a seleção francesa disputou 90 jogos, venceu 40, empatou 22 e perdeu 28.

Acumulou algumas frustrações, é verdade. Tanto em 2016, quanto em 2017, caiu nas semifinais de conferência, ambos de forma trágica. No primeiro ano, tomou um sonoro 7 a 0 no agregado para o Toronto FC, com uma humilhante goleada de 5 a 0 em Nova York, e na temporada seguinte, caiu para o Columbus Crew com um 4 a 3 no agregado, sendo que uma nova derrota por placar largo – 4 a 1 na ida – fez novamente a diferença.

Vieira também teve alguns probleminhas com os clássicos da cidade nova-iorquina. Diante da tradicional franquia do New York Red Bulls, somou três vitórias em nove jogos e ainda sofreu duras goleadas, como um 7 a 0 em maio de 2016 e dois 4 a 0 agora em 2018.

Estilo de jogo

Uma característica marcante do time de Vieira é a manutenção da bola. O jornalista Pedro Cuenca, colunista da MLS no Footure, chega a dizer que a forma com a qual fazia o NYCFC jogar se assemelhava mais ao estilo de Pep Guardiola do que com Arsène Wenger, um dos principais treinadores durante sua carreira como jogador.

Essa característica é reforçada por Cristóvão, que acrescenta um aspecto importante: Vieira olha para os jogadores que tem e cria a partir daí. “É uma equipe que, pela sua dinâmica, gosta de ter bola, joga com bloco subindo, tenta esticar para jogar na velocidade sempre que pode, é muito agressiva na procura da recuperação da bola e aposta em um meio-campo muito ativo, quer seja na defesa, quer seja no ataque”, analisou.

Mesmo presando ter a bola no pé, foi a força do sistema defensivo que chamou a atenção dos dois analistas consultados. Cuenca chega a afirmar que “a consistência defensiva do NYCFC virou uma marca da equipe”, de tão destacado que foi esse aspecto no trabalho de Vieira.

Em seu período na terra do Tio Sam, o francês adotou como esquema preferido o 4-3-3, variando para o 4-1-4-1. O vídeo abaixo do Tifo Football explica detalhadamente como o NYCFC jogava.

Estreia frustrante

Na estreia da temporada, decepção: derrota por 1 a 0 diante do recém-promovido Stade de Reims, com gol de Doumbia, logo aos 2 minutos. Nos números, domínio quase que completo:

– 19 finalizações contra 5;

– 70.8% de posse de bola;

– 553 passes certos contra 181 (88% de aproveitamento);

Dentro de campo, porém, muita dificuldade. Vieira lançou o Nice no 4-3-3 que passou por algumas variações durante a partida. Especialmente no primeiro tempo, quando o time tinha a bola, se posicionava em algo semelhante a um 3-2-5. O lateral-esquerdo Boscagli se alinhava aos zagueiros Hérelle e Dante, enquanto Atal, lateral pelo lado oposto, se adiantava até a linha ofensiva. Com Saint-Maximin aberto no lado esquerdo, Vieira buscava dar amplitude ao time e ainda ter vantagem numérica contra os defensores. Cyprien era outro que avançava, como mostra a imagem abaixo:

Com a bola, o Nice chegou a jogar em um 2-3-5
Com a bola, o Nice chegou a jogar em um 2-3-5

Na etapa final, percebendo as dificuldades em furar a defesa do Reims, Vieira alterou a forma de jogar. Prendeu mais Atal, abriu Lees-Melou pelo lado direito e colocou um homem de mais presença física na área: o garoto Lamine Diaby, de 17 anos. Essa mexida reestruturou o time para o 4-2-3-1 e trouxe a jogada pelo chão, com a insistência no pivô de Diaby.

Com Diaby, o Nice partiu para o 4-2-3-1
Com Diaby, o Nice partiu para o 4-2-3-1

No frigir dos ovos, foi uma estreia pra lá de decepcionante. O Nice foi previsível, teve pouco repertório e usou e abusou dos lançamentos longos. O reflexo dessa dificuldade é visto que Hérelle, Dante e Boscagli foram os jogadores que mais tocaram na bola, segundo o Who Scored.

Decepcionante? Sim. Preocupante? Nem tanto, ressalte-se.

É fato, e precisa ser ressaltado, que em meio a esse processo de renovação, o Nice tem rejuvenescido ainda mais o elenco. Dos quatro contratados, o mais velho é o zagueiro Christophe Hérelle, de 25 anos, que veio do Troyes. Dos demais, veio o brasileiro Danilo, Youcef Atal, ambos de 22, e Myziane Maolida, de 19, único que ainda não estreou.

Em linhas gerais, o salto de Vieira para o futebol europeu é observado com bons olhos. Cristóvão lembra que o Nice terá que refazer boa parte do plantel e isso representa um bom desafio para que demonstre qualidade “sem ter a pressão de ganhar já”. Cuenca endossou o comentário, elogiou o período do francês na MLS e entende que ele precisava desse salto ambicioso para provar que pode ir longe. “Ir para a Ligue 1 é uma boa porque ele volta para o seu país e pode mostrar com calma tudo que desenvolveu na MLS, mas sempre haverá uma certa desconfiança porque não levam muito a sério o torneio dos EUA lá na Europa”, complementa.

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