Os últimos atos do eterno Pibe de Ouro

Em Sinaloa e em La Plata, Diego deixou seus últimos vestígios no futebol. E como em seus tempos de jogador, nutriu alegria, amor e fanatismo em quem esteve ao seu lado

Nesta semana, Diego Armando Maradona deixou o plano terreno para viver em definitivo na memória dos fãs de futebol e em alguma dimensão que faça mais sentido para divindade que foi dentro das quatro linhas, embora fora delas fosse tão humano quanto qualquer um de nós.

Em sua trajetória com a bola no pé, Pelusa simbolizou melhor que qualquer um o futebol marginal – no melhor sentido da palavra. Seu auge futebolístico nos anos 80, representando uma cidade italiana desprezada pelo restante do país e vestindo a camisa de uma nação sul-americana vilipendiada pelos problemas sociais enquanto juntava os cacos da Guerra das Malvinas, é o resumo perfeito disto, erguendo Napoli e Argentina com a rebeldia ímpar que demonstrava tendo a bola no pé.

Se como jogador, no topo, fez da sua perna esquerda um grito dos oprimidos, seus últimos tangos como treinador reproduziram praticamente a mesma essência. Por mais que sua saúde inspirasse cuidados, a sua relação carnal e transcendental com o futebol sempre falou mais alto. E tal qual alguém designado para uma missão, não fugiu da luta para construir duas histórias peculiares e absolutamente maradonianas nos dois últimos anos. Nas casamatas do Dorados de Sinaloa e do Gimnasia La Plata, colocou a paixão pelo jogo em primeiro plano para tentar dar alegria a equipes que não são exatamente acostumadas a sorrir.

DELÍRIO E SONHOS EM CULIACÁN

“Empieza la revolución Maradoniana”

Pouco antes de desembarcar em Sinaloa, estas foram as palavras que Maradona disse ao presidente do Dorados, José Antonio Núñez. Palavras, estas, que não são segredo para ninguém, afinal, há uma série documental completa sobre a passagem de Dieguito pelo México. E nesta chegada a Culiacán, a desconfiança em relação a esta decisão era quase unânime em meio à opinião pública.

Primeiro, porque o Dorados ocupava a lanterna da segunda divisão mexicana – então chamada Ascenso MX – e a visão era de que sua contratação seria muito mais um case midiático do que um projeto desportivo. Segundo, porque os fantasmas do passado de Maradona voltavam a assombrar o imaginário geral. A região de Sinaloa é considerada a “capital do narcotráfico” desde os anos 80, e, claro, os problemas do eterno camisa 10 com as drogas forneciam um prato cheio para especulações e sensacionalismo.

Quis o destino que um cenário famoso pelas maiores fraquezas do Pibe de Oro fosse também o pano de fundo para um de seus atos finais de redenção.

A “Revolução Maradoniana” aconteceu, mas não da maneira esperada, dependendo do ponto de vista. Se a expectativa era ver a revolução implantando um conceito de futebol inovador, sustentável e que servisse como legado para o futuro do Dorados, bem, não aconteceu. Se o esperado era uma revolução na parte anímica do elenco, reconectando a comunidade de Culiacán com o time e devolvendo um pouco da moral a uma população bastante fustigada, isto sim ocorreu.

A aura que Maradona carrega foi mais do que suficiente para modificar o ambiente do clube e do vestiário, com sua simples presença oferecendo um elemento motivacional tremendo que se traduziu dentro de campo. Nos 38 jogos em que esteve à frente do Dorados de Sinaloa, foram 20 vitórias, 9 empates e 9 derrotas, com um aproveitamento na faixa dos 60%. Tanto no Apertura quanto no Clausura da temporada 2018/2019, ajudou a classificar o time para a Liguilla. Mais do que isso, fez o sonho do acesso à elite mexicana virar quase realidade.

Nas duas etapas, o Dorados chegou até a decisão da Liguilla, mas acabou sendo superado nas duas oportunidades pelo Atlético San Luís, que conquistou o acesso. No Apertura, depois de vencer por 1 a 0 na ida, o time de Sinaloa foi superado por 4 a 2 em uma partida que chegou à prorrogação. No Clausura, o drama foi semelhante. Empate em 1 a 1 na ida, derrota na prorrogação por 1 a 0 na volta.

Dado o contexto prévio à chegada de Dieguito ao México, chegar à decisão dos turnos foi um feito e tanto para uma equipe que se projetava brigar até o final na parte de baixo da tabela. Assim como quando jogador, Maradona foi responsável por levar esperança e um pouco de alegria a uma massa desacreditada. Um toque divino final que antecedia a sua reverência derradeira em vida.

A DESPEDIDA EM SEU SOLO SAGRADO

Em termos de resultados, a passagem de Maradona pelo Gimnasia La Plata não foi produtiva. O contexto, obviamente, era bastante diferente em comparação ao Dorados. Com um nível competitivo muito maior na elite do futebol argentino, fazer o limitado time que tinha em mãos superar as expectativas era muito difícil. Porém, o campo era o que menos importava. O campeonato era o que menos importava. O jogo jogado era o que menos importava neste retorno profissional de Maradona em terras argentinas.

Por cada estádio que passava com o Lobo, a veneração que recebia não somente dos torcedores, mas também dos clubes que enfrentava, era digna de um ser celestial. O que era uma partida, virava uma cerimônia religiosa.

A homenagem mais marcante, sem dúvidas, aconteceu na partida contra o Newell’s Old Boys. No Coloso Del Parque, fora a recepção da torcida leprosa que cantava fervorosamente o seu nome, ganhou de presente um trono, tal qual um rei, para acompanhar a partida. Partida que o seu Gimnasia atropelou o Newell’s por 4 a 0 sem a menor cerimônia. Bem possivelmente, os torcedores da casa pouco se importaram de ver a goleada sofrida, afinal, ali perto deles estava Don Diego.

Embora seu impacto na realidade do Gimnasia tenha sido tímido com a bola rolando, fora de campo foi imenso. Assim que Diego foi anunciado como treinador tripero, uma leva de novas associações aconteceram no clube. E não apenas por parte de fanáticos do clube de La Plata. Torcedores de outras equipes também se tornaram sócios da equipe. Tudo para ter a oportunidade de acompanhar D10s. A prova de que, independente de qualquer coisa, o maradonismo é um fenômeno avassalador.

Talvez ninguém soubesse, mas o tempo fez com que essa onda de ovações Argentina afora fosse a despedida definitiva de Maradona. Uma turnê do adeus mais dolorido para o povo portenho. Por mais que sua vida fora do futebol fosse um perene campo de discussões e despertasse sentimentos confusos, como certa feita o próprio Diego falou, la pelota no se mancha. Por tudo o que fez com a pelota, teve uma última oportunidade de receber o amor daqueles que fez feliz. Daqueles que quase sempre tiveram pouco e, quando o viam rabiscar o gramado com a canhota, tinham tudo o que precisavam. E explicar como isso acabava sendo o suficiente é impossível. Afinal, Maradona não se explica. Maradona se vive e se sente.

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Dimitri Barcellos

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