Para “El Pibe” por los pibes: a ascensão dos sub-20 na Copa Diego Armando Maradona

O dia 25 de novembro de 2020, infelizmente, ficará marcado de forma triste na história. Foi nessa data que o mundo se despediu do maior argentino de todos os tempos, Diego Armando Maradona. Apelidado de “El Pibe de Oro”, Maradona estreou aos 15 anos de idade com a camisa do Argentinos Juniors, na reta final da década de 1970, pelo Campeonato Argentino contra o Talleres.

Borocotó, mítico cronista do diário El Gráfico, sentenciou por volta dos anos 30 que, se fosse para instalar um monumento em Buenos Aires, esse monumento deveria ser de um pibe. Você pode encontrar o manifesto do cronista uruguaio, radicado na Argentina, na íntegra no livro “Angeles con caras sucias” de Jonathan Wilson. Ele basicamente descreveu Diego Armando Maradona com quarenta anos de antecedência, explicitando a alma malemolente, enganadora, dribladora e irreverente do futebol de rua, que é tão característico dos atletas de grande destaque na história albiceleste.

Pulando alguns anos, em outubro de 2020, Ralf Rangnick, guru da Red Bull, disse em entrevista ao El País, que o futebol de rua está morrendo na Alemanha, porque o esporte bretão já não é mais visto como uma saída para uma vida melhor. E nem como uma diversão, haja vista que a modernidade está substituindo a distração do futebol por outros meios, muitas vezes eletrônicos. Ele julga que essa diminuição pode ser nociva para as camadas inferiores do país germânico, pois há muitos elementos do futebol de rua que são imprescindíveis para a formação do atleta de alto nível, como a velocidade de raciocínio, atendo-se a um exemplo.

Em meio a essa dualidade, que ficará cada vez mais explícita nos debates sobre os estilos de jogo, o futebol callejero perdura, enraizado na cultura argentina. Até clubes modernos, como o River Plate, se apoderam das ruas na hora da captação de atletas para sua canteira, como contou Gustavo Grossi, diretor de futebol da equipe Millonaria, no TPI #187 aqui da casa. A essência do futebol de base argentino está aí.

Obviamente que o ideal é homenagearmos nossos ídolos em vida, porém, isso nem sempre acontece por N fatores. Felizmente a federação argentina teve a brilhante ideia de rebatizar a Copa da Liga Argentina, que dá uma vaga para a Libertadores e uma para a Sul-americana, em Copa Diego Armando Maradona.

Antes disso, a pandemia pelo coronavírus forçou os clubes a fecharem as portas e ficou nítido que eles precisariam encontrar novas fórmulas para driblar o prejuízo financeiro quando as atividades fossem retomadas. Na hora do aperto a base aparece, sempre.

Essa cruel coincidência, levando em conta que ninguém gostaria que acontecesse dessa forma, fez com que o número de jogadores sub-20 explodisse nas principais equipes do futebol argentino, que retornou às atividades na metade de outubro.

Claro, equipes como Argentinos Juniors, Vélez, Talleres, Lanús, Godoy Cruz e Banfield historicamente usam mais jovens em suas equipes principais dos que os poderosos rivais. Alguns por tradição, outros por necessidade e em vários casos muito pela junção dos dois aspectos. Com a crise financeira ocasionada pelo coronavírus, a contenção de gastos se tornou necessária e vários garotos receberam oportunidades na equipe principal.

Thiago Almada, 19 anos, e Julián Alvarez, 20 anos, de Vélez Sarsfield e River Plate respectivamente, já eram conhecidos do grande público por conta da Superliga. Almada, apesar da irregularidade no mês de dezembro, é o jogador sub-20 com maior destaque no país, sendo especulado constantemente em equipes europeias.

No entanto, outra promessa tem chamado a atenção na Copa Diego Armando Maradona. Trata-se de Alan Velasco, 18 anos, do Independiente. La Joya estreou profissionalmente em 2019, numa partida de Sul-americana contra o Rionegro, da Colômbia, quando estava para completar 16 anos. Ele também participou da seleção sub-17 no Sul-americano (onde marcou um gol) e do Mundial. Velasco é destro e atua preferencialmente como extremo-esquerdo, mas devido a enorme capacidade criativa e facilidade em finalizar jogadas, ele também pode ser utilizado no lado direito ou até como segundo atacante dependendo das circunstâncias.

Almada, Alvarez e Velasco são os exemplos mais recentes dessa característica histórica de revelar jogadores com excelente controle de bola, dribladores (ou gambeteadores na gíria portenha) e com pensamento rápido. Há um grande debate na Argentina de que, apesar de bons resultados em competições de base, o país deixou de revelar jogadores protagonistas após a geração de Messi e Aguero a nível mundial. Lautaro Martínez (23) e Giovani Lo Celso (24) surgem candidatos a esse status, apesar de tecnicamente serem inferiores.

O conservadorismo que imperou muitas vezes nas cinco equipes grandes da Argentina, que gastaram tubos de dinheiro nas últimas duas décadas por nomes mais pomposos, foi um fator que implicou no atraso da evolução competitiva das promessas.

Claro, há casos e casos no futebol. Existem jogadores extraclasse que devem atuar profissionalmente cada vez mais cedo, mas há também os candidatos à extraclasse que precisam de mais atenção, com um ritmo diferente e intercalado com a equipe principal. Percebe-se que Scaloni tenta rejuvenescer a seleção principal com nomes jovens, muitos deles já em clubes europeus.

Apesar de existir uma cultura muito forte dos torneios dos reservas, que de certa forma ajudava as seleções de base do país a serem competitivas, esse advento não fora o suficiente para criar o nível acima da média exigido pelos torcedores argentinos. Setores mais críticos da imprensa esportiva lamentam que a geração de Messi e cia não tenha sido capaz de conquistar – ainda – um título mundial.

Com a melhora dos centros de treinamento e a abrangência na captação, a tendência é que a Argentina volte a desenvolver protagonistas com maior frequência. É uma questão de geografia também. A Argentina possui 45 milhões de habitantes, algo grande comparado aos países europeus, mas pequeno se comparado ao Brasil, por exemplo. Rangnick diz que os jogadores serão profissionais cada vez mais cedo, muito pela necessidade física e da constante renovação dos plantéis. Países como Bélgica, Holanda e Portugal, que são referências nas categorias de base, são menores do que Argentina, mas que conseguem renovar seus esquadrões.

No entanto, a cultura do futebol segue intacta no país e isso já é um ponto de vantagem. Potencializar e utilizar são as chaves do sucesso. Se Almada, Álvarez e Velasco vão conseguir esse patamar, são outros quinhentos. O que importa, no momento, é colocá-los para jogar.

Além do trio, Darío Sarmiento, 17 anos, revelado pelo Estudiantes de la Plata é outro nome que surge com muita expectativa. Ventilado junto ao grupo que controla o Manchester City como possível contratação, Sarmiento é canhoto e atua pelo lado direito do ataque. Técnico, ousado e confiante, ele chegou a ser apontado pelo The Guardian na lista dos melhores jogadores sub-17 em 2020. O jovem de Florencio Varela debutou na Superliga da temporada passada, mas a experiência como titular acontecera agora pela copa, onde fora titular em três das quatro partidas que participou.

Exequiel Zeballos, 18 anos, do Boca Juniors, e frequentador da seleção sub-17, tendo participado de ambos os torneios de 2019, é a grande joia do gigante argentino. Veloz e driblador, o extremo-esquerdo Xeneize começou a fazer parte do elenco principal com mais frequência em 2020, mas ele ainda não conseguiu espaço na equipe por conta dos atletas tarimbados.

No Lanús há o caso de Pedro de la Vega, 19 anos, que é a maior promessa dos Granates, e uma das maiores na América do Sul, mas que atuara, até o momento, apenas uma vez pela Copa. El Pepo tem sido mais utilizado na Sul-americana, que é o principal objetivo do Lanús na temporada. Além disso, como o granate não se classificou para a fase final, restando o Complementación, De la Vega está sendo “guardado” por Zubeldía para o torneio continental.

Lanús está na semifinal da Sul-americana, tendo eliminado o Independiente, de Velasco, nas quartas, e agora baterá de frente com o Vélez, de Thiago Almada. Pela Copa Diego Armando Maradona, De la Vega enfrentou o Unión e foi muito bem.

Apesar de uma partida, é importante incluí-lo nessa conversa, pois – além de ter jogado o torneio – El Pepo é referência técnica de uma geração que conta com Almada, Velasco e Alvarez. Extremamente habilidoso, multifuncional, decisivo e inteligente, o pibe estreou profissionalmente aos 16, mas que só fora aparecer em sete partidas da temporada passada. Agora maduro, apesar da pouca idade, ele encanta com golaços e passes maravilhosos para os companheiros. Ele pode ser ponta, pode ser 10 e até meia-direita.

Além de Pedro de la Vega, você encontra no Lanús os nomes de Franco Orozco e Juan Pablo Krilanovich, ambos da geração 2002 que esteve na seleção sub-17 em 2019. Eles atuam com maior frequência na equipe principal pela Copa. Orozco é destro e já marcou dois gols enquanto Krilanovich é canhoto e já deixou assistência. Ambos atuam pelos lados do campo, sendo que o segundo é mais alto (1,79m).

A equipe Granate se tornou referência na formação de jovens na Argentina, tanto que no último Mundial Sub-17 eles disponibilizaram cinco jogadores para o treinador Pablo Aimar. Isso não é surpresa, pois em algumas partidas pela Copa o Lanús chegou a alinhar uma equipe cuja média de idade batia na casa dos 22,9 anos. Há uma safra muito interessante de jogadores, sobretudo ofensivos, vindo aí.

Apesar da magia dribladora dos pibes remeterem a jogadores de lado do campo, existem também os mais centralizados, como Matías Palacios (18 anos, San Lorenzo), Carlos Alcaraz (18 anos, Racing) e Francesco Lo Celso (20 anos, Rosario Central). O último chama a atenção por ser irmão mais novo do craque do Tottenham, porém, o jovem Francesco possui grande habilidade com a pelota para criar expectativas por conta própria, tendo, inclusive, anotado um golaço de fora da área contra o Defensa y Justicia na última rodada.

O golaço de Francesco Lo Celso aparece aos 2:50. O primeiro na carreira da promessa Canalla.

Palacios foi um dos principais destaques da Argentina na conquista do Sul-americano Sub-17, em 2019, porém, sua transição ainda não foi bem sucedida devido a concorrência na equipe principal. No entanto, o armador, que se notabiliza pelos dribles curtos, velocidade e passes arriscados, tem participado das partidas do Ciclón vindo do banco de reservas. Já Carlos Alcaraz fora possivelmente a melhor coisa deixada por Sebastián Beccacece no comando do Racing. Habilidoso e finalizador, o garoto da Academia pode atuar como segundo atacante ou como meia vindo de trás. Assim como Lo Celso, ele já balançou as redes na Copa Diego Armando Maradona.

Há outras grandes promessas, menos ofensivas dos que os citados, que tem brilhado na Copa, como Santiago Hezze, volante de 19 anos do Huracán, que já fez gol; Luciano Ferreyra, meia de 18 anos do Rosario Central, com passagens por seleções de base; Alexis Sabella, volante de 19 anos do San Lorenzo, que deixou de ser enganche na equipe reserva para virar “5”; Fausto Vera, volante de 20 anos do Argentinos Juniors, titular absoluto do Bicho e destaque na seleção sub-20; Juan Sforza, meia de 18 anos do Newell’s, frequentador da Albiceleste na base e que anotara um golaço de fora da área contra o Central Córdoba no Complementación.

Adicione também exemplos mais alternativos como Juan Roman Pucheta, de 18 anos do Argentinos Juniors, que é centroavante, já fez gol e que vem buscando seu espaço no Semillero na fase final. Alexander Díaz, 20 anos e 1,72m é outra aposta para o setor ofensivo do San Lorenzo.

É bem verdade que o nível de exigência na Copa é diferente da liga, o que acaba por atribuir um caráter laboratorial ao certame. É um momento propício para as equipes testarem as promessas e sentir o momento de cada um. Vários estão respondendo bem, apesar de ser difícil agradar o eterno o saudosismo.

Ninguém espera que esses pibes se tornem novos Maradonas, até porque nunca haverá um mito tão importante para a sociedade argentina como ele. E o próprio também não gostaria de ver tal responsabilidade sendo imputada aos meninos. Todavia, é muito significativo ver tantos brilhando no torneio que carrega o nome do maior pibe argentino que já existiu.

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Caio Nascimento

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