Pellegrini: a história dos romanos na Roma continua

A história dos capitães romanos na Roma é de muita alma e técnica, e Pellegrini segue à risca o caminho 

A Roma, mais do que muitos clubes pelo mundo afora, tem uma relação muito pessoal e particular com seus capitães. Dentre os cerca de 29 jogadores que vestiram em algum momento a faixa de capitão romanista, nove deles eram romanos e romanistas.

A história passou por nomes como Attilio Ferraris e Bernardini no passado, teve Di Bartolomei e Bruno Conti nos anos 80, Giannini na virada para os anos 90, e teve em sequência três capitães romanos e romanistas: Totti, De Rossi e Florenzi. 

Agora é Lorenzo Pellegrini quem continua essa história. Além de romanos, romanistas e capitães giallorossi, todos em comum tem a qualidade de grandes nomes técnicos da história do clube. E o crescimento técnico do novo capitão romanista se vê na fase recente dele pelo time da capital. 

Pellegrini não tem a carreira 100% romanista como Totti teve (veio do Sassuolo em 2017), mas mesmo assim começou a construir sua carreira no clube com boas atuações, em meio ao clima caótico fora de campo, tendo lidado com dois presidentes, três diretores-técnicos e quatro treinadores, enquanto ele permaneceu lá durante todo esse tempo.

O seu desempenho só cresceu desde que vestiu a primeira vez a faixa de capitão em dezembro de 2019, e como foi ficando na função, uma vez que Florenzi e Dzeko, que estavam na sua frente na lista da capitania romanista, acabaram por ter conflitos e deixar o clube.

Grandes poderes requerem grandes responsabilidades, e Pellegrini em números soube confirmar a confiança que foi lhe dada por Paulo Fonseca, marcando seu recorde de gols em uma só temporada e chegando aos dois dígitos, com 11 gols, e alternando entre a meia-central e a função de meia avançado, o popular trequartista do time giallorosso.

Por outro lado, o fato curioso é que sua posição de origem, desde quando surgiu no Sassuolo, não era nem a de meia-central, o mediano, como conhecido na Itália, nem a de trequartista. Mas sim o de mezzala, como o próprio meia já chegou a admitir em entrevista ao Corriere della Sera, em 2018.

Com a chegada de Mourinho, Pellegrini ganhou ainda mais poderes. Desde o primeiro amistoso da pré-temporada, em que Dzeko ainda não tinha se transferido para a Inter, o romano ganhou a faixa de capitão. A sua importância para o Special One era de tal forma que quando foi expulso diante da Udinese, o treinador ficou abatido por ter de jogar o Derby diante da Lazio sem ele.

Mas o que faz toda essa importância de Pellegrini? As respostas estão desde o jeito de se movimentar, com uma corrida elegante e sempre de cabeça erguida, mas com espírito de sacrifício na marcação como meio-campista, de forma que está em toda parte do campo. Entre os jogadores com mais de duzentos minutos disputados, ele é o décimo no campeonato em quilômetros percorridos, segundo dados colhidos por L’Ultimo Uomo. 

Mourinho concedeu a liberdade de posicionamento ao meia. Em comparação com a temporada passado Pellegrini move-se com liberdade incondicional para o campo, graças também à nova organização da Roma. A equipe joga agora no sistema de 4–2–3–1, com bom apoio de Cristante e Veretout. 

Pellegrini na atual temporada tem um papel distinto, com menos espaço. Mas ter menos espaços para correr e jogar como trequartista no 4–2–3–1 de Mourinho, permite que ele siga mais seus instintos. Ele não corre menos, mas pode correr para onde quiser. Joga como meia-atacante, mas seu papel é indefinível. 

Ele pode recuar para se juntar aos dois meias defensivos para ajudar na saída, pode escapar para criar superioridade numérica por fora, pode oferecer uma referência e permitir que o centroavante dê profundidade, ou ele mesmo pode se movimentar para a área do pênalti, em bons exemplos de inserção, como foi no caso do lance do belíssimo gol de calcanhar no Verona.

Em resumo, Pellegrini fica livre para se tornar o protagonista do jogo em equipe, seguindo o caminho de sua versatilidade. As funções que exerce pela Roma são múltiplas e dizer que liga o meio-campo ao ataque é um mero eufemismo. Os giallorossi com ele são mais imprevisíveis, mas ao mesmo tempo mais estáveis.

A definição do papel de Pellegrini pode ser dita por esse trecho do texto de Emanuele Atturo para L’Ultimo Uomo que é referência para este post: 

Na única partida que Pellegrini perdeu este ano, o clássico contra a Lazio, a Roma parecia uma equipe amorfa: sem equilíbrio defensivo, mas sem nem mesmo um brilho ofensivo que em certo sentido a justificasse. Mkhitaryan, que jogou em seu lugar, é menos capaz de costurar o jogo e jogar nas áreas centrais; A Roma parecia estar jogando com um homem a menos sem Pellegrini. Existe um sentimento que reflete mais profundamente a importância de um jogador?

Numa Roma de Mourinho que aceita serenamente o desequilíbrio e a desordem, o talento de Pellegrini está perfeitamente à vontade, muito mais do que no jogo mais codificado de Fonseca com a bola. Ao mesmo tempo, ele é a espinha dorsal da equipe, sem a qual tudo entraria em colapso. 

Pellegrini virou a espinha dorsal porque consegue harmonizar a estrutura da equipe na fase com a posse de bola, por como ele se sacrifica na fase sem a bola, mas também muito porque é cada vez mais incisivo no terço final do campo.

Ironicamente, na seleção italiana de Mancini, em um contexto mais organizado, pareceu por vezes na reta final da Nations League, um pouco fora dele em uma equipe que adora atacar de forma ordenada e que só se permite uma grande exceção à regra. Com ele no meio, a aceleração é grande para uma “squadra” acostumada ao controle e domínio de bola de nomes como Verratti.

A sua aceleração e bagunça que se vê toda vez que tem a bola foram considerados necessários para Mancini fazê-lo dele seu “décimo-segundo jogador” antes da Euro, já que os duelos mais tarde pela Nations League mostraram que ninguém tem o seu talento se houver um jogador para driblar em espaços apertados ou colocar um companheiro na cara do gol.

Porém, a temporada do meia romano, embora tenha um crescimento técnico, também tem um quê de azar. Na véspera da estreia diante da Suíça, Pellegrini foi cortado por lesão e acabou ficando de fora do time campeão da Euro, o que fez Castrovilli ser convocado em seu lugar. 

Mas os números dessa temporada demonstram o crescimento de Pellegrini: 7 gols e 2 assistências em 11 partidas e uma melhoria facilmente visível nas estatísticas avançadas. Pellegrini aumentou na liga significativamente seus números de xG (1.55) e xA (1.84) por jogo. Além disso, melhorou num dos aspectos que mais prejudicou a sua consideração nos últimos anos, a frieza na frente do gol.

Sua importância para o time romanista é visível, e se pode perceber que Pellegrini, que embora não tenha títulos conquistados vestindo a camisa giallorossa, segue bem o caminho dos principais capitães do lado romanista da cidade eterna. 

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