Por que Genoa e Sampdoria vão tão mal?

Rivais de Gênova dividem a lanterna da Serie A, problemas com donos, problemas defensivos e ofensivos; Como sair dessa situação?

A pergunta-título do texto seria até simples de responder se tentar resumir os erros em incompetência. Mas os problemas nos protagonistas do Derby della Lanterna, Genoa e Sampdoria, lanterna e vice-lanterna da atual edição da Serie A, parecem complexos demais para serem resumidos e não discutidos. 

O Genoa sofre há anos com um problema: a instabilidade de pensamento do dono. Desde a chegada de Enrico Preziosi a presidência rossoblù, em 2003, somente um técnico conseguiu durar mais de uma temporada no banco da equipe: Gian Piero Gasperini.

Só Gasperini, por duas vezes, conseguiu ficar períodos longos no banco do Genoa. Seja entre 2006 e 2010, ou entre 2013 e 2016. Desde a segunda saída de Gasperini, no entanto, 5 treinadores diferentes passaram pelo Genoa nos últimos 3 anos, sendo Ivan Juric, hoje no Verona, por três oportunidades o treinador rossoblù.

E se considerarmos desde o começo da gestão Preziosi, o último sem ser Gasperini a ficar uma temporada completa no Genoa foi Serse Cosmi, em 2004–05. Escolhas erradas de treinadores, especialmente de perfis diferentes, minam trabalhos futuros.

Podemos concluir que a partir disso, trabalhar no Genoa é uma panela de pressão, ou mesmo uma sentença de morte se não conseguir domar os egos de Preziosi. E é pior pensando em uma questão que ajuda na sobrevivência do clube, se lembrarmos da questão dos jogadores.

Por muitas vezes os jogadores são vítimas dessas situações. No caso do Genoa, o clube também parece tratar seus jogadores mais como mercadorias do que propriamente como peças para o clube. Podemos citar um caso específico, baseado na temporada passada. Que, aliás, pode ser o exemplo de como são geridos os rossoblù.

Além da questão de demitir Ballardini quando o time ia bem no campeonato, e ressuscitar a aposta Juric que deu errado, a aposta no velho Prandelli não deu muito certo como se esperava. Embora esta pode ter suas ressalvas para o ex-treinador da seleção italiana.

Prandelli chegou em novembro, em um time que era dependente de Piatek e Kouamé para fazer gols e fazer pontos. Mas que depois disso a medida em que as especulações de saída foram acontecendo, ambos foram murchando com a camisa rossoblù.

Piatek acabou indo embora, pra destruir os sonhos de Prandelli em contar com ele. Kouamé não saiu, mas seu futebol não foi mais o mesmo na temporada 2018–19. Romero foi vendido a Juventus, mas acabou permanecendo, e ainda assim sendo um dos melhores jogadores rossoblù.

É claro que se entende a situação financeira do Genoa há anos, com dificuldade de produzir receitas, e vivendo apenas do que a cota de TV lhe permite e tendo que produzir receitas através da venda de jogadores que aparecem pelo clube, aproveitando a boa captação de jovens que os rossoblù tem pela Europa e que descobrem diversos talentos. 

E outro entre parênteses na história, a relacionar também com a rival Sampdoria: a situação financeira dos dois lhe fizeram com que recusassem uma concessão em conjunto do estádio Luigi Ferraris a um preço que para muitos outros clubes seria acessível: 15 milhões de euros.

As reposições também não surgiram como o esperado. Especialmente em um caso: o paraguaio Sanabria, que até estreou com gols no Genoa, marcou 3 gols em suas primeiras 4 partidas. Mas depois disso, nada mais. Pouco pra quem veio pra substituir Piatek, e consequentemente a fonte genoana secou.

Não a toa no returno de 2018–19, o Genoa só venceu três jogos, e se considerarmos o campeonato todo, emendou duas vezes uma sequência de 9 jogos sem vencer, e na reta final chegou a 10 jogos sem vencer. E com dificuldades de marcar gols.

Depois de tantas confusões, dá pra entender porque o Genoa se salvou apenas com um “jogo de compadres” feito contra a Fiorentina na última rodada em que o empate salvava as duas equipes da Serie B. E porque nas últimas 3 temporadas, correu risco de rebaixamento em duas.

Na atual temporada, já com Andrea Andreazzoli, o Genoa até que começou bem no campeonato, com um empate de 3–3 diante da Roma, em que pecou defensivamente, mas fez um jogo competitivo, e na vitória por 2–1 sobre a Fiorentina. 

Alguns dos poucos resultados foram de um time que se sustentou nas bolas paradas com Schone. Um ponto em comum com o super Ajax de Erik ten Hag, ou mesmo com os anteriores, de Peter Bosz, por exemplo. Tirando que os Godenzonen tinham isso como um dos muitos recursos. O Genoa tinha como um dos poucos recursos.

Isso quando ele estava em campo. Andreazzoli permitiu a situação em que o homem que foi decisivo na vitória do Ajax diante do Real Madrid no Bernabéu em fevereiro virasse reserva de uma partida do Genoa em setembro. Sendo Schone o terceiro jogador rossoblù em média de finalizações: 1,88 por jogo, o mesmo que Kouamé, e atrás apenas de Pinamonti, que tem 2,38 chutes por jogo.

Outro ponto importante do jogo genoano eram as bolas em velocidade e profundidade para Kouamé, que começou individualmente bem na temporada. Porém, apesar de sua criação, o problema na hora das finalizações nunca foi prontamente resolvido por Andreazzoli, mesmo tendo o jovem Pinamonti, que só desencantou na última partida contra o Parma.

O Genoa até tem suas virtudes defensivas com o veterano Criscito e o zagueiro argentino Romero, agora emprestado da Juventus. Mas duas andorinhas não fazem verão, e o time sofria especialmente com os chutes de longa distância aceitos pelo goleiro Radu, e principalmente com a lentidão defensiva. 

As táticas de Andreazzoli envolviam por essência uma tentativa de jogo de posse, como feito no seu Empoli entre 2017 e 2019, e que exploravam o individualismo de seus jogadores. Um jogo que, por exemplo, explora muito seus laterais e a velocidade dos atacantes como Kouamé, ou mesmo o lado dos meias, as vezes chegando a fazer isso até mesmo na base da ligação direta com base nos zagueiros: 

Aqui, contra a Atalanta,Criscito procura acionar Kouamé com passes longos, uma das maneiras de acionar o ataque rossoblù. (Foto: Total Football Analysis)

Porém, as jogadas passam mesmo por um corredor específico, no lado direito, com o jovem italiano Ghiglione, de 22 anos, onde em qualquer um dos módulos de jogo aplicados por Andreazzoli, ele tinha boa participação: 

Aqui, é Ghiglione quem procura o jogo, tentando acionar diretamente os atacantes (Foto: Total Football Analysis)

A participação de Ghiglione era vista no lado direito até mesmo na saída de bola, como demonstra essa imagem contra o Milan: 

Outra demonstração de como o jogo passa pelo lado direito com Ghiglione, que vai buscar a bola na saída de jogo do Genoa (Foto: Total Football Analysis)

Mas tudo mudou após a vitória sobre a Fiorentina: o que era um bom começo, virou 5 derrotas em 6 jogos pela Serie A. Talvez por alguns pecados capitais, como a insistência em alguns jogadores como Radovanovic no time titular, o fato de ter colocado no banco não apenas Schone como Pinamonti, exagerando na importância dada ao veterano Pandev, dentre outras coisas.

Apesar de seus 65 anos, Andreazzoli é quase um novato na Serie A, nunca tendo completado uma temporada na primeira divisão, e nesse caso, precisa ser apoiado e ajudado. O que não existe no Genoa, onde no primeiro momento de dificuldade, ele foi apontado como a única pessoa responsável pela falta de resultados, o que é de praxe na gestão Preziosi. 

O curioso é que o Genoa em termos de ataque não deixou de funcionar. Marcou 9 gols em 8 jogos, mais até, por exemplo, que equipes que estão a sua frente na tabela, como a Udinese, o Milan e o Verona. Mas o fato de ser a pior defesa do campeonato, sofrendo 20 gols, em média de 2,5 por partida, virou uma sentença de morte para o jogo ofensivo de Andreazzoli.

Após as derrotas, o Genoa teve a ideia de trazer Pioli. Não conseguiu a tempo pois o treinador preferiu o Milan. Teve que engolir Andreazzoli. Teve que engolir no domingo uma goleada de 5–1 para o Parma. E agora, sonhando com Massimo Carrera, campeão russo com o Spartak em 2017–18, acordou com um velho ídolo do passado recente e iniciante no cargo: Thiago Motta.

Com Thiago Motta, se promete manter a ideia de um jogo ofensivo que o ítalo-brasileiro já praticava no sub-19 do PSG. Ele chegou a demonstrar uma ideia de que gostava de um 2–7–2, embora não literal, em que considerava até o goleiro como parte dos meias e da saída de jogo, em que explica no vídeo abaixo.

O fato é que com os últimos resultados, especialmente após a goleada de Parma, Aurelio Andreazzoli entrou definitivamente para essa estatística dos demitidos por Preziosi. E a gestão de Preziosi se candidata todo ano a ter seu primeiro rebaixamento desde que o presidente recebeu o Genoa na Serie C1, em 2003. 

Já a Sampdoria não vem sofrendo tanto quanto o rival nos últimos anos. Teve campanhas sólidas com Marco Giampaolo no meio da tabela, teve bons jogadores, teve os gols de Quagliarella. Mas de repente Giampaolo saiu, os gols sumiram no ataque, e em compensação, os sofridos pareceram aumentar na defesa.

Na aposta de Di Francesco, se esperava uma Sampdoria que resolvesse alguns dos problemas da era Giampaolo, como por exemplo, a baixa contribuição dos meias para o ataque. Na fase defensiva, uma linha de quatro e um sistema de marcação por zona.

As substituições de mercado, como principalmente nas saídas de Andersen para o Lyon e de Praet para o Leicester através das chegadas de Jeison Murillo e Jankto ainda não se provaram como soluções para os dorianos, além do fato que depois dessas contratações, vieram poucas adições de qualidade à equipe, em um mercado em que a Samp não soube tirar coelhos da cartola como sempre tirou com seu excelente scouting.

Mas a Sampdoria se tornou um time previsível, tal qual como a Roma na reta final de Di Francesco. A falta de padrão tático também pesou. Nos 8 jogos do treinador pela Samp, foram 4 esquemas táticos diferentes (3–4–2–1, 3–5–2, 4–3–3 e 3–4–1–2). 

Pouca criação que não fazia a bola chegar a Gabbiadini e Quagliarella. E mesmo quando a bola chegava, uma quantidade incrível de gols era perdida. Mas é bem verdade também que a falta de padrão pesava pra isso, seja no aspecto tático ou na intensa rotação.

E a falta de padrão era tanto nas escalações, que 22 dos 30 jogadores do elenco doriano já jogaram na temporada. E três deles jogaram os oito jogos: o goleiro Audero e dois que simbolizam a bagunça tática de Di Francesco: Berezynski e Murru

O russo chegou a jogar de zagueiro nos esquemas com três zagueiros, atuou pela meia-direita e atuou pela lateral-direita quando se postou na linha de quatro defensiva. Já Murru atuou “apenas” pela lateral-esquerda com linhas de quatro defensivas e pela meia-esquerda quando havia um esquema com três zagueiros.

Defensivamente é um capítulo a parte: “vãos” eram abertos por conta da ausência de cobertura defensiva, e da facilidade com que a equipe sofria contra-ataques e contra ataques minimamente velozes, como no caso das imagens abaixo, que são da jogada do primeiro gol do Napoli na vitória por 2–0 sobre a Samp, em 14 de setembro. 

Um retrato defensivo do jogo contra o Napoli da Samp de Di Francesco: a ausência de coberturas defensivas no começo da jogada do gol de Mertens (Foto: Total Football Analysis)
A defesa em linha da Sampdoria não teve bom momento contra o Napoli, e permitia fáceis deslocamentos dos napolitanos (foto: Total Football Analysis)

Com tantos problemas defensivos, tendo a terceira pior defesa da Serie A, com 16 gols sofridos, e ao lado da Udinese, tendo o pior ataque do campeonato, com apenas 4 gols marcados, era inevitável a demissão de Di Francesco. 

Com Ranieri, as ideias mudam um pouco. E no empate por 0–0 com a Roma encontram lastro para a salvação, pouco sofrendo com contra-ataques romanistas e com bolas aéreas, por exemplo, que foram as principais fraquezas da era Di Francesco. Se essas fraquezas defensiva e ofensiva vão se manter no resto do campeonato com o treinador romano, veremos ao longo desta edição. 

O fato é que na Samp, tal qual o rival, temos o mesmo problema: o dono. Só que nesse caso, é justamente pela perspectiva de saída dele que as coisas andam atribuladas. Muito porque apesar dos problemas financeiros, Massimo Ferrero tem ações diferentes de Enrico Preziosi.

Em termos de treinadores, Ferrero é Preziosi as avessas. Desde que chegou, em 2013, a demissão de Di Francesco foi apenas a segunda no meio de uma temporada, sendo a única apenas a de Walter Zenga em 2015–16, substituído pelo ídolo Vincenzo Montella.

Pra piorar, nos últimos dias as negociações com a Calcioinvest, que tem entre seus acionistas o eterno ídolo doriano Gianluca Vialli, por uma compra do clube que envolvia valores de 100 milhões de euros, colapsaram e foram pra estaca zero. 

Em um ambiente de tantas incertezas como o da Sampdoria, é difícil manter um trabalho sem lastro como era o de Di Francesco. Talvez alguém experiente e campeão como Ranieri pode acertar as coisas nos lados dorianos em meio a tanta incerteza do futuro. 

Com ambientes complicados, fortes contestações dos ultras, Genoa e Sampdoria terão de reagir para que o Derby della Lanterna volte a significar apenas o símbolo do farol da cidade portuária de Gênova, e não seja associada as posições dos dois times da cidade na tabela.

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Caio Bitencourt

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