Por que Michael não vale R$40 milhões

Flamengo e Corinthians brigam pela contratação da revelação do Brasileirão 2019 e a pergunta que fica é: Michael vale mesmo tudo isso?

O Campeonato Brasileiro sempre tem uma revelação impactante de tempos em tempos ou goleadores vindos dos centros menores: Keirrison, Josiel, Souza, Dimba, Pablo… a lista é grande. E os clubes brasileiros de maior aporte financeiro vão atrás para contratá-los. Às vezes, a amostragem é curta, uma temporada de alto nível e pronto: o jogador vale muito dinheiro. Os diretores do jogador inflacionado – e que não são bobos – vendem. O bola da vez é Michael, atacante do Goiás, que fez um campeonato de qualidade suprema. Dribles, gols e assistências. Ele é bom, a revelação do campeonato, mas vale os 40 milhões que o Goiás quer

Antes de elencar os motivos que eu considero impagáveis esses 40 milhões em Michael quero dizer que se trata de um jogador raro, um milagre do esporte. De jogador da várzea ao estrelato no difícil futebol brasileiro, é para poucos. Um estouro “tardio” no futebol, com todos os problemas sociais que rodearam o atleta e ele nunca desistiu merece ser louvado; ainda mais no cenário precoce e profissionalizado do futebol atual. Michael é um diamante bruto, um jogador que aparece de tempos em tempos. Um jogador “autoritário”, ele incendeia onde joga, um cara que a gente gosta de ver. Quem não gosta de dribles? 

Contexto: um dos fatores da explosão de Michael

Análise, antes de tudo, é contexto. Isso vale para jogadores. Michael foi testado em um contexto propício para seu talento: com adversários dando campo, o Goiás soube explorar o “robôzinho”. Foi o primeiro no índice de jogadores com finalizações vindas de lançamento, segundo o Footstats. O Goiás era franco atirador no Brasileirão e isso fez o time como um todo especular contragolpes; Barcia, Michael e Kayke (esse mais no início do campeonato) se notabilizaram nesse cenário. Barcia já foi para o Sport onde também encontrará o mesmo contexto; Kayke saiu antes para o futebol árabe e Michael seguiu fazendo um ótimo campeonato. 

Se fosse basquete, o Michael seria o franchise player do Goiás. Em entrevistas o atleta e treinador diziam que o time deixava o jogador escolher a jogada que quisesse e alguns jogadores se sacrificariam pelo melhor jogador do time, alguns defendendo mais e deixando ele confortável para marcar gols. Na fase ofensiva pode jogar na tentativa e erro no Goiás, já que o time era moldado para ele. Na fase defensiva, com inúmeros problemas de recomposição e embate. Jogador que precisa ser lapidado nesse sentido. Lembrando que não é nenhum moleque, já tem quase 23 anos e sua curva de aprendizagem está quase no pico.

Em um desses times que querem o jogador ele terá o cenário de jogar em campo aberto? Quantos metros Michael precisa para ter seu futebol explorado ao máximo? Em qual desses times Michael poderá deixar a fase defensiva de lado? 

Fisicalidade: uma das fraquezas do jogador

Michael é um jogador de 1,66. Seu biotipo não é dos mais favoráveis para embates físicos. Seus dribles, sempre incisivos e tentando progredir. Jogador vertical, raramente veremos ele buscando “humilhar” o adversário. Mas quantos confrontos físicos de verdade Michael teve nessa Série A? Michael é um cara de ótima troca de direção, mas com pouca resistência ao toque do adversário. Seus retornos defensivos, como falei a pouco, são prejudicados, também, por isso. Isso é problema da falta de formação nas categorias de base. Com membros inferiores mais curtos, necessita fazer o dobro de esforço para atingir seu ápice de velocidade ou força. Isso pode acarretar em lesões musculares rapidamente.

Michael foi eleito a revelação do Brasileirão 2019

Mercado Inflacionado e fantasia

Eu já escrevi sobre Michael e seus dribles colunas atrás no Footure Club (apoiem lá). Ele é um jogador “chamativo”, muita gente diz que está em extinção no futebol. Michael, antes de tudo, é um ótimo driblador. É o jogador que mais driblou no campeonato, 74 dribles certos; mas é o que mais precisa de minutos para driblar, em média 40 minutos para dar um drible. Mas vamos ao contraponto? Michael é o jogador que mais perdeu bolas no Brasileirão: foram 243. Em média, o terceiro colocado. Só atrás de Patrick (7,2) do Inter e Otero do Atlético-MG (7,1). Numa contagem maior, entre os jogadores com 1000 minutos jogados, ele precisa de 12,4 minutos para perder uma bola. Seus dribles, devidamente exaltados, precisam ser colocados em uma balança. Essas perdas geram contragolpes e a maioria dos gols no Brasileirão são assim. 

E vamos de mercado. Moneyball, o filme preferido entre 11 de 10 pessoas que gostam de esporte fez uma citação que, não sei se se enquadra ao Michael, se enquadra ao mercado de transferências: “a tendência é ser influenciado pelo desempenho recente de algum jogador e não necessariamente ao que ele fará a seguir.” O mercado com o ‘boom’ financeiro do Flamengo e o derramamento de dinheiro da BMG no Corinthians faz uma briga inflacionada por Michael. Um jogador que tinha desempenhos baixos em divisões menores, mas de uma temporada estrelar no primeiro escalão do futebol mundial. Jogador que, mesmo não fazendo uma temporada do nível e brilho de Michael, teve esse mesmo frenesi foi Pablo Felipe. Jogador contratado por €6 milhões e fez apenas 7 gols em 26 gols em 2019. Na temporada de antes vinha de 35 jogos e 17 gols, além de 5 assistências. 

Novo Habitat: o melhor jogador é o que se adapta a contextos

Michael sairá do Goiás, invariavelmente, para um clube de exposição nacional. O Goiás, mesmo sendo grande na região centro-oeste do país, tem menos peso que Corinthians e Flamengo. E a gente sabe como a opinião maior funciona: se ele for mal em 5 jogos seguidos, vai ser o “Mico do Ano”. E isso vai além da qualidade de Michael, que é grande. Futebol tem a cultura do lugar em que o jogador é inserido. Michael, hoje, se adaptou ao contexto goiano e o lifestyle da cidade e o jeito de jogar do clube. Indo para Flamengo e Corinthians ele estaria adaptado prontamente a isso? As pessoas que julgariam sua qualidade dentro de campo esperaria a adaptação de 6 meses caso oscile? O campo e fora dele precisam responder essas questões, o futebol tem pressa.

Michael é ótimo jogador, reitero, mas 45 milhões de reais é algo que foge da compreensão do mercado brasileiro que precisa de austeridade e cada vez mais precisão na janela de transferências. Mesmo o Flamengo que lucrou bastante ou o Corinthians que tem um aporte financeiro gigante na atualidade. O Goiás está no seu direito de “leiloar” o jogador, futebol é oferta e demanda. O “cheque” é branco na atualidade, Michael poderia muito bem ir para outro centro e enfileirar adversários. Mas 40 milhões em um atleta que fez uma temporada de alto nível, com 23 anos, e quase sem chance de revenda, é algo babilônico. A ver quem paga, eu não pagaria. E posso quebrar minha cara por ser pão duro.

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Mairon Rodrigues

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