PRA ONTEM OU PRA AMANHÃ?

Por @felipesimonetti O Brasil tem uma maneira peculiar de viver as coisas. Ficamos famosos pelo famoso jeitinho, que sempre buscar uma manobra fácil e rápida de resolver os problemas. Essa referência, é claro, não se sustenta somente na vida civil. Como tudo que acontece não só neste nosso amado país, mas no mundo inteiro, há nítidos […]

Por @felipesimonetti

O Brasil tem uma maneira peculiar de viver as coisas. Ficamos famosos pelo famoso jeitinho, que sempre buscar uma manobra fácil e rápida de resolver os problemas. Essa referência, é claro, não se sustenta somente na vida civil. Como tudo que acontece não só neste nosso amado país, mas no mundo inteiro, há nítidos reflexos no futebol. E, com a profissionalização do futebol e o enorme potencial desse mercado que envolve direito televisivo, venda de atletas, renda pela torcida, dentre outros, vivemos um dilema na gestão esportiva: o planejamento versus o resultado.

É claro que o melhor dos mundos se encontra na junção dos dois: que diretor em sã consciência não gostaria de ver seu clube levantar taças enquanto planeja o futuro do clube. Essa, contudo, talvez seja uma realidade mais europeia, distante das gestões antigas do futebol brasileiro. Hoje, sendo mais claro, vemos o paradigma do curto prazo contra o longo prazo. Dado o tempo atual, qual caminho deve ser percorrido pela gestão dos clubes: o de “arrumar a casa” ou o de “levantar o caneco a qualquer custo”? Esta dicotomia está bem representada pelo choque de duas gestões e personalidades: a do Palmeiras de Maurício Galiotte (sucessor de Paulo Nobre) e Alexandre Mattos ou o Flamengo de Eduardo Bandeira de Mello e a sua equipe financeira.

 

CURTO X LONGO PRAZO

A torcida brasileira é impaciente, todos sabemos disso. Bastam quatro meses de maus resultados (ou as vezes nem precisa de tudo isso) que a arquibancada já se opõe ao treinador – Eduardo Batista que o diga. Basta uma sequência negativa para que todo planejamento tático, técnico e financeiro seja enterrado – conhecem um tal de Zé Ricardo, certo?

Esse talvez seja o maior defeito do nosso esporte: a falta de tempo. A pressa e a soberba engolem a perspectiva de sucesso a longo e médio prazo. Mas vamos focar no que interessa: qual modelo de gestão é o ideal para o atual cenário? Em palestra que compareci em maio, o vice-presidente de futebol do Cruzeiro, Bruno Vicintin, expôs sabiamente esse contraste baseado no que Marcelo Bielsa havia ressaltado dias antes. Para ele o futebol brasileiro se confronta diariamente com a imprensa e ela, diretamente, influencia nas tomadas de decisão dos cartolas. Em um programa de almoço de sábado os jornalistas cobram organização, saneamento das dívidas e contenção de gastos; no fim do domingo os mesmos, inflados com a goleada sofrida para um grande time, já pedem a cabeça do treinador e contratações “para ontem”. Afinal, qual o caminho?

 

GESTÃO BANDEIRA DE MELLO

No dia de sua posse, o atual presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, passou a tarde na Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) apurando as dívidas rubro-negras. Foi quando se deparou com o tamanho do desafio que lhe aguardara. Em resposta a isso alterou seu o discurso de posse já pronto e costurou o novo texto com duras críticas à gestão que lhe antecedera.

“Se dentro de campo sofremos com o time, fora de campo a situação é mais preocupante. Hoje o Flamengo tem a justa fama de clube mau pagador, não tem transparência, não tem qualidade na governança, chega a ser irresponsável no papel de contribuinte. Temos penhoras motivadas por não pagamentos. Como vamos poder cobrar dos nossos atletas conduta responsável se não damos a contrapartida? Nós estamos assumindo o Flamengo agora, adoramos o futebol, temos compromisso com esportes olímpicos e com o bem estar do sócio. Não vamos descansar enquanto não conseguimos equacionar esse passivo que não é só financeiro. É ético. É moral”, discursou no dia 27 de dezembro de 2012.

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A partir disso vieram mudanças políticas não só dentro do clube, mas na estrutura do futebol brasileiro. A maior conquista não foi um troféu, mas a política de responsabilidade que renegociaria as dívidas dos clubes exigindo uma contrapartida das gestões que assumissem a responsabilidade fiscal do clube. E assim surgiu o Profut.

Tudo fora de campo parecia lindo, mas futebol ainda é jogado com os pés. O time do Flamengo era fraco e teve como referência nomes como Chicão, Elano, Marcelo Moreno, Ibson, mas todos, comicamente, na pior fase de suas carreiras. Enquanto isso, o time se reorganizava internamente. O novo contrato com a Adidas, o Profut, a venda e dispensa de medalhões como Vágner Love ajudou o clube a se organizar; o futuro vinha sendo traçando. Elias chegara como peça-chave por empréstimo. E logo conquistou o carinho da torcida, principalmente quando acertou um chute de fora da área contra o Cruzeiro. Passo importante à conquista da Copa do Brasil de 2013. Um ponto-chave, uma finalização que entra e muda o jogo.

Hoje, mesmo eliminado da sonhada Libertadores e com um desempenho decepcionante nas primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro, o Flamengo colhe os bons frutos. Depois de muita austeridade e anos apertados, o time tenta se consolidar. Os velhos medalhões em fim de carreira foram substituídos por jogadores afirmados, como Guerrero, Diego e Réver. Outras apostas estão chegando, como Rhodolfo e Éverton Ribeiro, além de Conca, que deve estrear em breve. Assim, vemos que o Flamengo é fruto de um planejamento interno muito bem feito, mas que só foi possível com o apoio da imprensa, que hoje se esgota. Mas afinal é hora de resultados. A dívida ainda não está totalmente saneada, mas as passadas se ajeitaram depois da paciência do torcedor, que abraçou o projeto e hoje cobra taças.

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ALEXANDRE MATTOS, O HOMEM POR TRÁS DE GILVAN, NOBRE E GALIOTTE

Despojado, cruzeirense, irreverente, as vezes debochado, mas acima de tudo muito trabalhador. Esse é o perfil de um dos maiores campeões do futebol brasileiro da década. E não adianta pensar em Andrés Sanchez (talvez pudesse ser ele mesmo) ou Cuca, Emerson Sheik e Alecsandro. Este homem trabalha nos bastidores e é ele quem proporciona a ascensão da maioria dos nomes que ganharam capas de jornal e taças. Alexandre Mattos é discreto, mas extremamente eficiente, desde os tempos de América Mineiro.

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Em 2013 e 2014, conta Bruno Vicintin sobre os bastidores, o Cruzeiro não tinha o mesmo porte dos seus rivais. O Atlético Mineiro estava perto de contratar Diego Tardelli e negociava com Robinho (este mesmo que hoje veste a camisa alvinegra), o Cruzeiro por sua vez anunciava a saída de Montillo, seu maior craque. Que futuro teria a camisa celeste nos anos seguintes frente ao seu maior rival? O Galo anunciava estrelas, a Raposa ia atrás do medalhão Dagoberto. Além disso, quem eram os desconhecidos jovens do Coritiba, Criciúma e Goiás. Na época não eram ninguém hoje são mais conhecidos por Éverton Ribeiro, Lucca (hoje na Ponte Preta) e Ricardo Goulart.

Em 2015, Mattos chegava ao Palmeiras. Depois de um ano de quase rebaixamento, ele seria responsável por reconstruir o clube na gestão Paulo Nobre, mas o cenário era diferente: havia muito dinheiro envolvido. O milionário estava disposto a colocar a própria fortuna para ajudar o clube e junto de tudo isso vinha a “nova Parmalat”; a Crefisa. Hoje, o Palmeiras é o atual campeão brasileiro, avançou de fase na Libertadores e monta (junto do Flamengo) um elenco galáctico, com os contratados Felipe Melo, Guerra, Borja, Willian Bigode, Bruno Henrique e as manutenções de Mina, Dudu, Tchê Tchê e Prass. O time é encarado por muitos como o melhor do país, embora não tenha os melhores resultados no Campeonato Brasileiro. Eduardo Batista caiu e o ídolo Cuca está de volta (menos de 6 meses depois de anunciar um período sabático).

O que vemos de saldo na carreira de Mattos? Tiros curtos! Chegou em 2012 ao Cruzeiro e saiu em 2015 após o bicampeonato e um grande desmanche. Em 2015 chegou ao Palmeiras e o ajudou a ser campeão em 2016 com direito a chapéu na contratação do destaque Dudu, a fisgada de Moisés na Croácia, o olhar clínico para fazer Tchê Tchê deixar o Audax e vestir verde. Tudo muito rápido. Diferente do Flamengo em que a austeridade reinou, Mattos trabalhou nos últimos anos com maior fartura. Pode escolher reforços, técnicos, montar um time. O Flamengo só hoje tem esse luxo (depois de obter principalmente sua projeção de superávit). Ele gosta de resultados, o rei do curto prazo. Partindo da premissa supra exposta, devemos nos questionar sobre qual modelo é o mais eficiente na conjuntura (e talvez estrutura) brasileira. Bandeira de Mello projetou um futuro próspero para os rubro-negros. Mesmo que o título não venha hoje ou amanhã, ele está nos planos e ter que brigar contra rebaixamento parece loucura.

Paulo Nobre (para melhor personificar o Palmeiras) é o time do hoje. A torcida pediu uma reação à 2014 e teve. Pediu reforços e teve. Pediu seu técnico-ídolo de volta e teve. Hoje o time está relativamente seguro na parte financeira, mas às custas de Nobre e Leila Pereira (representante da Crefisa). Não sabemos até quando a parceria milionária durará, mas já acrescentou mais uma estrela ao salão palmeirense e pode trazer em breve outras mais. Se o rebaixamento está por vir em breve? Não sei, mas isso é papo para o futuro.

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Ter uma resposta não é simples como escolher entre Fred e Caça-Rato. Requer análise e interpretação pessoal. Um modelo agrada a gestão, os cofres, mas futebol é isso? O outro levanta a torcida (mesmo após a elitização do caso Allianz Parque) e promete gols para ontem, mas o futebol é só isso? A comparação das duas gestões pode ser feita intensamente por duas horas. Bandeira de Mello visa a obtenção de uma casa para aumentar as receitas de torcida, enquanto Nobre inaugurou o Allianz Parque e ampliou o programa de sócio-torcedor. O Flamengo é gerido profissionais do mercado econômico (boa parte da equipe de Bandeira de Mello é composta por ex-funcionários do BNDES), o Palmeiras por milionários apaixonados, dentre várias distinções. A única coisa que os une é a ambição por resultado: para ontem ou para amanhã. De que lado você está?

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