Qual é a cara da Roma de Paulo Fonseca?

As "invenções" do português que viraram sacadas de gênio para a Roma; a saída a lavolpiana que foi abandonada e retomada; e a previsibilidade ofensiva que virou liberdade: qual a cara da Roma?

Julho de 2019, a Roma anuncia o português Paulo Fonseca, contratado junto ao Shakhtar Donetsk, e com um trabalho reconhecido pelos títulos no futebol ucraniano e pelas boas participações na Champions League. Mas o objetivo primário seria o início de uma reconstrução técnica a partir do período de Di Francesco e do curto período de Ranieri em Trigoria.

Embora a situação exija paciência, falamos sempre de uma torcida exigente como a romanista, e sempre há a questão eterna de adaptação de um treinador estrangeiro, de qualquer liga, em relação a um campeonato onde se exige tanto da tática e da liderança de elencos como o Italiano. Ainda mais para quem não havia tido experiências nas chamadas 5 grandes ligas (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália).

É bem verdade que Fonseca sofreu com problemas de elenco na atual temporada. Não é o primeiro técnico a sofrer com isso nos aspectos técnicos, e pior ainda, não é o primeiro em terras giallorossi a ver seu elenco sofrer tanto com lesões.

Mas era uma Roma que não deixava de ter suas grandes características ofensivas, sempre marcando gols desde os primeiros jogos da temporada. Que o diga os romanistas terem chegado até a marcar 12 gols nos 4 primeiros jogos de 2019–20.

O problema é que não deixa de tomar gols. Os giallorossi só não sofreram gols em quatro jogos da temporada: as goleadas sobre Udinese na Serie A e Istanbul Basaksehir, na Europa League, a vitória simples sobre o Lecce, e no empate sem gols diante da Sampdoria fora de casa. Fora isso, em todos os jogos a Roma levou gol.

Muitas vezes se percebe a ideologia de um técnico nas palavras. No empate no Derby com a Lazio, declarou que os torcedores das equipes “se encantaram com os dois times que criavam oportunidades de gol”. Nem um mês depois, quando ganhou de 1–0 do Lecce, declarou que “preferia vencer por 1–0 do que por 4–3”.

SERÁ QUE AS IDEIAS DE PAULO FONSECA SÃO CONTRADITÓRIAS COMO AS PALAVRAS?

O primeiro desafio de Fonseca na Roma foi produzir uma saída de bola de alto nível sem ter zagueiros e meias qualificados para isso. Ter algo semelhante ao que tinha no Shakhtar, através da saída lavolpiana, em que os dois zagueiros subiam pra dar amplitude ao ataque. Nesse sistema, faziam a diferença o zagueiro Rakitskiy, e o recuado meia brasileiro Fred, auxiliando o ucraniano.

Na primeira partida de 2019–20, contra o Genoa, Fonseca reviveu esse mesmo sistema, apresentando (talvez também para dar continuidade ao ano passado) os dois zagueiro mais brilhantes do jogo com os pés disponíveis, a saber, Fazio e Juan Jesus, com Cristante que voltou (ou foi para o lado) nas etapas de saída de jogo, formando uma defesa temporária de três homens.

Aqui, Cristante recua para auxiliar na saída de bola. Uma tentativa de Fonseca de emular a chamada “lavolpiana” (Foto: L’Ultimo Uomo)

Uma solução para o ataque que virou problema pra defesa, já que Cristante na fase ofensiva não produzia tanto, e Fazio e Juan Jesus pecaram tanto com e sem a bola, não se adaptando ao sistema e dando muitos espaços a um ataque do Genoa, que se não produziu muito, compensou fazendo 3 gols nas vezes que foi ao ataque.

Embora sozinhos, Fazio e Juan Jesus não explicam todos os problemas, ainda mais porque o brasileiro perdeu a titularidade com a ascensão de Smalling e Mancini, este que a priori foi pra zaga. A presença de um meio-campo muito instintivo e vertical como Pellegrini no meio com estes zagueiros também atrapalhou muito os planos de Fonseca.

Os lançamentos eram tão pesados, os erros de colocação, de passes, e de posicionamento eram tão gritantes, que Fonseca abortou a ideia da lavolpiana pela preocupação defensiva, já que todos os erros se transformavam em contra-ataques adversários. 

Com esta solução, Fonseca tentou matar dois coelhos com uma cajadada: por um lado, inserindo um jogador defensor mais criativo na fase de definição, como Florenzi ou Kolarov, por outro, adicionando um meia na frente dos três defensores que facilitavam a saída do zagueiro com a bola e ainda cobria a equipe em uma fase defensiva de transição.

Aqui, Florenzi é quem auxilia os defensores na saída de jogo, enquanto o outro lateral da tarde, no caso Kolarov, está tão livre que nem aparece na imagem. (Foto: L’Ultimo Uomo)

A mudança interferiu na estrutura posicional da Roma. Agora, a equipe da Fonseca na fase de posse estava disposta de forma assimétrica, com os corredores das pontas ocupados por um lateral (geralmente pela direita) e por um meia externo (geralmente Kluivert pela esquerda), com eventuais avanços pela outra ala e do trequartista, e Dzeko sozinho pelo meio. 

Uma mudança que tornou a Roma mais segura na saída e mais solidamente defensiva, mas também muito mais previsível com a bola. Uma previsibilidade que se explica muito por razões estruturais, já que a equipe perdeu um homem por trás da primeira linha de pressão adversária e, assim, ficava mais fácil a pressão adversária, como ressaltou Dario Saltari em L’Ultimo Uomo.

A estrutura assimétrica da Roma, com Kolarov preso mais atrás, e Kluivert muito aberto em uma ponta e a outra ponta aberta por Spinazzola. Mas como todos do ataque estão na mesma linha, Cristante é forçado a virar o jogo. (Foto: L’Ultimo Uomo)

Isso acabou gerando um problema que era o fato da equipe ser muito estreita e facilitar o trabalho de cobertura e uma marcação por zona ao time romanista. Não é por acaso que muitas das vezes um dos dois meias (especialmente Veretout) avança para dar um pouco de espaço na saída de jogo, substituindo temporariamente o zagueiro e reformando uma espécie de defesa de quatro homens.

A previsibilidade e a fragilidade da Roma nos primeiros jogos também dependiam do gerenciamento da posse de bola no ataque, outra área do campo em que Fonseca teve que fazer vários experimentos para entender qual era a melhor configuração.

A ideia era reproduzir, novamente, algo que ele tinha no Shakhtar, que funcionava por conta dos meio-campistas técnicos, com controle de bola e que sabiam se virar em espaços curtos, como Bernard, Taison e Marlos, o que não necessariamente possui na Roma, de meio-campistas verticais e que caía no dilema de ou jogar a bola em Zaniolo, que tem outras características, ou em ligações diretas para Dzeko se virar lá na frente, onde sempre resolve. 

Fonseca não quis abrir mão de ter um trequartista no 4–2–3–1 em que joga. Pra isso, a priori, colocou Zaniolo no banco para ter Mkhitaryan no time, ao lado de Kluivert pelo lado direito, e tentando também recuperar Pastore, enquanto Pellegrini não correspondia sendo escalado pelo centro.

A melhora de Pastore “criou” um problema. Zaniolo, que já nessa temporada, exceto a lateral-direita, jogou em todas as funções pelo seu lado, e também pelo meio e pelo lado esquerdo, passou a ser quase fixo pela direita na disputa com Under, que perdeu um pouco de espaço com o português.

A priori, Zaniolo não rendia tanto, uma vez que seu desempenho ficava sacrificado entre a fase ofensiva e a defensiva. Até que Fonseca percebeu uma função de um jogador que acabou interferindo no sistema e que fez o ataque render melhor.

Quando Mancini saiu da zaga para entrar como volante em um experimental 4–1–4–1 contra o Gladbach pela Europa League, muitos romanistas podem ter questionado a sanidade mental do técnico português. Mas apesar do polêmico empate, foi uma situação que teve seu funcionamento.

Parecia uma necessidade, em vista que naquele momento, o meio que já teve o problema da lesão grave de Diawara, teve o problema de lesão também com Cristante. Parecia também uma solução improvisada, como a do meio-campista recuando na lavolpiana, ou mesmo a de Kolarov como central na saída de jogo.

Sendo escalado por Fonseca como volante, Mancini soube neutralizar seus defeitos no um contra um, e podendo subir mais ao ataque. Ele reorganizou toda a estrutura posicional da Roma, com uma precisão notável com a bola, mesmo nas mudanças de jogo e passes em profundidade. 

E em meio a isso, o que voltou a pauta do jogo romanista? Ela mesma, a saída lavolpiana. Com Mancini podendo recuar e fazer esse jogo, a solução do lateral que fica enquanto o outro avança foi abandonada, e logo os dois, no momento Spinazzola e Kolarov, podem subir ao ataque.

Nesse momento, Fonseca também pediu para que Pastore ajudasse na construção. Isso permitiu que Zaniolo avançasse mais ainda pela direita, trabalhando bem com Dzeko, e cada vez mais finalizando. Não por coincidência, desde que a solução foi implantada, o meia italiano fez 4 dos seus 5 gols na atual temporada.

A partir daí, a Roma de Fonseca na fase ofensiva, ideologicamente, tem o preceito de fazer um 3–4–3 ao estilo que o português tinha com seus comandados no Shakhtar. Embora na imagem abaixo, pareça mesmo um 3–5–2, com Perotti um pouco mais recuado…

Aqui, Mancini executa, com melhor precisão que Cristante, a tão sonhada saída lavolpiana que Fonseca executava no Shakhtar (Foto: L’Ultimo Uomo)
Nessa imagem, as funções ficam mais claras: a medida em que Mancini faz a saída com os zagueiros, na troca de passes, Dzeko atrai os zagueiros, e Zaniolo, como segundo atacante, marca o primeiro dos 4–0 romanistas sobre a Udinese (Foto: L’Ultimo Uomo)

Em meio a isso, a Roma, aos trancos e barrancos, parece encontrar uma cara enquanto Fonseca muda de ideias ao longo das necessidades da temporada, sonhando com o retorno a Champions League tanto para o português, quanto para os giallorossi.

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Caio Bitencourt

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