A tendência tática que marca o rumo do futebol atual

A influência de grandes treinadores como Guardiola e Klopp tem mudado a forma com que os jogos são disputados mundo afora.

O futebol é um esporte cíclico. Como na vida, as transformações que ocorrem com o transcorrer dos anos, acompanhando a evolução dos elementos que compõem a sociedade, geram mudanças significativas nas práticas e tendências do jogo em termos de estratégias e ideias de seus intérpretes. Considerando que a preparação física, métodos de treinamentos utilizados (cada vez mais periódicos, curtos e sintetizados, sem perder o espaço para treinos longos e de diferente metodologia; afinal nada se perde, tudo é construído e modificado ao longo dos anos) e acesso geral ao conhecimento e informação sofreram alterações brutais em relação ao século passado, estes fatores mencionados impactaram diretamente para a globalização do esporte de bola redonda recentemente. Atualmente, através do estudo e da tática, a competitividade e nível de exigência dos jogos está cada vez mais alta, graças às razões descritas anteriormente.

Nomes como o de Pep Guardiola, José Mourinho e Jürgen Klopp, sem mencionar outros treinadores que foram fundamentais para o desenvolvimento do esporte nos últimos 15 anos como o alemão Jupp Heynckes, tratam-se de expoentes para o tema deste artigo, já que as ideias dos mesmos são vistas por todo o mundo e resultaram em uma tendência tática que realmente marcará o rumo do futebol na próxima década a nível estilístico. Estamos falando, implicitamente, dos duelos caracterizados pela intenção de ambos times em pressionar em terreno rival e sair jogando desde o goleiro de forma curta e elaborada, tal qual marcou o desenho estratégico do Salzburg-Liverpool desta última terça-feira (10) em jogo válido pela sexta rodada da fase de grupos da Liga dos Campeões 2019-20.

Neste duelo, o cenário aberto e repleto de transições, ritmo e intensidade, foi consequência de uma causa totalmente relacionada as ideias agressivas dos conjuntos dirigidos por Jurgen Klopp e Jesse Marsch. O caso é que este tipo de contextos táticos estão sendo habituais no velho continente, tanto nas ligas nacionais, até mesmo as de segundo escalão, como na elite e em partidas de competições europeias. É um reflexo da globalização comentada no parágrafo anterior, que alcança níveis incríveis ao ponto de existir times como o Independiente Del Valle na América do Sul ou o Nordsjalland na Europa como praticantes do jogo de posição, para colocar exemplos extremos.

As vantagens e desvantagens

Como dito, muitos times menores buscam sair de forma curta e apoiada nos dias atuais, apesar de que poucos são capazes de construir mecanismos para estabelecer ataques no terreno inimigo por uma simples questão de qualidade individual de suas peças para assumir o protagonismo com o esférico nos pés em espaços tão reduzidos. Os mesmos que somam tentativas de elaborar suas jogadas, situação que se trata muito mais que um motivo meramente estético como a maioria supõe, também caracterizam seu jogo através da agressividade em pressão adiantada para gerar recuperações em zonas altas do campo. Mencionando um exemplo de um time de menor expressão que pratica estes conceitos, temos o Sassuolo dirigido por Roberto De Zerbi na Itália, que sem ir mais longe representa a diversidade tática e de estilos do Calcio atualmente, que possui provavelmente o campeonato que melhor sintetiza a tendência tática apresentada no texto (já que, na Terra da Bota, praticamente é cultural a construção e valorização de uma saída de bola trabalhada, ao contrário do estereótipo criado por muitos, ao mesmo tempo que cada vez se pressiona mais dentro da liga graças a treinadores como Marco Giampaolo, Massimiliano Allegri ou Luciano Spalletti recentemente).

Por outro lado, existe o ponto negativo para quem, como eu, busca analisar os acontecimentos de um jogo com uma linha de raciocínio lógica para explicar cada detalhe tático dos duelos. Pode-se citar a Bundesliga desde 2017 como uma boa demonstração do que comento. Muitos consideram o futebol praticado na Alemanha como um laboratório de como será o esporte na próxima década, algo que tem sentido partindo do pressuposto que os germânicos são autênticos especialistas no que se diz respeito a pressões altas. No entanto, em um país que fomentou o jogo associativo e enfoque do estímulo aos jovens em querer ter a bola nos pés após fracassos da Mannschaft no final do século passado, os confrontos entre uma saída de bola por baixo e o pressing, produzem cenários absolutamente caóticos em que nenhum acontecimento possui um sentido explicativo, fator que está diretamente relacionado com a queda de nível recente dos times alemães a nível continental e da própria liga em linhas gerais.

O peso das perdas no futebol da pressão alta

Uma perda de posse significa, entre outras coisas, permitir ao adversário vantagem tática e a possibilidade de realizar uma transição depois da recuperação para atacar em superioridade. Por isso a pressão pós-perda é o método de transição defensiva mais utilizado atualmente, justamente para evitar casos como o mencionado acima, em detrimento de correr para trás e defender em inferioridade numérica em espaços abertos.

A valorização de meio-campistas associativos capazes de eliminar pressões através de giros, controles orientados e passes, é um fator que possui direta relação com a ascensão do futebol preconizado por treinadores radicais quanto a marcação adiantada no campo de ataque, como a escola alemã construída desde Ralf Rangnick (um dos nomes mais importantes para a história do esporte na Alemanha, responsável pela implantação da defesa zonal nos anos 90 em um país caracterizado pelas marcações individuais como cultura) até o sucesso do Liverpool de Klopp. Afinal, os que podem sair dessas pressões e oferecer ataques com espaços após eliminar rivais, representam jogadores que facilitam o funcionamento coletivo dos times de elite, que maioritariamente buscam sair por baixo e construir desde atrás. Sem ir mais longe, jogadores especialistas neste sentido como o francês Tanguy Ndombele ou o holandês Frenkie de Jong, custaram muitíssimos euros aos cofres de Tottenham e Barcelona, respectivamente.

Se por um lado há os meio-campistas que criam vantagens com a bola na hora de sair jogando, também temos os que utilizam o físico para marcar diferenças sem o esférico em pressão alta. Volantes como o brasileiro Allan, o chileno Arturo Vidal ou o francês N’Golo Kanté, autênticos expertos nestas tarefas, são igualmente valorizados e necessários para o funcionamento coletivo de uma equipe. Entre sair jogando e pressionar alto está o destino a nível tático do futebol na próxima década, e inclusive os zagueiros e goleiros estão passando por transformações devido a esta tendência.

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Higor Leonardo

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