Por que todo mundo quer ter Tonali no time?

A grande disputa pela joia do futuro italiano e porque todos os grandes querem ele em seus times

Desde que Sandro Tonali, garoto nascido em Lodi, no interior da Lombardia, no dia 8 de maio de 2000, surgiu nas categorias de base do Brescia, inevitavelmente surgiram as comparações com um certo outro garoto surgido por lá em 1995 que conquistou o mundo: Andrea Pirlo.

Uma semelhança é fato: ambos estrearam no Brescia com menos de 18 anos, seja Pirlo com 16, ainda na reta final da Serie A de 1995–96, seja Tonali, que estreou com 17 anos durante a Serie B de 2016–17. E elas muitas vezes não param por aí, apesar de Sandro negar as comparações e acreditar até ser mais parecido com Gattuso, enquanto seu treinador Eugenio Corini chegou a compará-lo com De Rossi.

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O fato é que todos querem Tonali. No passado se falou de interesses do Napoli, de Roma, Milan, Lazio, todos os grandes clubes italianos e alguns grandes europeus como o PSG na França, clubes ingleses já falaram em querer o jogador, embora quem chegou com o interesse de fato foram dois grandes rivais italianos: Juventus, e especialmente, a Internazionale.

A Inter, aliás, foi quem mais declarou interesse, já que seu diretor-esportivo Piero Ausilio admitiu abertamente que quer Tonali. Mas por que todos querem o meio-campista italiano? Só pela semelhança com Pirlo, para ter um bom jogador sem estourar o limite de cinco extracomunitários permitidos na Serie A e preencher a cota de formados na Itália para os torneios UEFA ou algo a mais?

A expectativa em torno de Tonali cresceu muito desde o acesso do Brescia para a Serie A em 2018–19, e em meio a participação do time lombardo na elite, embora os maus bocados do time aconteçam coletivamente. Alguns colaboram para a expectativa, como o próprio Pirlo, que disse que Tonali poderia ser “ainda melhor do que ele”.

Alguns trechos a partir de agora do texto são com dados da Statsbomb, e retirados e baseados junto ao texto de Flavio Fusi, em L’Ultimo Uomo, e que indicam como tem sido a temporada de Tonali em números, e mostra como ele é uma das únicas certezas de um caótico time do Brescia:

Na análise feita por Fusi até a parada forçada pela pandemia, Tonali jogou os seus 23 jogos pela Serie A como titular. As circunstâncias do Brescia, com uma equipe que tem marcado poucos gols, poderiam fazer um meio-campo que joga na frente da defesa na fase de construção, como é o caso dele, ter seu futebol reduzido a pouco.

Tanto que no período pré-pandemia analisado, o Brescia tinha a pior amostragem de posse de bola no campeonato (39%), e a terceira pior amostragem de diferença de xG (ou seja, a diferença entre os objetivos esperados criados e sofridos):

Neste contexto difícil, Tonali troca cerca de 32,7 passes em ação a cada 90 minutos, sendo o quarto jogador do Brescia com maior média no período analisado. Tonali “contribui” para cerca de 10% do total de passes do time lombardo. Para fazer uma comparação, Marcelo Brozovic troca 13% dos passes da Inter, Miralem Pjanić quase 12% dos passes da Juve.

Números ótimos de participação, entretanto, Tonali tem apenas 70% de seus passes completados. Um número muito baixo para um meio-campista, ainda mais para um regista da função dele, embora possam ser relativizáveis se levarmos em conta as circunstâncias do Brescia e até das questões táticas do time lombardo.

O radar analisado das 23 partidas de Tonali pré-pandemia. (Foto: StatsBomb/L’Ultimo Uomo)

As questões táticas e as maneiras com que Tonali procura trocar passes são analisadas por Fusi por conta de um gráfico chamado Sonar: nele, a duração do traço indica a duração média dos passes na direção apontada pelo gráfico, enquanto a cor indica a taxa média de sucesso dos passes (quanto mais próxima a cor do vermelho brilhante, maior a taxa de sucesso passes).

O gráfico Sonar de Sandro Tonali, do Brescia. (Foto: StatsBomb/L’Ultimo Uomo)

Pelo gráfico Sonar, notamos que Tonali procura por passes diagonais, embora tenta mais passes do que o comum para um jogador de sua posição. Isso não exclui que tenha visão do jogo e uma excelente técnica, com a qual ele também é capaz de executar diferentes passes, inclusive as tentativas de passes mais longos (mesmo se ainda confie pouco na sua perna esquerda, considerando que ele troca 91% dos passes com a perna direita). 

Porém, neste tipo de jogo, ele ainda é impreciso: Tonali completa 5,1 passes longos por jogo, mas com uma porcentagem de 54% de acertos (32° dentre 35 meias defensivos da Serie A com pelo menos 600 minutos jogados no pré-pandemia), o que por outro lado, também indica a dificuldade dos passes que ele tenta.

O seu papel tático no Brescia é imprescindível, não apenas por mesmo tão jovem, ser uma das estrelas do time. Afinal, quando o time ataca, um dos dois atacantes do 4–3–1–2 tende a subir para favorecer o jogo amplo e deixar espaço central para permitir que o meio-campista mais avançado (o “trequartista”) ou o meio-campo de origem (o “mezzala”, jogando mais por dentro), entrem. 

Muitas vezes, o inverso também ocorre, com os laterais e meias procurando espaço para receber na ala, na tentativa de levar um marcação e incentivar a recepção central de um dos três jogadores mais avançados. Nesse mecanismo, o papel de Tonali passa a conceber esse tipo de jogo sem desacelerá-lo, correndo riscos. Esse papel de ser o acelerador do jogo significa que ele não está muito envolvido na terço final de campo, e portanto, explique o número “baixo” de gols e assistências: 1 gol e 6 assistências (uma após o período analisado por Fusi).

O aspecto do jogo em que Tonali se destaca é na verdade as transições: sua tarefa, depois que a bola é recuperada, é acionar um parceiro o mais rápido possível, a fim de pegar os adversários despreparados, e assim gerar bons contra-ataques, vitais se você luta na parte de cima ou de baixo da tabela de classificação. 

Nessas situações, ele demonstra uma tomada de decisão notável, e são nelas que Tonali afirma seu toque refinado na bola, determinado tanto pela técnica básica quanto por um equilíbrio acima da média, e com um olhar contínuo, de cabeça alta para seus companheiros antes de receber a bola e durante a posse. O que não significa que ainda seja perfeito, já que as vezes deixa a bola longe do pé durante esse processo, o que facilita desarmes adversários.

Entre os meias defensivos da liga, Tonali é quem carrega a bola em média por mais metros (5,70 jardas: apenas Veretout, da Roma e Amrabat, do Verona, lideram mais em média, mas ambos jogam ao lado de um companheiro de equipe), um fato que denota tanto sua capacidade de identificar corretamente o espaço no qual liderar quanto sua resistência à pressão. 

Esse traço de seu jogo é importante, pois denota habilidades interessantes que poderiam ser desenvolvidas em uma equipe de maiores pretensões, na qual a resistência à pressão e a identificação dos espaços na movimentação têm cada vez mais relevância. 

Sandro Tonali tem algumas especialidades, entre elas, a bola parada. Na imagem abaixo, estão todos as bolas paradas cobradas com sucesso por ele nos 23 jogos realizados por ele no período pré-pandemia: Nas cobranças do lado direito, logo acima da metade do campo, a demonstração da precisão a longa distância e o quanto ele pode encontrar os companheiros de equipe na área, mesmo a essa distância.

As bolas paradas de Tonali na temporada pré-pandemia. (Foto: StatsBomb/L’Ultimo Uomo)

As bolas paradas cobradas por ele são muito complexas para os goleiros e isso permite que ele seja perigoso, mesmo quando as elas são muito longe do gol. Esse tipo de lances podem ser muito úteis, mesmo em situações completamente diferentes de ação em um time que preza pelo controle de bola.

Isso acontece porque a bola parada permite que se mova o bloco defensivo do adversário e que se consiga atrair os companheiros posicionados entre as linhas opostas do lado mais “fraco”, sem que se dê à outra equipe muito tempo para ganhar espaço pelos lados.

Mas Tonali ainda tem muito a desenvolver em alguns aspectos. Um fator de questionamento a seu jogo é sua contribuição para a fase defensiva: O meio-campista tem média de 1,2 interceptações/partida, e de 1,57 desarmes/partidas, o que é um número baixo de uma equipe que na maior parte do tempo das partidas passa sem a bola. 

O aspecto certamente positivo é que ele raramente dribla nessa fase, mesmo que o esquema do Brescia o deixa relativamente protegido, também porque Tonali dificilmente precisa se defender em campo aberto, com uma que equipe quase constantemente é esmagada em sua própria metade do campo pelos adversários. 

Por outro lado, o que muitas vezes complica Tonali na fase defensiva, é o fato de que neste quesito ele não é muito rápido, embora tenha uma boa força e bom equilíbrio, que são fundamentais nos contrastes, e isso poderia torná-lo vulnerável em situações em que precisa fazer coberturas maiores. 

Ele também deve definitivamente melhorar as situações de leitura sem a bola, porque ele nem sempre é pontual ao seguir os movimentos do time e de seus companheiros na fase defensiva e fica fora de posição com muita frequência. Ele nem sempre é cuidadoso em marcar e, às vezes, deixa seus oponentes fugir com muita facilidade, como mostramos nesta imagem abaixo:

Em partida contra o Napoli, um exemplo da desatenção defensiva de Tonali em lance com Elmas, que gerou perigo para os brescianos. (Foto: L’Ultimo Uomo)

E, nesse sentido, não se deve subestimar o impacto que as limitações do jovem meia tiveram nos problemas táticos do Brescia, em vista que o time defende com uma pressão alta, e se o time teve dificuldade em defender mais alto, é também porque Tonali nem sempre conseguiu manter as linhas próximas.

Neste caso, se pode questionar, se para esconder suas limitações e maximizar suas qualidades, ele não pode seguir um caminho taticamente inverso em sua evolução, voltando a assumir o papel de mezzala, mais avançado e participativo no meio-campo, papel onde iniciou sua carreira. 

No entanto, como Flavio Fusi ressaltou no texto, embora seja obviamente difícil dizer hoje, Tonali parece não ter as características físico-atléticas dos meio-campistas mais modernos, embora, dada a idade, ainda possa melhorar neste ponto de vista, e pensando no que pode ser trabalhado em uma grande equipe.

Em sua primeira temporada na elite, Tonali mostrou-se um meio-campo técnico e direto, formidável para iniciar as transições, mas a grande dúvida seria se poderia servir para um meio-campo que precisa de “urgências” maiores, como o de grandes clubes como Juventus e Inter, embora seu desempenho em campo tenha sido condicionado pelas características táticas de seu Brescia.

Mas como comparar os números de Tonali com outros jogadores de funções semelhantes dos grandes clubes? Neste caso, vamos basear em três jogadores semelhantes, o argelino Bennacer, do Milan, o croata Brozovic, da Inter, e o bósnio Pjanic, da Juve, que foram escolhidos neste primeiro post porque além, das suas características, têm amostragem de jogos semelhante a de Tonali na temporada.

A comparação dos números de Bennacer, Tonali, Brozovic e Pjanic (Foto: WhoScored)

Aqui, temos a comparação com outros meias como o brasileiro Lucas Leiva, da Lazio, e foram adicionados a comparação o suíço Freuler, da Atalanta, e o francês Veretout, da Roma. Dos registas dos clubes principais da Serie A, apenas Demme, do Napoli, ficou de fora, por ter chegado em janeiro, e tem amostragem curta de jogos na Serie A, e pelo fato de que os napolitanos jogaram sem um “regista de ofício” até a chegada do alemão.

A comparação dos números de Freuler, Tonali, Lucas Leiva e Veretout (Foto: WhoScored)

As comparações soam desfavoráveis a Tonali em alguns aspectos, como o da troca de passes, ou mesmo de algumas questões que envolvem agressividade, ou de bolas aéreas vencidas, o que independente da equipe pela qual ele jogue na próxima temporada, precisa ser melhorado para mantermos a expectativa do nascimento de uma grande estrela.

O fato é que muito desta expectativa, é a ideia do que os torcedores pelo mundo esperam de um meio-campista, que se um craque comande e acentue o jogo, sendo como uma válvula de escape que dê alívio e desencorajando o jogo prolongado. 

Espera-se que ele execute um grande número de passes horizontais para mover o bloco adversário e encontrar espaços para avançar ao campo adversário. E que aproveite as oportunidades de jogar verticalmente cortando as linhas de pressão dos rivais, em vez de exaustivamente ampliar o jogo na ala para fazer seus companheiros de equipe correrem. 

Esses tipos de regista como Tonali são cada vez mais preciosos no futebol contemporâneo, sendo capazes de defender a posse e liderar a posse de bola, ou o simples ato de se afastar da marcação sem perder a bola em áreas críticas. E em meio a tudo isso, Sandro Tonali pode cumprir essas expectativas de um grande meio-campista.

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Caio Bitencourt

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