Uma breve síntese da passagem de Sylvinho no Lyon

A derrota do clássico contra o Saint-Étienne foi o ponto final da passagem de Sylvinho no comando do Olympique Lyonnais. O período que era pra ser o início de um novo ciclo para o clube, com Juninho eleito como o diretor esportivo, na verdade foi um grande golpe para as pretensões do clube, principalmente no […]

A derrota do clássico contra o Saint-Étienne foi o ponto final da passagem de Sylvinho no comando do Olympique Lyonnais. O período que era pra ser o início de um novo ciclo para o clube, com Juninho eleito como o diretor esportivo, na verdade foi um grande golpe para as pretensões do clube, principalmente no aspecto futebolístico.

“Gosto do 4-3-3, da posse e de jogar no campo do adversário”, palavras de Sylvinho em sua apresentação.

O discurso da apresentação foi animador, com Juninho e Sylvinho visando praticar um bom futebol através do equilíbrio coletivo e da utilização da bola. Se nas duas primeiras partidas, o Lyon produziu gols, mais pela fragilidade dos adversários contra a pressão pós-perda bem executada pelo coletivo (Monaco com lacunas evidentes em seu elenco e Angers com extremas dificuldades para reagir sob pressão), os problemas de estrutura e execução, já existentes desde o início, começaram a ficar mais claros a partir da 3ª rodada da Ligue 1.

Uma das grandes contradições surgiu com má utilização de Lucas Tousart. Em resumo, Tousart não é um jogador que brilhe com a bola nos pés e o problema até foi identificado por Juninho antes do início da temporada. “Precisamos de um outro perfil na frente da defesa, alguém mais fino tecnicamente, que goste da bola e que faça sua equipe jogar, um líder. Lucas Tousart possui um perfil mais físico”, disse o diretor. Se o olhar do ídolo do Lyon foi correto, a escolha de Sylvinho em utilizar o mesmo como titular na posição que necessitava de alguém de perfil específico foi inadequada.

Com dificuldades nas saídas desde a defesa, Tousart e a posição inicial dos laterais foram um grande problema no jogo do OL.

Além da escolha de seu primeiro volante, outro aspecto da organização ofensiva foi fatal para a queda de rendimento da equipe: o posicionamento dos laterais. Talvez inspirado pelo trabalho realizado na seleção do Brasil, Sylvinho quis levar uma estrutura semelhante para o OL. A linha de quatro e o primeiro volante tiveram responsabilidade direta na construção, com os laterais tendo pouca liberdade para assumir uma altura maior em seu posicionamento, enquanto os cinco restantes (meias centrais, interiores e centroavante) aguardavam a chegada da bola em alturas mais avançadas.

Sem a qualidade individual para a prática do jogo de posição, o futebol do Lyon ficou caracterizado pela pobre produção ofensiva. As instruções, principalmente as que foram passadas aos laterais, acabaram se tornando contraproducentes e a busca pela solidez defensiva acabou por engessar o jogo da equipe por completo. A expressão individual de jogadores que conseguiam um desempenho satisfatório no passado foi apagada sem a compensação da mecânica, do funcionamento do sistema de uma forma mais efetiva em todas as fases do jogo.

Na tabela de passes completos nos últimos 30 metros, o Lyon só está atrás do Rennes na temporada 2019/2020 e viu a quantidade de passes cair pela metade em comparação com a temporada passada – Cotestats.fr

Com um produto final insuficiente, o conteúdo envolvendo o jogo da equipe francesa foi piorando a cada jogo. As expulsões de Youssouf Koné e Thiago Mendes contra Montpellier e Bordeaux, respectivamente, jogaram o desempenho da equipe para baixo, a pressão pós-perda não funcionou de forma consistente como nas primeiras rodadas e assim o time também começou a ceder no aspecto defensivo, expondo a dificuldade de alguns jogadores como Joachim Andersen, um zagueiro anticompetitivo no contexto físico da Ligue 1. Com a fase negativa, Sylvinho foi obrigado a mudar e consequentemente acabou desistindo de suas ideias no meio do processo. Desde a tentativa de colocar Jeff-Reïne Adélaide no 4-2-3-1 contra o Zenit, a escalação extremamente conservadora na derrota contra o Paris Saint-Germain até a combinação confusa de perfis para o jogo frente ao Brest foram pontos determinantes para indicar que o treinador havia perdido o caminho na utilização do elenco.

Sem ritmo e apoios na frente da linha da bola, as transições ofensivas e fases de construção do OL acabam com perdas de posse sem propósito

Uma reação em relação à postura foi esboçada contra o Nantes, quando o bloco ofensivo subiu suas linhas, os laterais assumiram uma postura adequada ao seu jogo e os jogadores mais ofensivos tiveram mais protagonismo. Mas, mesmo com o time chegando a finalizar inúmeras vezes de forma clara, o OL parou na que foi uma das melhores exibições da carreira de Alban Lafont. Com mais uma derrota, Sylvinho teve seu ultimato decretado contra Leipzig e Saint-Étienne.

“Tiraremos o saldo após o clássico”, disse o presidente do Lyon após a derrota sofrida para o FCN.

Preocupado com a solidez defensiva de forma extrema, o brasileiro partiu para uma solução emergencial para compensar os problemas defensivos recentes. Se a estratégia em impedir a progressão do Leipzig foi efetiva em certo ponto, contando com a péssima noite de Timo Werner e os dois presentes cedidos em cada gol marcado, a repetição do mesmo plano não foi suficiente para bater o Saint-Étienne. Num dos grandes clássicos da França, o gol de Robert Beric aos 44 do segundo tempo decretou o fim prematuro do trabalho do antigo auxiliar de Tite na França.

Numa partida de ocasiões raras, o Lyon foi nulo ofensivamente e demorou 73 minutos para acertar um chute em direção ao gol do ASSE.

Por fim, a filosofia conservadora de acabou sendo fatal para a qualidade do elenco, que sofreu uma baixa considerável com a saída de Nabil FekirTanguy Ndombélé e Ferland Mendy. Sem o individual para sustentar a pobreza do sistema ofensivo e a expressão individual sendo completamente inibida pelas instruções rígidas, o desempenho da equipe sofreu uma queda considerável num campeonato em que as equipes não pensam duas vezes em defender de forma passiva e baixa. Além disso, a contradição entre o que foi idealizado e o que foi mostrado na prática acabou por expondo os limites do elenco na busca de um jogo mais posicional. A partir do momento em que o time precisou de pontos, faltaram ideias para potencializar as qualidades presentes no elenco do clube por parte da comissão técnica. Ao desconsiderar o cenário futebolístico do país e deixando as reais virtudes do elenco de lado, o brasileiro acabou se perdendo no meio do caminho e, de forma lógica, foi colocado um fim em sua primeira experiência como treinador principal na França.

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Renato Gomes

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