O que a contratação de Alexandre Gallo pode aportar ao Santa Cruz?

No último trabalho autoral, o novo técnico tricolor, mostrou virtudes e fragilidades que podem nortear o trabalho

A contratação do técnico Alexandre Gallo para comandar o Santa Cruz não é novidade para ninguém. O novo treinador, inclusive, já comandou a equipe diante do Náutico no Clássico das Emoções, pelo Campeonato Pernambucano. Mas o que Alexandre Gallo pode aportar ao Santa Cruz neste início de trabalho?

Buscando responder a essa pergunta, o Footure se aprofundou sobre o último trabalho autoral de Gallo: o São Caetano. Em quase 9 meses à frente do Azulão, o novo treinador Coral, disputou 24 jogos: venceu 11, empatou 5 e perdeu 8. Um aproveitamento de 51,38%. No Paulista A2, o São Caetano teve o melhor ataque da 1º fase com 27 gols. E uma média de 1,8 gols por jogo. Mas defensivamente, sofreu 18 gols em 15 partidas. Mesmo diante de um desequilíbrio organizacional, o São Caetano sagrou-se campeão do Campeonato Paulista A2.

Jogando o início do Brasileiro Série D em meio às finais do Paulista A2, o São Caetano não teve um bom desempenho no nacional. Em 3 jogos a equipe não conseguiu vencer e nem marcar gols. Após o título estadual e um desentendimento com a gestão do Azulão, Alexandre Gallo deixou o clube.

Raio-x dos gols

A falta de solidez defensiva é algo comum ao Santa Cruz na temporada e ao novo técnico no último trabalho. Ao olhar a tabela abaixo, é possível notar que mais da metade dos gols sofridos aconteceram enquanto o São Caetano já estava minimamente organizado com uma linha de 4 dando sustentação. Dos 14 gols sofridos, mais de 40% (6 gols) foram originados de cruzamentos laterais.

Além disso, se extrai também um índice elevado de gols sofridos com origem em bolas paradas. As principais origens de gols são os escanteios (5), faltas laterais (5) e pênaltis (3). O sinal positivo é que a equipe não sofre gols em transição defensiva. Seja pela ineficiência dos adversários ou por méritos dos mecanismos idealizados por Alexandre Gallo.

GOLS SOFRIDOS NAS FASES DO JOGO (%)

Organização Defensiva14 Gols51,85%
Transição0 Gols0%
Bola Parada13 Gols48,15%
Total27 Gols100%
Levantamento estatístico realizado pelo Footure

Com a bola sob controle, o São Caetano tinha um plano: ao recuperar tentar acelerar para pegar a equipe rival desajustada. Mas se não conseguisse, o plano B era manter a posse e buscar o melhor momento para agredir. E os gols em organização ofensiva representam mais que a metade do total de gols assinalados. O que demonstra a propensão da equipe em buscar um ataque posicional. E a principal origem dos gols se dão através de cruzamentos laterais.

GOLS MARCADOS NAS FASES DO JOGO (%)

Organização Ofensiva18 Gols54,55%
Transição4 Gols33,33%
Bola Parada11 Gols12,12%
Total33 Gols100%
Levantamento estatístico realizado pelo Footure

A bola parada também é uma jogada muito forte na equipe comandada por Alexandre Gallo. Mesmo tendo um índice baixo em relação ao total geral, não se pode desprezar essa fase do jogo. Dos 11 gols marcados; 6 foram de escanteios, 2 de faltas laterais e outro de falta frontal. As transições também acontecem com frequência nas equipes de Gallo. No entanto, a incidência de assertividade na conclusão é considerada mediana para baixo.

Padrões de comportamento

Ao assistir os jogos para realizar uma leitura ótica e com base nos dados estatísticos, foi possível identificar alguns padrões de comportamentos dos atletas ao estarem submetidos ao caos que o jogo de futebol exerce. Ao ter a bola, o São Caetano de Alexandre Gallo, poderia realizar a saída de bola por baixo, através de trocas de passes curtos. Ou por cima, com a utilização de lançamentos longos.

Organização ofensiva do São Caetano a partir de uma saída de bola curta
Edição: KlipDraw

Ao realizar uma saída curta, o Azulão se estruturava à depender da configuração do adversário e vice-versa. Por exemplo, no vídeo acima pode-se notar que a saída de bola com 4 jogadores (zagueiros e laterais) mais os 2 volantes por dentro é algo que se repete. Esta saída com muitos jogadores é intitulada de saída sustentada, algo muito usual no futebol brasileiro e também na seleção comandada por Tite.

Ao ter 6 jogadores no próprio campo, o objetivo é ter segurança na circulação da bola e ao mesmo tempo atrair o adversário. Dessa forma, libera espaços para que os atacantes possam se projetar. Na saída com 3 jogadores, um dos volantes afunda e fica entre os zagueiros, liberando os laterais para ocuparem zonas mais avançadas no campo. Assim, os laterais fixam os extremos ou os laterais adversários, abrindo espaço para o zagueiro conduzir ou o extremo se projetar nas costas.

Organização ofensiva do São Caetano a partir de uma saída de bola longa
Edição: KlipDraw

Optando por uma saída longa, seja por enfrentar um adversário que exerça uma pressão alta intensa ou por querer se estabelecer no campo rival de forma mais rápida e física, o São Caetano não faz esse lançamento de qualquer forma. É algo pensado e treinado para gerar vantagens para si e desvantagens ao oponente.

No vídeo acima é possível identificar que o goleiro busca direcionar o lançamento para os corredores laterais. Pois assim, aumenta a possibilidade da equipe ganhar o duelo aéreo ao estar longe da região dos zagueiros. E se não conseguir vencer o duelo, a possibilidade de ganhar o arremesso manual é grande. Com isso, a equipe vai se estabelecer no campo rival e iniciar a organização ofensiva.

Mas ao colocar a bola em disputa, as chances de controle ficam iguais com o oponente (50% x 50%). E algumas vezes a perda dos duelos da 1º e 2º bola podem gerar um ataque rápido do adversário. Mas quando a equipe consegue vencer, também tem a possibilidade de acelerar e tentar aproveitar a desestruturação defensiva do rival.

Estando posicionado no campo ofensivo, o São Caetano por meio da utilização de triangulações e/ou tabelas onde há uma combinação entre passes em diagonais e ultrapassagens buscava construir as jogadas ofensivas pelos corredores laterais. Ao buscar o jogo por dentro, os apoios frontais do centroavante ao se desmarcar dos zagueiros eram um movimento muito repetido.

Organização defensiva do São Caetano
Edição: KlipDraw

Sem a bola, o São Caetano, buscava se organizar defensivamente – na maior parte do tempo – em bloco baixo. Mas em momentos específicos a equipe subia o bloco e tentava pressionar mais distante da própria meta. A equipe treinada por Alexandre Gallo ao adotar uma marcação no próprio campo, recorria a marcação mista. Ou seja, uma marcação com dois tipos de referência: zona e encaixes setorizados.

No vídeo acima existem alguns padrões interpretados pelos jogadores do São Caetano ao defender. Por exemplo, se a bola está no corredor central a equipe adota uma marcação predominantemente zonal. Isto é, os atletas vão ficar mais posicionais e defender o espaço que estão inseridos. Já quando a bola está em um corredor lateral, o São Caetano adota uma marcação com encaixes setorizados no lado da bola. Dessa forma, busca aumentar a pressão, dificultar a progressão e recuperar a posse de bola.

No vídeo também é possível identificar que ao se defender no 4-4-2, os extremos buscam subir a pressão nos laterais adversários e a dupla formada pelo centroavante e o meia-atacante se alternam entre pressionar a bola e fechar o passe no volante adversário.

Bola Parada

Comportamentos do São Caetano na bola parada defensiva

Na bola parada, Alexandre Gallo, se mostrou adaptável ao adversário. No vídeo acima é possível ver a utilização de duas formas de marcar: zona e individual. Em alguns jogos a predominância era por uma equipe que defendia os espaços e utilizava alguns bloqueadores para frear a impulsão do oponente.

Em outros jogos, a dinâmica defensiva mudava. O São Caetano defendia num 5×5 (individual) dentro da grande área para impedir que o adversário ganhasse velocidade e subisse sozinho. Mas em ambas formas de defender, ficou clara a falha ao defender a 1° trave. Mesmo posicionando dois jogadores para defender o espaço.

A chegada de Alexandre Gallo está longe de sanar todos os problemas estruturais e de cultura organizacional do Santa Cruz. Mas pode aportar uma organização ainda não demostrada neste início de temporada. Potencializar as virtudes e corrigir as fragilidades é a chave para que essa parceria tenha sucesso.

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