Libertadores 2020/21: O Santos de Cuca

Vivendo uma temporada complicado no extra-campo, o Santos busca o tetra da Libertadores sob o comando de Cuca, um treinador que assumiu em meio a temporada, mas fez a torcida santista sonhar alto

Definir o Santos Futebol Clube não é uma tarefa fácil nem mesmo em tempos de certa tranquilidade. Definir o Alvinegro Praiano na temporada 2020/21 torna-se ainda mais complicado pelos contextos tóxicos, pandêmicos e econômicos pelo qual o clube ainda passa. Todavia, a jornada na Libertadores da América mostrou um lado positivo para o torcedor santista que precisou se acostumar com as notícias ruins.

O Peixe terminou a fase de grupos da competição com a segunda melhor campanha, ficando atrás justamente do rival Palmeiras, que irá encontrar na decisão, neste sábado, às 17h, no Maracanã.

Invicto na fase de grupos, o Santos perdeu apenas uma vez em 12 jogos, sendo na partida de ida pelas oitavas-de-final, contra a LDU, em casa. Apesar da Vila Belmiro ser um memorável alçapão, o Peixe, ironicamente, terminou com campanha histórica como visitante, empilhando quatro vitórias e dois empates.

A formação base do Santos tem: John; Pará, Veríssimo, Luan Peres e Felipe Jonatan; Alisson, Diego Pituca e Soteldo; Marinho, Kaio Jorge e Lucas Braga

O desempenho nessa edição fez com que o Alvinegro Praiano superasse a campanha do tricampeonato em 2011. Com oito vitórias, três empates e uma derrota, o Santos de 2020/21 atingiu os 75% de aproveitamento enquanto o time de 2011 teve sete vitórias, seis empates e uma derrota, resultando num aproveitamento de 64,2%. Resta agora a final única.

Como defende o Santos

O Peixe chega para a grande final da Libertadores com nove gols sofridos nos 12 jogos anteriores. A defesa santista é a 10ª menos vazada da competição, sendo três gols a mais que a melhor defesa, a do Palmeiras, que registrou 6 tentos sofridos. Apesar de não ser um número tão expressivo, a equipe passou quatro jogos ilesa no certame (uma partida sob o comando de Jesualdo e três sob o comando de Cuca).

Salvo alguns problemas de lesão, covid ou suspensão, o setor defensivo do Santos era regularmente formado por João Paulo/John, Pará, Lucas Veríssimo, Luan Peres e Felipe Jonathan. Fora partida contra o Olimpia, em Assunção, onde Cuca armou uma linha de cinco defensores, que virava linha de três quando atacava, foram poucas as vezes que se viu necessária uma mudança brusca de modelo e peças.

Existem duas características marcantes no trabalho de Cuca no que tange as suas passagens pelo clube alvinegro: encaixes defensivos e mínima preocupação com o controle da posse de bola. A dosagem desses dois conceitos é extremamente importante para o sucesso da estratégia, que instintivamente pode ser um “flerte” com o perigo em certas ocasiões.

Cuca é um grande admirador dos encaixes na marcação, especialmente os individuais. Para que esse feitiço não vire contra o feiticeiro, é necessário que os atletas, não apenas da defesa, estejam totalmente concentrados.

O ápice do sucesso defensivo do Peixe foi nos dois últimos confrontos de mata-mata contra Grêmio e Boca Juniors, respectivamente. Foram apenas dois gols sofridos, ambos pelo Tricolor Gaúcho, na partida de ida, no Sul, foi um gol sofrido de pênalti no último lance, enquanto na volta fora um gol sofrido na reta final com o placar apontando um avassalador 3×0.

Nos dois duelos contra a equipe brasileira, o Santos teve menos posse de bola, finalizou mais e sofreu menos. Na vitória por 4×1, na Vila Belmiro, o encaixe individual de Alison em Jean Pyerre chamou a atenção por tirar o armador da partida, o que facilitou a roubada de bola e a transição em alta velocidade. Apesar da linha de quatro defensores sair na caça dos alvos, especialmente com os laterais, o suporte defensivo dos pontas, sobretudo de Lucas Braga pela esquerda, ajudou no equilíbrio defensivo, oferecendo poucos espaços.

Inspirado pela fisicalidade proporcionada por Alison a frente da zaga, Cuca repetiu a filosofia dos encaixes, que foram ainda melhores e visíveis nos dois jogos contra o Boca. O capitão se encarregou novamente de perseguir individualmente o armador, nesse caso Carlos Tevez, e os laterais protagonizaram marcações longas, caçando seus adversários até setores mais distantes da posição original. Para não conceder espaços quando essas “caçadas” aconteciam, Lucas Braga voltava pela esquerda (ou Soteldo se Braga estivesse pelo meio, como aconteceu na Vila Belmiro) e Pituca pela direita (em determinados momentos até o Marinho ajudou nesse sentido).

Apesar dos encaixes funcionarem nas transições, o Santos sofre para acertar a marcação em jogadas aéreas. O grande “Calcanhar de Aquiles” da equipe é justamente as bolas alçadas na área.

Como ataca o Santos

Se na fase defensiva Cuca prioriza os encaixes nas laterais e individuais pela zona central, no ataque ele procura o desencaixe graças à versatilidade dos homens de frente. Com 20 gols marcados, o Peixe tem o terceiro melhor ataque da competição, perdendo para River Plate (33) e Palmeiras (32).

Marinho é o grande nome do Santos na temporada, porém, o artilheiro santista na Copa Libertadores é Kaio Jorge, com 5 gols. Mesmo com apenas 19 anos, o centroavante desempenha papel crucial na movimentação ofensiva. Muito associativo ao jogo, Kaio Jorge passa pouco tempo dentro da grande área como um centroavante antigo. O artilheiro santista é muito utilizado na construção do jogo no meio-campo, saindo da posição original e criando espaços para quem vem de trás, podendo ser Soteldo, Lucas Braga ou até o Marinho.

Com bom controle de bola e explosão física para realizar corridas pelos lados do campo, Kaio Jorge é capaz de ludibriar a marcação na entrada da área, mas também é forte o suficiente para segurar os zagueiros.

O quarteto composto por Marinho, Soteldo, Kaio Jorge e Lucas Braga começou a ganhar forma no mata-mata, mesmo sem terem jogado todos os jogos juntos (Soteldo estava com covid no confronto com o Grêmio). Apesar de ter sido explorado como referência no meio da área em alguns momentos, Marinho é o que menos precisa trocar de função. Enquanto Kaio Jorge flutua no último terço criando e procurando espaços, Soteldo e Lucas Braga causam confusões pelo lado esquerdo.

Pouco se fala sobre a qualidade de Yeferson Soteldo como armador. No Chile, especialmente pela Universidad de Chile, o camisa 10 atuou algumas vezes pelo meio-campo, como um enganche. Muita gente se surpreendeu com o venezuelano aparecendo pela faixa central, sendo o primeiro tempo na ida contra o Boca um grande exemplo. Rápido, técnico e com visão de jogo, o baixinho se livrava da marcação com facilidade.

Uma jogada que começou com Lucas Braga pela esquerda, passou por Soteldo como armador, chegou em Kaio Jorge vindo do meio-campo e terminou em Marinho na direita, que finalizou para defesa de Andrada.

Por outro lado, Lucas Braga é justamente o oposto de Soteldo, mas com características que se complementam. O ponta de 24 anos é alto (1,84m) e resistente, conseguindo correr os dois lados do campo por 90 minutos. Braga não é tão habilidoso quanto Soteldo, mas ele é tão veloz quanto, especialmente quando há espaço para atacar.

Devido a resistência de Lucas Braga e sua capacidade de cumprir funções, Cuca sagazmente o colocou por dentro na partida de volta, na Vila, contra o Boca e liberou Soteldo pela esquerda com o intuito de explorar o 1×1 contra o lateral adversário (lance do segundo gol). Braga mostrou aspectos defensivos no primeiro tempo dessa partida ao segurar mais a posição para que Diego Pituca atacasse o espaço em alguns momentos, e no segundo tempo com mais liberdade (e ainda com gasolina no tanque) para trocar de posição com Kaio Jorge (lance do terceiro gol).

Repare no posicionamento do quarteto no segundo gol do Santos, contra o Boca, na Vila Belmiro. Lucas Braga vindo pelo meio, Kaio Jorge recuado e Marinho infiltrando entre dois defensores na função de centroavante. A jogada terminou em uma ação individual de Soteldo, mas o espaço e liberdade criados na defesa argentina permitiu ao camisa 10 santista o tempo necessário para tomar a ação correta.

Marinho, além de se destacar nas finalizações e dribles desconcertantes, sabe servir de isca. O adversário sabe que deixá-lo sozinho é um problema, justamente pela qualidade individual. Porém, ele também sabe disso e muitas vezes se sacrifica ao segurar o marcador pelo lado direito, seja sofrendo faltas ou alargando o campo.

Toda essa movimentação, todas as jogadas individuais pelas bordas do campo e chegadas rápidas ao arco adversário compensam o desapego pela posse de bola. A missão é roubar a bola o mais rápido possível com os encaixes defensivos e passá-la aos pontas. Considerando a característica de cada atleta, sobretudo do quarteto, é compreensível a abordagem.

Estatisticamente falando, o quarteto também se comprova em números. Juntando gols e assistências ficaria Kaio Jorge com cinco (somente pelos gols), Marinho com cinco (quatro gols e uma assistência), Soteldo com quatro (dois gols e duas assistências) e Lucas Braga também com quatro (dois gols e duas assistências). Isso sem contar pré-assistências, chances claras criadas e dribles que enfatizam ainda mais a força desse setor.

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Caio Nascimento

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