Após sucesso na Itália, Adailton Martins foca na carreira de treinador e tem suas ideias claras sobre futebol

Em entrevista ao Footure, o ex-atacante conta sobre suas experiência na Itália — onde é ídolo —, suas ideias e projetos como treinador e as diferenças que vê no futebol Brasil e Europa

Aos 44 anos, Adailton Martins está próximo de iniciar sua carreira como treinador de futebol. Nascido em Santiago, no Rio Grande do Sul, foi na Itália onde fez carreira, com passagens por Bologna, Genoa, Hellas Verona e Parma.

Em entrevista ao Footure, o ex-jogador contou sobre suas referências no campo, onde iniciou a vontade de se tornar técnico, os cursos da UEFA, seu modelo de jogo ideal e os planos da carreira.


Foi na temporada 2006/07, ainda no Genoa, que Adaílton teve o “estalo” e a ideia de se tornar treinador de futebol. Naquele ano, Gian Piero Gasperini era o comandante do time e propôs aos jogadores um estilo diferente de jogar. Alguns ficaram indecisos, mas o poder de convencimento do técnico foi tamanho que todos compreenderam as ideias e viram, ali, as diversas nuances de uma partida de futebol.

Começam aqui, as primeiras diferenças do jogador brasileiro para o europeu na visão de Adaílton. “O jogador europeu tem a cabeça aberta. Depois de conviver lá você entende a aceitar as propostas, questionar, mas sem afrontar o técnico, para ver se funciona. Dar o 100% para aumentar a bagagem de conhecimento”, comentou.

Além disso, abordou o tema responsabilidade dos jogadores e ressaltou que é muito fácil para o atleta se isentar da responsabilidade ao dizer que “o treinador pediu que eu fizesse isso”, sem ao menos buscar entender os motivos para tal e, se necessário, conversar sobre sua melhor utilização.

Na velha discussão sobre técnico ex-jogador ou não, Adaílton ressaltou que a comunicação com o grupo de atletas pode ser um diferencial, mas é apenas uma parte do trabalho. “O treinador que foi jogador leva uma vantagem neste aspecto (comunicação com os atletas). No mais, todos precisam ter conhecimento sobre o que estão passando. A questão é que, muitas vezes, aqueles que não estiveram no campo tem mais dificuldade para serem aceitos porque os jogadores falam ‘como tu sabe disso se tu não esteve lá?’. É difícil chegar lá. Por isso ser jogador me ajuda que na hora dde responder ao atleta é possível passar essa confiança de dizer pra ele ficar tranquilo pois já estive lá e sei que isso funciona”, analisou.

Outro aprendizado importante no vestiário foi ter convivido com jogadores do nível de Buffon, Thuram, Crespo, Ronaldo, Di Vaio e cia. “Atletas desse nível não são soldadinhos do treinador, eles questionam, buscam entender e você precisa ter a respostas. Então, por isso, também aprendi quando estiver com atletas desse nível no vestiário como trabalhar”.

A segunda grande diferença para Adaílton está na forma como brasileiros e italianos veem o futebol. De um lado, o imediatismo que com “dois ou três jogos você está fora” e no outro os “clubes com pensamento a longo prazo, e apesar do profissionalismo ter aumentado muito no Brasil, ainda não são todos os atletas que entendem sua responsabilidade para imagem do clube dentro e fora de campo”. Desta forma, não há como separar pessoa do clube.

“Quando você fala do D’Alessandro. É o D’Alessandro do Internacional. Se você falar do Pepê, não é apenas o Pepê. É o Pepê do Grêmio.O Diego é o meio-campo do Flamengo. Sempre que você citar um atleta, junto com ele vai vir o nome do clube. A marca é representada em coisas boas ou ruins. Se ele está em coisas boas, o clube ganha em sua imagem. O mesmo serve ao contrário”

Adailton, em entrevista ao Footure

No que diz respeito a dentro de campo, Adaílton vê como diferença o nível de concentração e preparação para o alto nível como opostos. “Não tem meio termo nos jogos, eles atuam quarta e domingo sem nenhum problema. A intensidade do jogo é muito alta e eu notei essa diferença na Itália, na França, nas competições europeias. Um nível de competitividade muito alto, com menos faltas, jogadores que ficam mais em pé”, ressaltou o ex-jogador.

Questionado se essa intensidade não poderia ser fruto do número de jogos disputados no Brasil, ele concordou, mas ressaltou outro ponto:

“Mais do que o número de jogos, as viagens. No Brasil, você viaja um dia, perde treino. Não consegue voltar após a partida, tem que voltar no outro dia e perde mais um treino. Sem contar os diferentes climas. Sair do Rio Grande do Sul para jogar no Recife é muito diferente”

Adailton sobre problemas no Brasil

O tema sobre viagens acabou sendo abordado pelo Footure há alguns meses e mostrou que, no Brasil, se viaja quase 5x mais que na Europa e se joga, em média, 15 partidas a mais num calendário normal.

Após retornar ao Brasil em agosto, Adaílton já está com o planejamento trabalhar em 2021. Após terminar as licenças B e A da UEFA na Itália e ter inspirações como Carlo Ancelotti, Prandelli, Mihajlovic, Gian Piero Gasperini, Roger Machado, Tiago Nunes, nos contou mais sobre quais ideias gostaria de implementar.

A equipe que eu vir a dirigir precisa ser agressiva. Quando o adversário tiver a bola, ele tem que estar pressionado, tendo que fazer jogadas forçadas. Uma intensidade muito forte na fase defensiva para encurtar as linhas. Já quando o time tiver a bola, eu quero atletas para atacar o espaço, em profundidade.

Adaílton sobre seu modelo de jogo ideal

Sobre o modelo de jogo, apesar de Guardiola ser uma referência, Adaílton acredita se tratar de uma equipe única. “Eu vivenciei a Era do Guardiola, mas aquele modelo eu só vejo funcionando no Barcelona. E naquele Barcelona. Tanto é que o Guardiola foi para outras equipes (City e Bayern) e tendo grandes jogadores precisou se adaptar”.

Ideias, inspirações, contexto e estudo. Esperando a sua oportunidade, Adaílton já demonstrou que tem todas as ferramentas para se tornar um bom treinador e nós estaremos observando os próximos passos dele no futebol.

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Gabriel Corrêa

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