Atlético Mineiro: o que o elenco pode oferecer a Sampaoli?

Invertendo a lógica tradicional, o olhar analítico sobre o Atlético Mineiro para essa temporada recai sob como as peças do elenco se adaptarão ao novo treinador Jorge Sampaoli

Não é novidade que Jorge Sampaoli ao chegar em seus novos clubes promove verdadeiras mudanças. Não só implementa um novo estilo de jogo como modela o elenco a suas necessidades. Além de exigir grandes reforços, o treinador argentino não tem pudores para dispensar jogadores que não se enquadrem a sua filosofia.

Foi assim no Santos onde teve desavenças com a diretoria desde o primeiro mês. Ainda em janeiro de 2019 falava-se em insatisfação no clube paulista pela falta de reforços. E assim seguiu durante todo o ano e a falta de verba para novos investimentos e as constantes brigas com o presidente José Carlos Peres o fizeram rescindir contrato ao fim do ano.

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Nesse início de retorno gradual aos trabalhos no Atlético Mineiro a sua forma peculiar de trabalho já ficou evidente. O clube deu fortes sinais que não conta com 6 jogadores que faziam parte do seu elenco e farão parte da barca de dispensas. Estes são Ricardo Oliveira, Di Santo, Lucas Hernandez, Martínez, Edinho e Zé Welison. Além disso, alguns nomes voltam a ganhar força no mercado como o de Gustavo Scarpa que nutre forte relação com o novo diretor do clube Alexandre Mattos. Ademais, o clube já havia anunciado a transferência de Patric, Bruninho e Maidana para o Sport.

Para ter Sampaoli, o Atlético inclusive teve que se adaptar a forma do treinador trabalhar e além de investir em sua contratação teve que arcar com uma equipe que passa desde o diretor de futebol Gabriel Andreata ao do analista de desempenho Felipe Araya.

Tendo isso em conta, a torcida atleticana, que crê em grandes mudanças após essas sinalizações, cria boas expectativas para a temporada, independente da paralisação pela quarentena. Se o Galo voltará a treinar agora ou em algumas semanas ainda não temos definições mas o fato é o time está sob nova direção, sem meia vírgula.

Atlético Mineiro Alexandre Mattos

Por isso, devemos olhar essa situação sobre uma ótica invertida: ao invés de o que podemos esperar de Sampaoli na Cidade do Galo, o que o novo comandante pode esperar do elenco atleticano.

Goleiros

Não é novidade que Sampaoli espera de seus goleiros não só boas habilidades com as mãos, mas principalmente com os pés. O argentino é irredutível nesse ponto e ao chegar no Santos fez o inquestionável Vanderlei se tornar banco do até então pouco conhecido Éverson. No Atlético não será diferente.

Sem a mesma consagração de Vanderlei nos últimos anos, Victor se tornou segunda, talvez terceira, opção do treinador com a chegada de Rafael. Inclusive falava-se até em um quarto nome além dos dois já citados e Michael, para se enquadrar no perfil de Sampaoli. A partir dos primeiros treinos, contudo, tais levantamentos se tornaram apenas boatos quando Rafael (contratado por oportunidade de mercado) começou a mostrar bom aproveitamento com os pés.

Com apenas uma partida nesse novo modelo, o ex-cruzeirense já se mostrou apto para entregar o que el profe pede. Em suas redes sociais mostra empenho e mesmo com a paralisação do esporte é possível ver o camisa 12 treinando suas habilidades durante a quarentena.

Contra o Villa Nova não foi impecável, e nem se esperava isso, mas mostrou vontade de crescer e auxiliou Rabello e Gabriel nas saídas de bola e quebras de linha, o que afasta por completo a necessidade de mais um arqueiro.

Laterais

Posição razoavelmente carente no futebol brasileiro, é motivo de orgulho a dupla titular atleticana. Guga e Guilherme Arana, recém-contratado, possuem alta capacidade associativa e o primeiro inclusive tem boas experiências em modelos de ataques mais posicionais na Seleção Olímpica de André Jardine. Guga inclusive na partida de estreia de Sampaoli foi mais exigido que o habitual, não só teve que ser lateral, mas também criador por dentro e terceiro homem na saída de bola. Arana, por sua vez, promete ser mais agressivo pelos corredores, dando amplitude e abrindo as linhas adversárias.

No banco de reservas, Sampaoli reduziu seu elenco. Se antes contava com Patric, Lucas Hernandez, Fabio Santos e Maílton, hoje conta apenas com os dois últimos. Um nome de experiência, acostumado a jogadas de linhas de fundo e baixa taxa defensiva e outra a amadurecer ao longo da temporada.

Em momento de construção de ataques, com a bola ainda no setor defensivo, os laterais são extremamente importantes em um modelo de saída lavolpiana. São eles quem irão avançar para o campo adversário e ali segurar os meias/pontas adversários para abrir espaço para os defensores saírem jogando. Não serão raras as vezes, contudo, em que eles descerão para a linha defensiva.

Zaga

Talvez junto do goleiro, o setor que mais chama atenção no trabalho do novo treinador e que mais passará por mudanças nesse (quase) início de ano. Réver, Gabriel e Igor Rabello são os únicos três nomes que compõe a zaga atleticana após a saída de Maidana. Deixando de lado os atributos defensivos por si só, com pontos a se criticar nos três, aqui o foco está na capacidade de criação. Obviamente a capacidade de recuperação em velocidade devido a demanda pela contra-pressão e marcação em bloco alto é um fator importantíssimo, já visto inclusive em Gabriel e Rabello, entretanto, aqui o objeto de análise será a capacidade de criação.

Quando puxamos por exemplo os 10 zagueiros com maior número de passes certos no campo adversário vemos facilmente Lucas Veríssimo (cotado no Galo), Juan Quintero, Rodrigo Caio e Léo Pereira, porém nenhum dos três atleticanos se destaca. Contudo quando levantamos o percentual (%) de acertos de passes de ruptura, Réver e Gabriel (então no Botafogo) aparecem no top 12 com 58% e 55.7% de acerto (como referência Digão obteve o melhor aproveitamento com 67.8%).

O mesmo vale para a eficácia absoluta em bolas longas, em que Gabriel foi o segundo do Campeonato Brasileiro com o melhor número (150) e Réver o oitavo (108).

Assim podemos tirar a conclusão de que possuem um bom aproveitamento na questão criativa, contudo foram pouco exigidos por seus treinadores nesse quesito na último temporada. Rabello por outro lado não teve bons números, contudo já iniciou o ano com a confiança do treinador para iniciar as jogadas atleticanas e se saiu bem no primeiro teste.

LEIA MAIS: Benjamin Kuscevic, o homem que falta para defesa de Sampaoli?

Sampa ainda busca mais um nome para o setor e algumas possibilidades já foram ventiladas. Além de Messias, ex-América, um dos nomes que mais agrada a torcida é o do chileno Benjamin Kuscevic. Capitão com 24 anos, o zagueiro da Universidad Católica chama atenção pela sua capacidade de recuperação e coordenação defensiva, além de possuir bom potencial de crescer criativamente como já mostrou no início de trabalho de Holán.

Meias

Passada a fase de construção de jogadas e do último combate, vamos para a zona criativa do campo, por onde ataques são preparados e finalizações criadas. Pela diversidade de atletas, características e principalmente funções aqui gostaria de dividir em duas partes: jogadores de preparação, ou seja, os que mais agem com o Galo posto no campo adversário, e os jogadores de criação, os donos do último passe que geralmente povoam o entrelinhas adversário.

Preparação

Nesse primeiro grupo encontram-se Allan, Jair e Blanco nos planos de Sampaoli para 2020 e aqui podemos ver 3 tipos diferentes de atleta. Allan, como já demonstrou contra o Villa Nova, é um homem do primeiro toque, o que baixa para a linha defensiva para gerar superioridade e foca em quebrar a primeira linha. Jair, como demonstrou no ano passado, é mais diverso. Já o vimos fazer a saída de bola, como muitas vezes também estar as costas do ataque do oponente para acelerar a transição.

Blanco, por sua vez, encontra-se há 2 temporadas em recuperação seguidas lesões e talvez dos três seja o que pode entregar mais intensidade para cobrir as duas áreas. Dono de boa condução para infiltração e ótimo passe de ruptura para os companheiros (como executou boa dupla com Róger Guedes), caso bem recuperado, tem tudo para assumir novamente o posto de titular, talvez como um “terceiro volante”.

Sem a bola todos executam funções semelhantes: pressão após a perda da bola e busca por por companheiro no lado menos congestionado do campo para realizar a transição ofensiva. Portanto, nessa temporada não será raro vermos uma fluídez muito grande entre os três, já que Sampaoli exige uma compreensão sistêmica de seu modelo de jogo pelos jogadores preparação e criação.

Neste setor ainda se especula a chegada de Léo Sena, jogador multifacetado do Goiás. Caso se confirme, sua contração vem para agregar profundidade ao elenco, uma vez que possui bom índice criativo no meio de campo, agindo tanto com desarmes importantes quando em sua precisão em bolas longas e passes decisivos.

Criação

No segundo grupo estão Cazares, Borrero, Hyoran, Otero e Nathan. Nesse grupo os jogadores costumam estar em posições mais avançadas, buscando as costas dos meias e sendo os responsáveis por encontrar o(s) atacante(s). De Cazares naturalmente se espera mais. Independente das incertezas sobre sua permanência, Sampaoli espera ter um meia como Carlos Sanchez: responsável por concluir jogadas, mas acima de tudo, interligar toda a equipe. Não eram raras as vezes em que o uruguaio baixava a linha defensiva para acelerar a transição. Da mesma forma, é responsável pela primeira ação defensiva junto ao atacante, exercendo pressão para recuperar a bola em zonas mais avançadas. Nathan ainda pode ser esse nome e contra o Villa Nova chegou inclusive a ocupar a função de falso 9 nos momentos finais.

LEIA MAIS: A metodologia de Scouting de Luís Campos e as atuais joias do Lille

Tal zona do campo também é essencial por atrair adversários e abrir espaços na defesa adversária. Borrero, Hyoran e Otero, jogadores habitualmente de lado de campo com a bola tendem a afunilar e oferecer triângulos de passe pelos lados, com o lateral e o meio pelo seu lado. Isso permite gerar superioridade mesmo em zonas mais povoadas. Quando longe da zona de ação ajudam a dar amplitude ou abrir corredores. Do lado de Guga a ideia deve ser pisar a linha lateral para abrir o campo e atrair marcadores para fora enquanto o lateral busca espaço por dentro. Já do lado de Arana a tendência é que se associem mais por dentro enquanto o ex-corintiano dá a amplitude e ganha o corredor com velocidade.

Esses homens de lado inclusive são essenciais para uma modelo de jogo que se baseia em um falso 9, como pode ocorrer com Tardelli ou Nathan. Com espaços abertos as costas da zaga, são os velocistas para receber a bola no ponto futuro e liderarem o número a lista de artilheiros.

Atacantes

No ataque, assim como no meio, há dois tipos de jogadores: de área e de lado de campo. Estes se aproximam mais do perfil dos meias que também jogam aberto no 4-3-3 do novo treinador (Savarino e Marquinhos), enquanto aqueles são atletas que devem ser multifacetados.

Com a saída iminente de Ricardo Oliveira e Di Santo, Tardelli deve ganhar bastante espaço. O camisa 9 sempre ofereceu muita mobilidade, podendo tanto aparecer dentro da área para concluir como sendo o tradicional “falso 9”, o que baixa a linha de meio para atrair a defesa e criar espaços em suas costas para a infiltração de seus companheiros.

A partir de tal análise, de caráter qualitativo apoiado sobre dados, podemos ter uma visão geral sobre o que podemos esperar do Atlético Mineiro para a temporada 2020 que teve sua Era Sampaoli postergada pela quarentena. Com a bola podemos esperar um time associativo que ganha tem profundidade e amplitude desde o primeiro toque de tiro de meta. Os ataques são todos baseados em atrações e induções de movimento, sejam os pontas abrindo o campo para o jogo pelo centro, sejam por associações em triângulos pelos lados. Sem a bola, a ordem é sempre focar em recuperá-la o mais rápido possível na transição ofensiva. Caso não consiga, se postar em defesa por zona com foco em proteger o funil.

Muita coisa aguarda a torcida atleticana e, mesmo com todos os problemas extra-campo, com Sampaoli é possível ser otimista. Reforços ainda devem chegar, a contratação de Alexandre Mattos e o alto padrão de exigência do treinador, evidenciam isso e o elenco deve ganhar profundidade.

Sem previsão para a volta das atividades esportivas, o que podemos fazer é analisar possibilidades e aguardar ansiosamente pelo fim da pandemia e volta do futebol.

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Felipe Simonetti

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