Possibilidades nas carreiras profissionais das brasileiras no futebol

Caroline Almeida, doutora em Antropologia Social, conversou sobre a rodagem das jogadoras brasileiras por outros países, presença de mulheres nas comissões técnicas e união das futebolistas por mudanças

Um estudo etnográfico sobre carreiras de futebolistas mulheres foi o recorte escolhido por Caroline Almeida para a sua tese de doutorado em Antropologia Social, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O trabalho de campo foi realizado em Araraquara, interior de São Paulo, durante o ano de 2016, acompanhando treinamentos, viagens e competições da equipe feminina da Ferroviária.

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Na conversa, detalhes acerca da pesquisa, como se dá a rodagem de jogadoras pelo exterior e o cenário da ocupação de profissionais também em comissões técnicas.


Qual foi o seu principal propósito ao escolher essa linha de pesquisa?

A escolha de pensar o universo do Futebol Feminino entre futebolistas brasileiras a partir de uma rede foucaultiana de relações de poder, levando em conta a construção social dessa categoria – Futebol Feminino – no país: o histórico de proibições, a elevação do Futebol Masculino em símbolo nacional, o rebaixamento e a objetificação dos corpos das mulheres que jogam futebol, a luta por visibilidade e por reconhecimento, etc. Entendo os estudos de Foucault sobre “biopoder” e “governança” como fundamentais para a reflexão sobre as trocas simbólicas observadas nessas redes. Importante salientar que utilizo os termos “Futebol Masculino” e “Futebol Feminino” em função de sua perspectiva institucional empreendidas nas categorias esportivas reconhecidas pela FIFA e pelo COI, desviando qualquer concepção que inclua subjetividades de gênero a esses conceitos.

Por qual motivo este tema é importante?

Porque revela muito do pensamento social brasileiro e da normatização de condutas morais que excluem as mulheres de determinados espaços sociais e que também  diminuem a valoração laboral e intelectual em diferentes esferas.

Quais as conclusões do estudo?

A tese procurou discutir como as futebolistas operaram as transformações ocorridas no cenário futebolístico nos últimos anos no Brasil, a partir das mudanças na própria concepção de carreira. Nos últimos anos, as noções sobre amadorismo e profissionalismo passaram a ser questionadas. Essa especialização da profissão tem, ao mesmo tempo, influenciado no surgimento de diferentes atrizes/atores – tais como as/os agentes de gerenciamento de carreira esportiva, e pressionando a FIFA e associações nacionais – a criarem regulamentações que visem a igualdade de gênero no futebol. No entanto, essas mudanças também refletem nas relações de poder que constituem esse universo do Futebol Feminino, reconfigurando o papel de dirigentes de clubes, empresários e atletas. O resultado tem sido observado no aceleramento do ritmo das movimentações por transferências de clubes: as atletas estão se tornando “rodadas” mais cedo.

Além disso, de um modo geral, a literatura existente sobre migração e futebol tem enfatizado a importância de ganho financeiro como a força motriz para a expansão de fronteiras nesse esporte. Mas no caso do Futebol Feminino, vê-se um intercâmbio global ainda em desenvolvimento. Muito em função dos ganhos econômicos serem mais modestos e da visibilidade ainda baixa. Durante grande parte da minha pesquisa, trabalhei com a perspectiva de que essas futebolistas circulavam por diferentes clubes simplesmente para poder viver do futebol. No entanto, depois desses anos acompanhando futebolistas mulheres, observei que na maioria das vezes o incremento no capital econômico (no sentido atribuído à Bourdieu) é superado pelos ganhos nos capitais cultural, corporal e futebolístico.


POR DENTRO DA PESQUISA

Embora o debate acerca da valorização do futebol feminino já tenha ganhado força há alguns anos, a audiência da última Copa do Mundo pode ser considerada como um ponto de virada para que o investimento realmente venha a subir?

Sem dúvida a audiência da última Copa teve um papel importante na visibilidade sobre o Futebol Feminino no Brasil, mas não chamaria de ponto de virada. É um processo que tem se acelerado nos últimos anos não somente pela inclusão da igualdade de gênero no artigo 23 do regulamento da FIFA em 2016 (e o efeito dominó ocasionado por ele), mas principalmente pela luta das futebolistas – e ativistas do Futebol Feminino –  que há anos vêm chamando a atenção para o abismo existente entre as duas modalidades de futebol. A virada vem dessas mulheres que mostraram que a invisibilidade decorre da exclusão nesses espaços por leis que proibiram e restringiram o acesso à prática desse esporte.

O Brasil sempre foi um dos principais exportadores de atletas no futebol masculino. Como está esse cenário no feminino, principalmente em comparação com outros sul-americanos?

O Brasil também tem papel de destaque entre as mulheres. Podemos perceber que a circulação de jogadoras de futebol brasileiras assumiu diferentes trajetos. A migração laboral de futebolistas brasileiras tem crescido nos últimos cinco anos, grande parte em decorrência do aumento de intermediários/empresários especializados em gestão de carreiras no Futebol Feminino e também do fortalecimento de Ligas Femininas em diversos países – em conformidade com a FIFA que estabeleceu a igualdade de gênero em sua regulamentação. 

Durante a temporada de 2016/2017, período da minha pesquisa de campo para a tese, clubes filiados à UEFA receberam pelo menos 45 brasileiras. A Espanha foi o principal destino nesses anos, com 12 contratações. Portugal e Israel entraram como novas rotas para jogadoras daqui. Além disso, países como a Coreia do Sul e a China atraíram grandes nomes como Cristiane, Debinha , Raquel e Thaís. Além desses países, existe um contingente regular de futebolistas na liga profissional dos EUA e nos campeonatos sueco, norueguês, alemão, islandês, japonês, etc. Vale ressaltar que os fluxos que orientam essas movimentações são efêmeros e dependem da manutenção das redes entre clubes, intermediários e jogadoras de futebol.

LEIA MAIS: As metodologias de aprendizagem implícita e explícita no esporte

No que se refere ao Brasil, observa-se uma mudança significativa: além de um país exportador de atletas, tem apresentado um fluxo inverso também. A recepção de futebolistas estrangeiras ganhou força com o fortalecimento dos campeonatos nacionais e a criação da Libertadores Feminina. A maioria vem de países da América do Sul. Entre 2016 e 2018, principalmente da Argentina e do Paraguai. Segundo algumas dessas atletas estrangeiras que foram interlocutoras da minha pesquisa, jogar no Brasil traz as vantagens de atuar em campeonatos mais fortes, com um calendário mais preenchido, além de possibilitar uma maior chance de assinar melhores contratos com clubes do exterior.

Fora do campo, como tem sido o estímulo para inserção de mulheres nas comissões técnicas? 

Tem mudado lentamente, e apenas por pressão das próprias futebolistas e demais ativistas, além das novas regras da FIFA e CONMEBOL, que por sua vez são passadas à CBF. Ainda é comumente que as equipes de mulheres sejam comandadas por homens. Durante a Libertadores da América de 2016, no Uruguai, acompanhei um dos clubes brasileiros durante os jogos. Na época, era uma das poucas equipes com uma mulher como técnica. Uma das exigências no regulamento daquele ano era que pelo menos dois membros da comissão técnica fossem mulheres. A equipe não tinha nenhuma outra mulher e teve que correr atrás de uma fisioterapeuta para cumprir a regra.

Mas ainda é muito complicado quebrar com o esquema de cartolas nas instituições que representam o Futebol Feminino no país. Basta ver pelo que aconteceu com a Emily Lima na Seleção. Infelizmente, sabemos que, se não fosse por determinação da FIFA, seria muito mais difícil que clubes – e que a própria CBF – incluíssem mulheres em seus quadros técnicos.  

Quais espaços ainda necessitam da ocupação de mulheres dentro da estrutura do futebol feminino brasileiro?

O Futebol Feminino deve ser pensado por mulheres e para mulheres. O que se vê ainda hoje entre os quadros técnicos e dirigentes das federações é uma maioria de homens, que possuem a formação voltada para o Futebol Masculino. São universos diferentes. Não acho que os homens devem deixar de atuar nesses espaços, mas sim que seja possível uma equidade. Por exemplo, hoje é impensável que uma mulher comande uma equipe de FM, nem se cogita essa possibilidade. Desconheço mulheres auxiliares, até fisiologistas nas comissões técnicas de clubes das primeiras divisões do Brasileirão Masculino.

Além disso, ainda são poucas mulheres comentando, narrando jogos, no comando dos programas de debates (ou mesmo nos debates) e na produção de conteúdos esportivos.


QUER SE APROFUNDAR NO TEMA?

– AGERGAARD, Sine; TIESLER, Nina C (Org). Women, soccer and transnational migration. London, New York: Routledge, 2014; 

– MORAIS, Enny Vieira. Fazendo gênero e jogando bola: futebol feminino na Bahia anos 80-90. Salvador: EDUFBA, 2014;

– Cláudia Samuel Kessler. (Org.). Mulheres na área: gênero, diversidade e inserções no futebol. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2016, v. 1, p. 107-133.


Título da tese: Do sonho ao possível: projeto e campo de possibilidades nas carreiras profissionais de futebolistas brasileiras
Autora: Caroline Soares de Almeida
Instituição de Ensino: Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Caroline Soares de Almeida é mestre e doutora em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina. Possui Graduação em História também pela Universidade Federal de Santa Catarina e Bacharelado em Educação Física pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Desde 2011, é pesquisadora do Núcleo de Antropologia Audiovisual e Estudos da Imagem (NAVI/UFSC), atuando, principalmente, nas áreas de esporte, globalização e gênero. Atualmente, é Pós-Doutoranda do Programa Interdisciplinar em Ciências Humanas e pesquisadora visitante na VU Amsterdam, onde realiza pesquisa na temática de consumo e eliminação de resíduos orgânicos.
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Eryck Gomes

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