As metodologias de aprendizagem implícita e explícita no esporte

Mariana Lopes – doutora em Ciências do Esporte pela Universidade de Heidelberg, da Alemanha – analisa prós e contras de se aprender uma modalidade esportiva coletiva de maneira formal e por meio de jogos sem intervenções diretas de treinadores; conversa também abordou relação do basquete com outros esportes coletivos

Verificar os efeitos e comparar duas metodologias de ensino dos esportes, utilizando o basquete como objeto específico – mas havendo paralelos com o futebol. Esse foi o tema escolhido por Mariana Lopes para a sua tese de doutorado em Ciências do Esporte, pela Universidade de Heidelberg, da Alemanha. Um dos métodos é mais explícito, com professores dando instruções diretas sobre regras de movimentos e ações (técnicas e táticas), com a aprendizagem desses aspectos de forma consciente. O outro é mais implícito, com os alunos assimilando as mesmas coisas, mas de maneira não intencional.

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Indo além da pesquisa, conversamos sobre a importância do basquete na formação do jovem atleta e a relação que possui com outros esportes coletivos, inclusive em termos táticos.


Qual foi o seu principal propósito ao escolher essa linha de pesquisa?

Esta é uma linha de pesquisa bem recente na área de Educação Física e o meu principal intuito foi verificar as vantagens e desvantagens de se aprender uma modalidade esportiva coletiva de maneira formal (por exemplo: clube, escolinha) e por meio de jogos sem instruções e intervenções diretas de treinadores relacionadas com “o que fazer” (tática) e “como fazer” (técnica).

Por qual motivo este tema é importante?

Atualmente, há uma grande discussão no meio acadêmico e profissional sobre a importância da iniciação esportiva por meio do chamado “jogo deliberado”, que seria a prática esportiva com intuito de divertimento, prazerosa e com regras estabelecidas e monitoradas pelas crianças.

Acredita-se que este tipo de prática seja importante nos estágios iniciais da aprendizagem esportiva, por incentivar a criatividade de movimentos e jogadas, além de aumentar o repertório motor das crianças. Porém, há poucos estudos, que em contextos ecológicos, procuraram verificar, de forma controlada, a eficácia de um programa de iniciação esportiva, com habilidades técnicas e capacidades táticas sendo ensinadas de forma implícita.

Além disso, o estudo teve um diferencial, que foi o grupo híbrido, no qual os alunos treinaram inicialmente de forma implícita e depois passaram a ter os conteúdos com metodologia explícita.

Quais as conclusões do estudo?

Em relação aos aspectos técnicos, no geral, o grupo híbrido (implícito-explícito) apresentou os melhores resultados de aprendizagem e desempenho técnico em situações isoladas (fora do contexto de jogo) e em contextos mais ecológicos (no jogo reduzido de 3×3). Além disso, o grupo explícito acumulou um maior número de regras de movimento. Ou seja, sabia descrever melhor a forma de execução correta da técnica. Já em relação aos aspectos táticos, os resultados indicaram que a criatividade e a inteligência de jogo podem ser desenvolvidas de forma semelhante por meio da aprendizagem implícita e explícita.


POR DENTRO DA PESQUISA

Quais as principais contribuições do basquete no processo de desenvolvimento cognitivo e motor de crianças e adolescentes?

Primeiramente, é importante ressaltar que a natureza das experiências na infância afeta o desenvolvimento do indivíduo ao longo da vida. Ou seja, o desenvolvimento motor e cognitivo das crianças e adolescentes vai refletir no seu nível de atividade física e desempenho escolar e acadêmico. Além disso, o desenvolvimento dos aspectos motores está intimamente relacionado com o desenvolvimento cognitivo. No caso específico do basquetebol, a prática bem orientada da modalidade pode auxiliar no desenvolvimento de habilidades motoras básicas (correr, saltar, arremessar, agarrar, driblar) e específicas do esporte (bloqueios, passes de diferentes formas com as mãos, arremessos em suspensão).

Já o que diz respeito ao aspecto cognitivo, o basquete pode contribuir no desenvolvimento das chamadas “funções executivas”. São processos cognitivos complexos, responsáveis pelo comportamento direcionado ao objetivo, especialmente em situações novas e não automatizadas. No esporte, auxiliam na capacidade de identificar e adquirir informações ambientais, a fim de integrá-las ao conhecimento existente. Isso permite que o indivíduo selecione e execute as respostas apropriadas, sendo consideradas importantes para se obter um bom desempenho. Além disso, as funções executivas são consideradas habilidades essenciais para a saúde mental e física, sucesso na escola e na vida, e desenvolvimento social e psicológico.

O basquete também absorve conceitos táticos de outros esportes?

Assim como o futebol pode absorver conceitos táticos do basquete, o inverso também é verdadeiro. Ambas as modalidades são consideradas da família de esportes de invasão, que são jogos nos quais os times marcam pontos por meio da movimentação da bola dentro do campo adversário e arremessando-a/chutando-a em um alvo fixo (gol, cesta) ou levando-a além da linha de fundo do campo (por exemplo: futebol americano).

LEIA MAIS: O jovem em vulnerabilidade e o futebol como luta por reconhecimento

Para impedir o ponto adversário, uma equipe deve evitar que a outra avance com a bola em seu território, defendendo-o. A resolução desses problemas ofensivos e defensivos requer soluções táticas semelhantes, embora as habilidades técnicas sejam diferentes. Assim, pode-se dizer que há e possuem princípios táticos comuns entre esses esportes, tanto ofensivos (manutenção de posse de bola), quanto defensivos (defender o espaço), que são transferíveis de uma modalidade para a outra. Por exemplo, uma jogada tática ofensiva do basquetebol com movimentação para um espaço livre para receber a bola, será transferível para outros jogos esportivos, como o futebol ou handebol.

A análise tática no futebol vem ganhando força no Brasil há alguns anos. Como está esse cenário de estudiosos do jogo no basquete nacional?

No basquetebol nacional, muito por influência da liga americana de basquete (NBA), que é a maior do mundo, cada vez mais vem se utilizando a análise tática das equipes e jogadores, com recursos tecnológicos bem modernos. Atualmente, em algumas equipes nacionais que competem na NBB, já há uma pessoa da comissão técnica responsável por fazer a análise de desempenho das equipes e seus atletas, tanto das próprias quanto dos adversários.


QUER SE APROFUNDAR NO TEMA?

– Greco, P. J., & Benda, R. N. (1998). Iniciação esportiva universal: Da aprendizagem motora ao treinamento técnico: conceitos e perspectivas. Belo Horizonte: Editora UFMG.

– Reverdito, R. S., & Scaglia, A. J. (2009). Pedagogia do Esporte: jogos coletivos de invasão. São Paulo: Phorte.

– Jr. Rose, D., & Tricoli, V. (2017). Basquetebol: do treino ao jogo. São Paulo: Manole.


Título da tese: Efeitos da aprendizagem implícita e explícita na aquisição da habilidade técnica e do conhecimento tático no basquetebol
Autora: Mariana Calábria Lopes
Instituição de Ensino: Universidade de Heidelberg (Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg), UE, Alemanha

Mariana Calábria Lopes possui graduação em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (2003), mestrado em Ciências do Esporte pela Universidade Federal de Minas Gerais (2006) e doutorado em Ciências do Esporte (Sportwissenschaft) pela Universidade de Heidelberg (Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg) (2011). Atualmente é professora Adjunto III da Universidade Federal de Viçosa (MG, Brasil). Atua principalmente nas seguintes áreas: metodologias de iniciação esportiva, cognição e ação, e competência motora.
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