Carrossel Caipira: a grande obra de Vadão

Entre 1992 e 1993, o Mogi Mirim surpreendeu o Brasil batendo de frente com os grandes clubes paulistas no estadual graças ao comando de Vadão

O noticiário esportivo de ontem foi tomado por homenagens e lembranças ao técnico Oswaldo Alvarez, o Vadão, que morreu aos 63 anos. Em meio às palavras de carinho e agradecimento, o termo Carrossel Caipira apareceu em profusão. Também, pudera: além de ter sido o primeiro trabalho do treinador na carreira, foi o que mais chamou a atenção.

“Um dos jogos mais marcantes para mim foi uma vitória sobre o Palmeiras, no Paulistão de 1993”, conta ao Footure o ex-jogador Fernando Mariano, um dos tantos que viu sua carreira deslanchar no Mogi Mirim de Vadão. “Vínhamos fazendo excelentes partidas, mas essa, no Parque Antarctica, foi a nossa melhor atuação contra um time grande. Foi a grande vitrine para todos”, recorda.

A partida a que Fernando se refere terminou com o placar de 2 a 1 para o alvirrubro. Os gols foram marcados por Leto e Rivaldo, com Jean Carlo descontando para o alviverde. “O jogo representou a maturidade que alcançamos com o Vadão. Era um time bem treinado, que batia de frente com todos os grandes, sem exceções”, completa o ex-volante.

A surpresa que o time causou no Campeonato Paulista não se deu somente pela juventude. O fator que balançava — literalmente — os adversários era o que dava o apelido ao time. O Carrossel Caipira tinha algumas inspirações, mas contava com a rubrica de Vadão em todas as suas nuances.

Um ousado estreante

O Paulistão de 1991 não terminou bem para o Mogi Mirim. Com apenas cinco vitórias em 26 partidas, o clube passou por uma grande reformulação. Valendo-se do seu conhecimento sobre equipes do interior do país, o presidente Wilson Fernandes de Barros optou por reconstruir seu time com jovens de diversas regiões do país. No comando técnico, a escolha seguiu o mesmo caminho: Vadão, até então um preparador físico de 36 anos, topou o desafio de comandar a equipe.

“Tivemos um bom período de preparação antes do Paulistão (de 1992). Fizemos muitos treinos de posicionamento, muitos amistosos”, detalha Ildo Pauli, zagueiro do Sapão entre 1992 e 1994, em conversa com o Footure. “Nesse tempo que tivemos, acertamos todos os detalhes. O Vadão tinha esse sistema novo que estava implantando, usando o 3-5-2, então precisávamos entender tudo que ele queria colocar em prática”, explica.

As rápidas trocas de passe caracterizaram o ataque do alvirrubro

O entendimento entre os jovens atletas foi grande, mesmo com a proposta de jogo diferente para os padrões da época. E o resultado veio rapidamente: no primeiro semestre de 1992, o time levou a Copa 90 anos de Futebol, disputada entre clubes do interior paulista.

Atual preparador de goleiros do Grêmio, Mauri Lima defendeu a meta do Sapão em 1992 e 1993, e recorda-se bem do padrão de jogo. “Se fala muito, hoje, de (o goleiro) jogar com os pés. E isso já acontecia no Mogi. Quando o time jogava no 3-5-2, eu ficava um pouco mais adiantado para poder trabalhar com o Capone, que era o líbero. No 4-3-3, que também jogávamos em determinados jogos, a ideia era que eu ficasse mais adiantado para ser esse líbero”, ilustra o ex-goleiro ao Footure.

A variação de esquema detalhada por Mauri, junto com as trocas de posição entre os jogadores, era o que fazia o time ser imprevisível aos adversários e surpreendente aos espectadores. “Era uma mescla (de movimentos predefinidos e improvisados). A gente tinha uma liberdade, ia muito do olhar. Existia um grande entrosamento. Essa sincronia não é muito normal, e, para mim, tinha um pouco de magia”, conta o volante Fernando.

O esquema de Vadão

Rivaldo apareceu para o Brasil no Mogi de Vadão (MMEC/Arquivo)

O 3-5-2, que, apesar de algumas variações, caracterizou o Carrossel Caipira, era bastante questionado, à época, por conta do mau rendimento do Brasil na Copa de 1990, que utilizara esse esquema. Vadão sabia disso, mas também havia observado bastante a Alemanha Ocidental, tri-campeã naquele mesmo torneio. Os comandados do Kaiser Franz Beckenbauer jogavam formatados em uma variação do 3-5-2, e apresentaram um bom (e vencedor) futebol.

Além do esquema da Alemanha de Kaiser, as rotações da Holanda de Rinus Michels, eternizadas na Copa de 1974, também estavam presentes no Mogi Mirim de Vadão. Com um pouco de cada uma de suas inspirações, o técnico criou um estilo próprio, que propiciou o desenvolvimento de jovens como Rivaldo, que viria a ser o melhor do mundo seis anos depois. Além disso, a equipe também alcançou grandes resultados no campo — ainda que sem ter o trabalho coroado com um título estadual.

“Todo mundo pegou o sistema de um jeito que, às vezes, eu sentia que nem precisava da palestra antes do jogo”, relata Ildo. O encaixe permitiu que os movimentos, ainda que diversos, começassem a ser repetidos na fase ofensiva. Fernando detalha seu papel quando o time tinha a bola: “Eu jogava no meio, mas podia trocar com o ala da esquerda, se ele viesse jogar por dentro. Quando o Capone, que jogava como líbero, adiantava, eu ocupava a posição dele. Os jogadores gostavam disso, principalmente porque dava resultado”.

Em 1992, a equipe teve o maior número de pontos na primeira fase do Campeonato Paulista. Foram 16 vitórias, cinco empates e cinco derrotas, que deram ao Sapão a liderança do Grupo B. Na fase seguinte, o time caiu de produção e foi eliminado em um chaveamento com Guarani, Corinthians e Palmeiras. Mesmo assim, terminou a competição com o artilheiro: Válber, que anotou 17 gols.

Leto e Rivaldo marcaram na vitória sobre o Palmeiras em 1993

As constantes trocas de posição entre Válber, Rivaldo e Leto faziam do Mogi um time imprevisível no ataque, fator fundamental para a boa campanha no Paulistão do ano seguinte, além do vice-campeonato do Torneio João Havelange de 1993. Na final, inclusive, a equipe perdeu a primeira partida para o Vasco por 4 a 0, e devolveu o mesmo placar no jogo de volta — mas acabou derrotada nos pênaltis.

Depois das duas temporadas, o desmanche foi inevitável. Boa parte dos jogadores saiu da equipe para outras que disputariam a principal divisão do Campeonato Brasileiro. Os três jogadores do ataque, por exemplo, foram para o Corinthians, bem como o lateral Admílson. Mesmo terminando ali, o Carrossel Caipira seguiu no imaginário do fã de futebol brasileiro nos anos 1990.

O time-base de 1992 e 1993 contava com Mauri; Polaco (Admílson), Ildo (Marcão) e Luís Carlos; Capone, Fernando (Luiz Simplício), Lélis (Sandro), Chiquinho e Válber; Leto e Rivaldo.

‘Ele nos conquistou com a simplicidade’

Último trabalho de Vadão foi com a Seleção Brasileira de futebol feminino (FIFA/Divulgação)

Vadão era descrito por todos como uma pessoa de grande coração. “Ele nos conquistou com a simplicidade, mostrando o que queria. Os jogadores entenderam a filosofia e se empenharam muito”, conta Ildo. “O Vadão dava chance para todos jogarem. Sempre tinha o grupo na mão, era de uma simplicidade muito grande”, detalha Mauri Lima.

Por onde passou, o técnico deixou sua marca. No Athletico-PR, ganhou a Seletiva da Libertadores de 1999. Em Campinas, seja no Guarani ou na Ponte Preta, teve grandes passagens, ganhando o apelido de Mister Dérbi por sua invencibilidade em clássicos. Revelou jovens por onde passou: no São Paulo, em 2001, lançou Kaká nos profissionais do clube, na conquista do Torneio Rio-São Paulo.

O desejo de Mauri Lima é um bom resumo da influência do técnico no cenário nacional: “O que a gente torce é para que surjam novos profissionais com o mesmo pensamento dele. Treinadores que tenham a mesma convicção para que construam ideias e mudem o jogo, como o que ele fez no Mogi Mirim”.

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Henrique Letti

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