CICLO VICIOSO

Por Caio Alves No Brasil, as categorias de base, sobretudo dos referenciais formadores, sempre foram endeusadas por seus materiais. Hoje, algumas equipes como Santos, São Paulo, Grêmio e Flamengo, revelando bons e promissores garotos, dão exemplos – positivos e negativos – dentro e fora de campo. Dentre tantos nomes e clubes, o São Paulo, talvez, […]

Por Caio Alves

No Brasil, as categorias de base, sobretudo dos referenciais formadores, sempre foram endeusadas por seus materiais. Hoje, algumas equipes como Santos, São Paulo, Grêmio e Flamengo, revelando bons e promissores garotos, dão exemplos – positivos e negativos – dentro e fora de campo.

Dentre tantos nomes e clubes, o São Paulo, talvez, seja o maior exemplo. Revelando jogadores como Casemiro, Lucas Moura, David Neres e Éder Militão durante a última década, o clube paulista, nesse aspecto, leciona e sai na frente em todos os quesitos que envolvem o futebol de base. Dispondo de um invejável centro de formação e treinamento, o São Paulo tem, em Cotia, um espaço único e exclusivo para suas futuras gerações.

Ainda em São Paulo, há um outro bom e referencial exemplo na área. Tendo revelado jogadores como Robinho, Danilo, Neymar Júnior, Paulo Henrique Ganso e Felipe Anderson, o Santos, no que se refere a futebol de base, segue um modelo parecido com o do São Paulo. Ainda que a fase atual não seja das mais positivas, o Peixe desfruta de promissoras gerações, além de profissionais do mais alto nível para o futebol brasileiro.

O mesmo pode-se dizer de Palmeiras – que, recentemente, revelou Gabriel Jesus, Vitão e Luan Cândido –, Vasco – com Paulinho e Lucas Santos – e Bahia, dos prósperos e recentes Anderson Talisca e Ramires. Todavia, exceto por minorias, todas essas equipes têm algo em comum: o mau investimento após as vendas. Em resumo, enquanto clubes europeus assumem o papel de vendedor e investem pesado em suas infraestruturas, os clubes brasileiros, mergulhados em dívidas com bancos, ex-jogadores e contratos estratosféricos, são obrigados a depositarem apenas migalhas em seu futuro.

Mateo Kovačić e Luka Modrić foram revelados pelo Dinamo Zagreb, da Croácia [Varzesh]
Mateo Kovačić e Luka Modrić foram revelados pelo Dinamo Zagreb, da Croácia [Varzesh]

Na Croácia, embora subvalorizado e com tímido sucesso em solo internacional, o Dinamo Zagreb é referência no que diz respeito ao assunto. Somando mais de 110 milhões de euros com transferências de garotos provenientes da base, o Zagreb investe pesado nesse cenário – muito por isso, é o maior campeão nacional, chegando a vencer 10 campeonatos consecutivos. Em meio a sua assumida ideologia, o clube croata oferece 6 campos de futebol, 9 olheiros espalhados pelo mundo, 21 treinadores, um claro modelo de jogo e referências táticas para a formação do jovem. Tudo isso para exclusivo uso da base. Além do retorno financeiro e hierarquia no território nacional, o Dinamo, tendo feito tudo isso, orgulha-se de ter revelado nomes como Luka Modrić, Mateo Kovačić, Mario Mandžukić, Dejan Lovren e Šime Vrsaljko.

Em Portugal, em meio a referências em um território extremamente capacitado e intelectualmente rico, o Benfica evolui e reúne êxitos através de suas raízes. Com a somatória de mais de 120 milhões de euros na última década, Seixal prova seu valor. Para se ter ideia, o Centro de Estágio e Formação do clube português proporciona departamentos administrativos e esportivos, um conjunto de edifícios, 6 campos de futebol e um estádio com capacidade para 27.270 pessoas. Mais além, o Benfica, apostando na tecnologia de primeira linha, desenvolve seus jogadores através de atividades em paredes com redes de LED. O fruto de tudo isso, além da hierarquia conquistada em Portugal, são suas respectivas vendas, como a de Jan Oblak para o Atlético de Madrid, Bernardo Silva para o Monaco, Renato Sanches para o Bayern München e Ederson ao Manchester City.

É humanamente impossível não conciliar Johan Cruyff ao Ajax [Getty Images]
É humanamente impossível não conciliar Johan Cruyff ao Ajax [Getty Images]

Ainda que os exemplos dados sejam frutíferos e inspiradores, nenhum se compara com o que vem da Holanda. É de grande e geral conhecimento os grandes e consideráveis jogadores formados e revelados pelo Ajax, haja vista a trajetória de nomes como Johan Cruyff, Frank de Boer, Dennis Bergkamp e Clarence Seedorf. Acontece que, além do imaginado centro de formação oferecido, o clube holandês não tem vergonha de assumir que revela jogadores para vende-los e dominar o território local. Recentemente, em entrevista ao El Pais, o ex-goleiro e agora diretor executivo Edwin van der Sar afirmou que, para manter os cofres em dia e administrar um competitivo elenco, o Ajax se vê obrigado em aceitar grandes propostas – como a do Barcelona por Frenkie de Jong ou qualquer outra que seja vantajosa aos olhos dos dirigentes. Ainda assim, o clube se planeja e possui clara consciência para investir, renovar e revelar ainda mais frutos. Hoje, os nomes da vez são Matthijs de Ligt, Donny van de Beek e Hakim Ziyech.

Por outro lado, enquanto os clubes mencionados e outros exemplos possuem claras ideias e convicções, o cenário no futebol brasileiro é quase que o oposto. Atualmente, Romildo Bolzan, presidente do Grêmio, equilibra os cofres do clube e, por consequência, oferece mais oportunidade de crescimento para o seu futebol de base. Assim como a equipe do Sul, o Flamengo, com positiva vida financeira, tem mais tranquilidade para revelar e dar minutos aos seus garotos, como no caso de Léo Duarte, Jean Lucas, Lucas Paquetá e Vinicius Junior.

Embora haja circunstâncias para que pensemos de maneira positiva e esperançosa, São Paulo e Palmeiras nos jogam um balde de água fria. Enquanto um forma excelentes jogadores e os vende para contratar atletas quase que em fim de carreira (a exemplo de Nene e Diego Souza), o Palmeiras, com Alexandre Mattos, diretor de futebol do clube, assume uma clara postura de vendedor. Não que seja um problema, desde que exista um maior investimento na base – cenário que não vem sendo observado.

Igor Gomes, Antony e Helinho são, hoje, as maiores promessas vindas de Cotia [Rubens Chiri]
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O futebol brasileiro é amador em sua essência. Com maior protagonismo de clubes-empresas, vide o Red Bull Brasil, e equilíbrio de caixa, como pôde-se notar nos clubes já mencionados, é tudo muito raso e insuficiente. Enquanto o país e seus dirigentes não valorizarem o material humano aqui formado da merecida maneira, o país seguirá sendo visto única e exclusivamente como o exportador que é.

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