GUIA DA CHAMPIONS: Bayern e Chelsea

No reencontro da decisão de 2011/12, Bayern e Chelsea vivem temporada de altos e baixos em suas Ligas

Reencontro. As memórias de Bayern e Chelsea quanto a decisão da Champions League 2011-2012 pende mais para o lado azul. A atuação de Didier Drogba em plena Allianz Arena foi a glória máxima do clube. Do outro lado a decepção da derrota em casa – apesar do título na temporada seguinte. Agora, as equipes se enfrentam com Lampard, que esteve em campo na final, como treinador dos blues, e o clube da baviera com diversos remanescentes. Promessa de um jogo com muitas emoções.

Para nos apresentar as armas de Chelsea e Bayern neste confronto, chamamos Michelle Silva, participante do God Save The Game, e Vinicius Dutra, colunista de futebol alemão da equipe.


Chelsea de Lampard: regressar para entender 

O desafio aceito por Frank Lampard após a saída de Maurizio Sarri para a Juventus incluía um Chelsea punido pelas próximas duas janelas de transferências sem contratar, o principal volante da equipe Kanté lesionado e a saída do grande craque do time Eden Hazard para o Real Madrid. Certamente não seria fácil e ele teve uma amostra disso logo na estreia como técnico na Premier League. O comandante viu sua equipe sofrer quatro gols, sem marcar nenhum em Old Trafford. Um ponto de partida ruim, mas realista para o ídolo como jogador buscar a evolução como técnico.

Hoje, enquanto convivem com as incertezas das lesões de Pulisic, Kanté, Odoi e Abraham, Lampard e Chelsea tem dois objetivos: seguir na zona de classificação para a próxima UCL na Premier League e manter a competitividade diante do Bayern que, apesar de velho conhecido, é favorito nestas oitavas de Champions. No próximo jogo, Lampard reencontra o clube que era seu adversário no melhor momento de sua carreira, a final de Champions de 2012 que consagrou o Chelsea campeão. São dois jogos pela frente. Dois jogos que podem permitir ao jovem técnico revisitar territórios já explorados por ele como jogador.

Um Chelsea confortável em trocar passes

Entender os comportamentos do Chelsea com a bola é perceber que Sarri deixou uma herança. É opinião de cada um avaliar se o período do italiano no clube foi positivo ou não, mas fato é que Lampard pôde usufruir das ideias já implementadas pelo seu antecessor. A principal delas é a mentalidade do time com a bola.

Nesta Premier League, o Chelsea é o terceiro em mais passes trocados (16.000), atrás de Liverpool e City. Trata-se de uma equipe confortável em ter a posse. Com Sarri, os passes eram curtos e a bola no chão. Com Frank, eles podem ser curtos ou longos e ligações diretas e cruzamentos são utilizados. Em comum há o entendimento de que a posse é o melhor jeito de chegar ao gol.

Ao contrário de Sarri, Lampard mostrou na pré-temporada que o seu time seria vertical sempre que possível, pulando alguns números de passes para chegar até o gol. Com passes em profundidade e ruptura e movimentos de infiltração dos atacantes e laterais, o Chelsea atual é mais direto que o da temporada passada.

Desde a saída de bola, a equipe já se posiciona visando abrir espaços para infiltrações na defesa adversária. Faz isso dando amplitude com os laterais Azpilicueta e Reece James, enquanto zagueiros Rudiger e Christensen se posicionam próximos às linhas laterais, tendo Jorginho posicionado a frente da defesa para organizar, de brilhante forma, a saída de bola. Contra adversários que pressionam alto é comum ver os zagueiros e o próprio camisa 5 optando por ligações diretas, com Lampard há mais liberdade para fazer isso.

Quem se aproveitou dessa liberdade para evoluir ainda mais e oferecer mais da sua “magia” ao jogo foi Jorginho. Optando por passes verticais com mais frequência, ele pula etapas da criação e coloca companheiros em ótimas condições de finalização. Assim como o camisa 5, Kovacic também progrediu. Mais livre para conduzir, driblar e romper linhas, o croata melhorou seus números e se apresenta como uma ótima opção na ausência do box-to-box incansável N’Golo Kanté.

O que fazem os atacantes do Chelsea?

Apesar do inverso também acontecer, Odoi e Willian buscam o jogo por dentro para a passagem dos laterais por fora. Com alta capacidade de armar o jogo, o brasileiro realiza movimentos inteligentes para receber em condições favoráveis e alia qualidade técnica à visão de jogo para acelerar na hora certa e cadenciar quando necessário, sendo assim uma peça-chave para as ações do time.

Em momento diferente do camisa 10, Odoi vêm se provando após se recuperar da lesão que o tirou da pré-temporada. Junto com Willian e Mount, mas com menos jogos, o jovem driblador tem 4 assistências nesta Premier League. Entre os principais pontos positivos de contar com Willian e Odoi no ataque está a versatilidade deles. Por atuarem nos dois lados de campo, são comuns as inversões de bola, trocas de lado durante o jogo e jogadas que começam em uma lateral e são concluídas na oposta.

Por fim, hora de falar de Mason Mount e Tammy Abraham. Último jogador de ataque no 4-2-3-1, Tammy é um centroavante participativo, de passadas largas e tabelinhas curtas, desmarques de qualidade e domínio com giro para finalização. Como 9 também desempenha o papel de atrair a marcação, abrindo espaço para as infiltrações dos companheiros, sendo Mount um dos que mais se beneficia disso, entrando na área para finalizar forte. Falando nele, posicionado atrás de Tammy, Mount ocupa a entrelinha adversária, equilibrando a equipe no campo de ataque, deixando colegas em condições de finalizar através de bons passes.

Com a bola, conforto; Sem ela, problema. 

Se com posse o Chelsea se mostra confortável, sem ela pode ser sinônimo de problema, principalmente no que se refere à proteção da entrada da área e as bolas paradas. Desde a pré-temporada, já estava muito claro o que o novo técnico buscava sem a posse: pressão alta intensa e numerosa para recuperar a bola ainda no campo de ataque. Porém, bem como essa ação traz muitas vantagens, se não for bem executada pode deixar a defesa exposta se adversários saem de zonas pressionadas. Observando isso foi possível perceber o primeiro problema defensivo do Chelsea de Lampard: a falta de compactação.

O time subia para pressionar espaçado, deixando expostos a defesa e os flancos. Logo os adversários souberam se aproveitar dessa fraqueza. Alguns jogos passaram a Lampard ajustou isso. Com a inversão de Azpilicueta para a lateral esquerda, dando lugar a Reece James na direita e as correções nas coberturas defensivas para evitar adversários em situação de 1×1, o ajuste mais necessário naquele momento estava feito. Além disso, com participação mais ativa de Jorginho defensivamente e o retorno de Kanté, a intermediária também se tornou mais protegida.

Após o alívio de ver as fragilidades iniciais minimizadas, Lampard se deparou com um problema o qual ainda não conseguiu corrigir: as falhas da defesa em bolas alçadas na área. A persistência do problema se dá, principalmente, pela forma como os defensores se comportam, monitorando a bola, sem tomar conhecimento das movimentações dos adversários, que chegam a área com liberdade, como nas imagens.

Enquanto defensores olham a bola, Richarlison avança para marcar na vitória do Everton por 3×1.

Assim a defesa segue como uma dor de cabeça persistente para Lampard. Não por acaso foi ali que ele fez mais alterações. Azpilicueta, Christensen, Zouma, Rudiger, Tomori. Todos já atuaram como zagueiros nesta temporada, formando trios ou duplas.

Ao analisar os 7 clean sheets da equipe na temporada, Tomori e Zouma aparecem como titulares na maioria deles, o inglês esteve em 6 e o francês em 4. Atuando como uma dupla, Tomori e Zouma tem 3 dos 7 clean sheets, sendo um deles na Champions, contra o Ajax. Enquanto Rudiger e Christensen aparecem em apenas 1, contra o Burnley. No último jogo, contra o Tottenham, Azpilicueta, Christensen e Rudiger formaram trio de zaga, mas Christensen e Rudiger são a dupla titular. Até mesmo Kepa, que também não vinha bem no gol, foi substituído recentemente, contra o Leicester, dando lugar a Caballero, o qual também não inspira confiança.

Por uma ótima gestão de grupo, Lampard muda com frequência, mas os ajustes comportamentais ainda estão pendentes. Em meio a isso, o Chelsea tem pela frente um Bayern que domina a arte de atrair e explorar lacunas deixadas por equipes que só olham a bola. Tais equipes tendem a ser presas fáceis de Müller, Gnabry, Lewandowski e cia.

Tammy Abraham x Jérôme Boateng: 

Se o Chelsea puder contar com Tammy Abraham para os confrontos contra o Bayern certamente será importante, principalmente no que se refere ao duelo do inglês contra Jérôme Boateng. Apesar dos poucos gols (2) nesta Champions, Abraham marcou 13 gols na Premier League, 8 deles deram ao time a liderança em jogos. Isso aliado a  dificuldade de Boateng em marcar jogadores móveis pode ser positivo para o Chelsea, principalmente considerando os giros para finalização que Tammy executa com frequência e habilidade. Além de Tammy quem também pode incomodar é Mason Mount, com condução veloz e finalização forte. Para se valer dessas vantagens, entretanto, é essencial que o time londrino aproveite as oportunidades que tiver.

Mecanismos do Bayern no ataque:

Enquanto o Chelsea ainda visa muito a bola na hora de defender, o Bayern sabe atrair olhares enquanto se movimenta a fim de aproveitar a desatenção dos adversários. Quem tem grande contribuição nesse sentido é um dos líderes de assistências da Bundesliga, Thomas Muller. Além disso, quem também pode se beneficiar da desatenção dos defensores dos Blues é Goretzka, pisando na área.


BAYERN E A FÓRMULA HEYNCKES

Em outubro de 2019, comentamos sobre como estava sendo o início do segundo ano de Niko Kovac no comando técnico do Bayern München. De lá para cá muita coisa mudou na equipe bávara, sendo a própria saída do treinador croata a principal delas. Isto ocorreu, entre tantos motivos, pelo desempenho pouco convincente e especialmente pelo mal relacionamento com figuras importantes dentro do elenco. No lugar de Kovac, o técnico Hans-Dieter Flick assumiu o Bayern para começar uma reação na atual temporada utilizando as bases táticas de um estilo conhecido dentro da história recente do clube: a maneira Jupp Heynckes de jogar. 

A “Fórmula Heynckes”, que consagrou o time de Munique na temporada 2012/13, é pautada pela intensidade nas duas fases do jogo, pressão alta sem a bola, verticalidade em fase ofensiva e constante jogo exterior em campo contrário para bombardear a área adversária com cruzamentos laterais. Foi a partir desses princípios que Hansi Flick acalmou o ambiente na Baviera. São 10 vitórias, um empate e apenas duas derrotas (a última em dezembro) desde a troca de comando na Allianz Arena. Como consequência, o Bayern já é o atual líder da Bundesliga com 49 pontos. 

Na Champions League, o time terminou a fase de grupos com 100% de aproveitamento (recorde para um clube alemão) e conta com o artilheiro da atual edição torneio, Robert Lewandowski (10 gols marcados). Entretanto, mais do que resultados, Flick conseguiu resgatar peças importantes dentro plantel. Thomas Müller, Benjamin Pavard, Leon Goretzka e Thiago Alcántara foram os maiores beneficiários com a chegada do novo treinador. 

Mas antes de prosseguir, cabe a reflexão: o Bayern consegue jogar de outra maneira? Pois tirando a passagem de Pep Guardiola (que realizou um trabalho de autor), os treinadores seguintes (Carlo Ancelotti e Niko Kovac) sempre fracassaram quando buscaram estabelecer algo diferente. O FCB, aparentemente, necessita desta louca, deste ritmo elevado, viver da essência Heynckes – tanto que o próprio treinador precisou voltar da aposentadoria após a demissão de Ancelotti.

David Alaba, a reconversão da temporada 

Com as lesões dos zagueiros titulares Niklas Süle e Lucas Hernández e também da primeira alternativa para posição (Javi Martínez), Dieter Flick ficou sem opções no setor e precisou improvisar David Alaba no centro da zaga. E a verdade é que essa se tornou a reconversão da temporada aqui. Alaba em pouco tempo virou uma referência atuando como zagueiro porque está gerando vantagens com a bola, bate linhas contrárias com passes verticais, conduz como poucos e coloca lateral e o extremo-esquerdo em situações favoráveis constantemente na zona de 3/4.

Defensivamente, o austríaco está somando muito, controlando a profundidade adversária com cortes/antecipações, se impondo pelo alto e realizando correções em campo aberto. O camisa 27 elevou o teto em iniciação de jogo de um Bayern que já conta com Joshua Kimmich e Thiago Alcántara (evoluiu muito nos últimos meses).

Alaba lidera o índice de passes progressivos nas cinco principais ligas da Europa.

Kimmich e Thiago, os diretores

Os já mencionados Kimmich e Thiago são outros pilares dentro da equipe dirigida por Hans-Dieter Flick. O comportamento em saída de bola, de maneira geral, passa pela aproximação/infiltração entre os zagueiros do primeiro, enquanto o segundo dinamiza por dentro; Thiago também escora levemente seu posicionamento pela esquerda para formar triângulos, juntar passes e inverter para o lado contrário buscando o lado débil da jogada.

Apesar de exercerem papéis parecidos, é necessário destacar que Kimmich é quem possui maior protagonismo e funciona como o grande diretor das possessões bávaras. Neste final de semana, contra o Paderborn, o camisa 32 atuou como zagueiro pela direita no inovador 3-4-2-1 e concentrou/organizou ações com bola a partir do seu setor. 

Dentro destes mecanismos, os dois laterais e extremos estão sendo os maiores favorecidos, já que a organização prévia visa justamente abastecer/colocar em vantagem quem atua pelos lados do campo, alimentando a tendência exterior da equipe. Tanto que é comum ver o Bayern atacando com dois jogadores em amplitude, com o lateral ou ponta do setor realizando ultrapassagens. 

Neste cenário, o jovem canadense Alphonso Davies é quem vem se destacando nos últimos meses. Ponta de origem, o adolescente de 19 anos também precisou ser improvisado na lateral-esquerda com o deslocamento de Alaba para o centro da defesa. E por mais que esteja acusando alguns problemas defensivos (ainda não castigados com gols na Bundesliga), Davies está se afirmando na posição por sua potência na hora de conduzir, acelerar e facilidade para ganhar a linha de fundo a partir de sua capacidade individual.

Precisa evoluir o acerto de seus cruzamentos – simplesmente solta a bola sem levantar a cabeça em vários momentos -, mas certamente ele ainda se trata de uma das grandes notícias da temporada no futebol alemão. 

A temporada de Robert Lewandowski

Talvez a maior herança da passagem de Niko Kovac tenha sido a liberdade de movimentos vista recentemente pelo atacante polonês Robert Lewandowski. Desde o ano passado, quando terminou com um alto número de assistências (10), o camisa 9 está cada vez mais relacionado com os apoios e aparições entre linhas. Seja para liberar espaços ou para realizar pivôs de qualidade, Lewa está realizando diversos toques de qualidade fora da área e serve como opção de passe nas costas dos adversários.

O mapa de calor do artilheiro Lewandowski (Arte/Sofascore)

Além disso, esses movimentos abrem espaços para jogadores que se projetam bem da segunda linha e especialistas atacando o espaço, como nos casos de Leon Goretzka, Thomas Müller e Serge Gnabry.

E por mais que esteja mais relacionado com o jogo em diversas faixas do gramado, Lewandowski segue letal dentro da grande área. Já são incríveis 25 gols em 23 jogos na atual Bundesliga. E como dito anteriormente, ele é o artilheiro da atual edição da Champions League com 10 anotações. Cada vez mais dominante, uma grande versão do avançado polonês é no que o Bayern se apoiará para tentar ir longe na competição europeia.

A maior fragilidade diante do Chelsea

O já previamente mencionado comportamento agressivo sem a bola do Bayern München apresenta alguns contras. Por se tratar de uma equipe que não abre mão da agressividade defensiva, e de que também utiliza os tiros de meta adversários para adiantar suas peças no gramado, o conjunto de Munique atua frequentemente com sua defesa sempre muito próxima ao círculo central. A questão é que seu meio-campo tem baixa capacidade para desarmar/interceptar bolas em situações de transição defensiva.

Por isso, está sendo comum ver o Bayern sofrer com ocasiões em que necessita de apenas um passe para colocar o companheiro em uma situação clara de gol. O lance da expulsão de Jérôme Boateng (que faz uma temporada bastante fraca) contra o Eintracht Frankfurt e o gol de Milot Rashica na Allianz Arena servem como verdadeiros exemplos de como se trata de um time que sofre para defender em campo aberto.

O gol de Rashica na Bundesliga (Vídeo/YouTube)

Até por conta desse posicionamento avançado, Manuel Neuer está sendo obrigado a sair constantemente da própria baliza para realizar cortes e intervenções (falhou no primeiro gol do Paderborn).  E este é um problema válido que demonstra a equipe comandada por Hans-Dieter Flick no cenário europeu. O conjunto precisará contar com o encaixe de sua pressão e da precisão em pós-perdas para não sofrer com contragolpes e jogadas rápidas contra o Chelsea, algo que poderia ser até pior caso os blues pudessem contar com as presenças de Christian Pulisic e Callum Hudson-Odoi.

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