O jogo de rua como ferramenta de desenvolvimento e essência do futebol brasileiro

Ao Footure, André Jardine, José Boto e PVC analisam a importância do jogo de rua para o esporte como um todo

O Brasil é responsável por fabricar jogadores em quantidade descomunal. Com milhares de jogadores espalhados pelo mundo, é praticamente impossível identificar um país que produza tantos atletas quantitativa e qualitativamente falando. Em São Paulo ou Roraima, do Rio Grande do Sul ao Maranhão, sempre haverá um garoto, sozinho ou acompanhado, de manhã ou pela noite, chutando uma bola. Em um país que oferece tanta diversidade, não poderia ser diferente.

O jogo de rua é o ponto de partida e a engrenagem do que se entende sobre futebol. Ainda que seja menos visto e praticado, a raiz se mostra presente com o surgimento de novas gerações. No lugar de novas quadras e projetos socioculturais, shoppings e prédios comerciais. As grandes cidades brasileiras, assim como ao redor de todo o mundo, se adaptaram ao novo século e tornam-se cada vez mais empresariais.

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De qualquer forma, no futebol praticado durante a infância, pouco ou nada mudou. Nas quadras de condomínios ou em ruas pelo Brasil afora, qualquer objeto que possa ser chutado é bem-vindo. Melhor ainda se ele for circular. Sem árbitros, cones, coletes ou qualquer tipo de símbolo que represente o dono do jogo, as crianças é quem são responsáveis pelas regras. As traves formadas por chinelos, as cobranças laterais inexistentes e o goleiro-linha exemplificam a anarquia aliada ao improviso. Sem esquecer, é claro, que toda e qualquer partida vale refrigerantes, por exemplo. Troféu algum se mostra mais importante e merecido.

Em live do Footure realizada no YouTube, o ex-jogador Alex falou sobre a importância da prática que serve como ferramenta de desenvolvimento: “Eu acho que nada substitui o jogo de rua. Porque o jogo de rua não tem regra. A partir do momento em que você vai para um lugar e o treinador impõe uma regra, dá um colete para cada um formar um time, já não é mais jogo de rua”, analisa.

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Conhecido como a pátria do futebol, o Brasil gera novos jogadores em grande periodicidade. Paulo Vinicius Coelho, jornalista do Grupo Globo, garante que o Brasil nunca foi o país do futebol assistido e dos estádios lotados, mas entende que somos “um país que, se você jogar uma bola na beira do Rio Amazonas, o cara sai jogando. Se você jogar numa favela em Belém, ele sai jogando. A nossa essência é o futebol jogado em qualquer tipo de terreno”.

Com a grande exportação de jogadores, o debate sobre a baixa qualidade do futebol praticado no país vem sendo cada vez mais abordado. Segundo PVC, na Europa, porém, os brasileiros são maioria: “O Brasil descobre jogadores numa quantidade estratosférica. Tanto que, no ano passado, nas oitavas de final, o país que mais teve jogadores escalados na Champions League foi o Brasil. Nesta edição, nas oitavas de final, o Brasil foi o segundo, com 30. Tem mais brasileiro do que espanhol, italiano, alemão, inglês. O que acontece é que o jogador não está aqui”.

É comum presenciar, entre comissão técnica e os observadores dos clubes, o foco que dão ao jogador oriundo da rua. Tudo isso porque, a partir dela, a malandragem é aprendida quase que genuína e instantaneamente. No momento em que crianças de diferentes idades atuam na mesma partida, o medo é esquecido e a personalidade é desenvolvida. O contato com a bola se torna contínuo e a capacidade de improviso se aflora.

Questionado sobre esses benefícios, José Boto, diretor do departamento de scouting do Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, é enfático: “O futebol de rua favorece porque te dá criatividade, te dá experimentação. Como não há cobrança do erro, o jogador não tem problema nenhum em errar, experimentar, tentar e voltar a tentar”.

Jogo de Rua Vinicius Jr
Da rua à Europa, Vinicius Júnior mostra-se como um dos brasileiros mais inventivos da nova geração (Foto: Getty Images)

Por mais que as brincadeiras de rua sejam facilmente ligadas ao futebol, elas servem para qualquer tipo de esporte. Quem assegura é André Jardine, treinador da Seleção Brasileira Sub-20: “A importância é muito grande para todo o esporte, não só para o futebol. Acredito que, quanto mais rica a infância, quanto mais na rua, maior o acervo motor que, se ela resolve ir para o esporte de alto rendimento, ela já chega dotada de muitos elementos físicos acima das crianças que não tiveram isso”.

Em tempos não tão distantes, a juventude pensava unicamente no asfalto. Hoje, a tecnologia é quem atrai os olhares mais curiosos e sedentos por entretenimento. Com celulares cada vez mais potentes e a realidade virtual batendo à porta, a disputa torna-se injusta. Para Boto, o problema é gravíssimo: “Se você prefere ficar em casa jogando PlayStation ou vendo os resumos dos jogos do que estar na rua jogando ou vendo um jogo inteiro, isso vai refletir naquilo que é o teu gosto pelo jogo”, interpreta. “As pessoas estão mais interessadas naquilo que é a parte acessória do jogo, as vidas dos futebolistas, quanto é que eles ganham, as roupas que eles usam, os carros que eles têm, do que propriamente em jogarem como eles.”

Com isso, os pais passam a buscar soluções. Tentando aliar a segurança ao tempo livre, as escolas de futebol surgem como o argumento mais favorável. Nela, além de, teoricamente, manter o garoto sob observação, o desenvolvimento prático tende a ser melhor e mais rápido, visto o acompanhamento dos professores.

José Boto, em contrapartida, não considera positivo: “É a minha opinião e que, também, é a opinião de muitos especialistas. O fato de tentar especializar as crianças desde muito cedo não é benéfico não só para o conhecimento deles como crianças e, especialmente, para o crescimento como jogadores. O fato de não lhes dar espaço e tempo, de estarem muito pendentes de adultos e treinadores, chegaram à conclusão de que não é benéfico para o crescimento da criança como jogador”.

Na visão de André Jardine, as escolas de futebol preenchem o tempo, mas não suprem a ausência do jogo de rua: “É uma desvantagem muito grande. A escolinha acaba nivelando, separando por idade, às vezes por aptidão. No futebol de rua, o quesito de a criança mais nova praticar com mais velho já dava uma maturidade maior, acelerava esse processo. Eu acredito que a escolinha não vai conseguir substituir, mas, pelo menos, atenua essa diminuição brusca da atividade de rua”.

Embora a cultura se sobressaia no Brasil, outros países aproveitaram o contexto para valorizar o jogo de rua e estudá-lo. Sob o comando de Gareth Southgate, a Inglaterra renovou seu projeto com jovens promissores. Trent Alexander-Arnold, do Liverpool, Phil Foden, do Manchester City, Jadon Sancho, do Borussia Dortmund, e Marcus Rashford, do Manchester United, originários de bairros industriais, são responsáveis por elevar o nível da seleção. Sem ir mais longe, Aaron Wan-Bissaka, do Manchester United, Declan Rice, do West Ham, e Tammy Abraham, do Chelsea, também ganham seus minutos.

Criado em Bondy, subúrbio parisiense, Mbappé se apresenta como protagonista do futebol francês (Foto: Getty Images)

O mesmo se passa na França. Na Copa do Mundo de 2018, realizada na Rússia, cujo torneio foi conquistado pelos europeus, 8 dos 23 convocados foram criados no subúrbio. Locais pobres e cercados de desigualdade, os banlieues, como são popularmente conhecidos, geram estigmas e pré-conceitos. De lá, no entanto, surgiram os campeões Alphonse Areola (Real Madrid), Presnel Kimpembé (Paris Saint-Germain), Benjamin Mendy (Manchester City), N’Golo Kanté (Chelsea), Blaise Matuidi (Juventus), Steven N’Zonzi (Rennes), Paul Pogba (Manchester United) e Kylian Mbappé (Paris Saint-Germain).

Para PVC, por sinal, a estrela francesa casa o jogo de rua com características próprias: “O Mbappé é potência e velocidade. O contraste é a característica do jogador. O Ronaldo é um jogador de rua, mas que tinha potência, força, velocidade. Tinha técnica, tinha o drible”. “Em teoria”, completa, “a rua vai te dar mais necessidade da habilidade, porque você não precisa driblar só o adversário, você precisa driblar o terreno.”

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Caio Alves

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