Mais uma noite de futebol

FC Porto e Sporting protagonizaram um encontro onde a diferença entre as duas equipas esteve sempre fora do campo. Os dez pontos de diferença na classificação condicionaram tanto uma, como outra equipa. Uma alusão do futebol enquanto algo que nos escapa ao controlo.

Talvez sejam as bancadas sem público, talvez a sensação de que as emoções se repetem, talvez a busca por uma novidade que acaba por não chegar, ou o futebol é mesmo só uma coisa onde o resultado é mais importante que tudo o resto. O encontro entre os dois primeiros classificados da Liga Portuguesa, FC Porto e Sporting, na noite do passado sábado, não nos devolveu todas as ambições que poderíamos ter para o mesmo, com os condicionalismos do início da partida a serem mais fortes do que aquilo que ambos os conjuntos puderam (ou quiseram) trazer para dentro de campo.

Sempre que um treinador diz que só a sua equipa quis ganhar tenho a sensação de que nos está a esconder alguma coisa. Como em tudo na vida, cada jogo tem um antes e um depois, não é um elemento separado dessa linha onde os eventos se empilham e desenvolvem de forma simultânea. À mesma hora do Porto – Sporting muitas outras coisas aconteceram e talvez até algumas delas possam ter contribuído para a forma como, agora, olhamos para esse encontro, mas os dez pontos de vantagem que os verde e brancos traziam na bagagem e a assunção desta partida como de “vida ou morte” para as aspirações dos portistas na Liga confundiram o que o jogo podia ser.

Não, não foi uma final, porque uma final só acontece quando ambas as equipas têm o mesmo a perder. A primeira parte foi uma demonstração clara de que não era disso que se tratava. O Sporting a esperar para ver, o FC Porto com algum receio de dar a mínima oportunidade para o rival crescer num erro seu. Rúben Amorim, de tanto falar na juventude da sua equipa, parece fazer um passo de mágica no nosso entendimento dos factos. Porque, em campo, para além de uma base de jogadores internacionais e muito experientes, conjuga um conjunto que sabe muito mais do que aquilo que anuncia. Porque, como ficou depois mostrado com a entrada de Francisco Conceição, a experiência nem sempre é a melhor resposta para um tabuleiro onde o talento tem uma palavra forte a dizer.

O FC Porto teve as melhores oportunidades, ao ponto de, costume estranho dos tempos que correm, Mehdi Taremi já ter pedido desculpa nas redes sociais por fazer o seu trabalho. Estava no lugar onde devia estar, com a intenção que devia ter, rematando à baliza um objeto redondo que não obedece a equações matemáticas. É o futebol, penso eu, mas onde eu vejo a beleza do imponderável muitos vêem uma responsabilidade contra toda a lógica. Ter as melhores oportunidades, no entanto, não chega. Ou não chegou nesta noite. Perante um Sporting que, olhando os dados Wyscout, só cinco vezes tocou a bola na área adversária e todas essas vezes por jogadores que começaram o jogo no banco. Uma ideia sobre a localização de mapas de tesouros.

O Sporting tem agora nove pontos de distância sobre o segundo classificado, que passou a ser o SC Braga, com o FC Porto a dez e o Benfica a entrar em campo mais logo. Faltam 13 jornadas e todos os seus rivais procuram ainda chegar à final da Taça de Portugal, enquanto ao Sporting só a Liga interessa mesmo. Rúben Amorim não assume favoritismos, mas certas situações são, de facto, mais fortes do que aquilo que as palavras possam indicar. Confundir os dicionários é um trabalho inglório, perante audiências tão grandes. O jogo não foi mesmo aquilo que se esperava, mas afinal é isso que é o futebol. Uma coisa que está sempre a acontecer para lá daquilo que entendemos como a nossa capacidade de controlar.

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Luís Cristovão

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