Entrevista com o Rodrigo Campos, o novo treinador do Minas Brasília

Quando pensamos em futebol brasileiro, a capital do país está longe de ser uma referência de grandes times na história do esporte, mas há quase uma década, o Minas Brasília vem construindo uma história de peso na capital federal

Um projeto social decorrente de uma frustração das irmãs Nayeri e Nayara Albuquerque — que devido a falta de investimento na modalidade, não conseguiram seguir carreira como jogadoras de futebol — e que hoje se materializa no único time do Distrito Federal na elite do futebol brasileiro (masculino e feminino).

O Minas Brasília estreou no campeonato nacional em 2018, quando venceu a Série A2 e revelou a craque Victória Albuquerque, que hoje defende o Corinthians e já soma algumas passagens pela Seleção Brasileira. Em 2019, conseguiu a manutenção na Série A1, e esse ano lutam pelo mesmo objetivo, mas em uma cenário bem mais competitivo a partir dos times de camisa que foram obrigados a ingressar na modalidade por exigência da CBF.

Minas Brasília comemorando o campeonato brasileiro séria A2 em 2018. Créditos: Cláudio Bispo/Minas Icesp-DF

Como começou a temporada de 2020 do Minas Brasília?

O Minas se mostrou um time super competitivo em termos de aplicação tática e concentração, além de argumentos individuais que desequilibravam o jogo a seu favor, mas sofreu bastante com o preparo físico para ter o controle do jogo durante os 90 minutos.

Contra a Ferroviária, sobrou concentração para negar espaços a atual campeã brasileira. Disposto em uma formatação bem defensiva a partir do 4-5-1, e contando com muita disposição das pontas para recomposição, o Minas vendeu caro a derrota por 2 a 1, que ainda contou com uma expulsão para dificultar a vida do time de Brasília.

Contra o frágil Vitória, o Minas teve controle total da partida com 67% de posse, sete chances de gol criadas, 27 finalizações, mas apenas oito na direção do gol, sendo que uma apenas entrou, o suficiente para a vitória no placar mínimo, mas chamou a atenção a falta de precisão para definir o jogo.

A partida que mais evidenciou uma queda de rendimento por desgaste físico fora contra o Flamengo Marinha, em casa. O Minas fez uma excelente partida e vencia por 2 a 0, controlava completamente a equipe carioca até perder a intensidade na marcação e começar a sofrer pressão, principalmente no jogo aéreo. Foi assim que nos minutos finais, o Flamengo Marinha virou o jogo e arrancou os 3 pontos das donas da casa.

Depois da derrota, o técnico Singo Santos e seu auxiliar Damião Santos deixaram o clube após 8 anos à frente da equipe, que anunciou Rodrigo Campos como interino para comandar um dos times mais carismáticos da Série A1. Já em sua estreia, o Minas Brasília tirou o fantasma da virada anterior e aproveitou as tantas fragilidades da Ponte Preta, goleando o adversário por 7 a 0.

A volta do Campeonato Brasileiro colocará o time de Rodrigo Campos frente àquele que tirou a invencibilidade histórica do Corinthians, o São Paulo, e o jogo contará com a transmissão da Band — será a primeira vez que o time brasiliense será televisionado nacionalmente. Para saber o que esperar desse confronto, do desempenho do Minas Brasília na temporada e quem é o novo treinador, o Footure entrevistou o Rodrigo Campos. Confira o bate-papo abaixo.

Qual a sua expectativa para esse grande jogo (contra o SP)? Já podemos esboçar a escalação e disposição tática do time? 

A expectativa é positiva, não somente para esse jogo, mas também para o decorrer da competição. Nós temos um grupo de atletas muito qualificado, o que possibilita que possamos ter variações na disposição tática da equipe e de que todas as atletas cheguem com condições de serem escaladas para essa partida.

É a sua primeira experiência frente a um time feminino, e logo no início do trabalho veio a pandemia, como foi conhecer melhor o time e as jogadoras em quarentena? Já foi possível observar alguma diferença importante para o masculino quanto a assimilação da ideia de jogo e condicionamento físico? 

Realizei apenas um jogo a frente da equipe e acorreu a suspensão da competição. Utilizamos esses meses para desenvolver vários aspectos, principalmente correlacionados a forma de jogar.

Existe a diferença biológica, que está atrelada aos aspectos físicos, mas que não interfere no trabalho. O papel do técnico é desenvolver estratégias efetivas de acordo com as características da equipe que está comandando, e é isso que tenho feito.

Você tem experiência trabalhando com categoria de base, e no feminino, a estrutura de desenvolvimento no Brasil ainda está longe da ideal. Como você acha que isso interfere no desempenho individual das atletas profissionais?

Os projetos de formação de atletas são fundamentais para que uma atleta chegue no futebol profissional melhor preparada. Considero que estamos vivendo atualmente o melhor cenário do futebol feminino até hoje, com ascensão da modalidade. O aumento dos patrocinadores, do público e de visibilidade na mídia irão potencializar o investimento dos clubes nos projetos a longo prazo. O Minas Brasília é referência nesse quesito, porque além de fomentar o futebol feminino, realiza um excelente trabalho nas categorias de base, formando atletas e contribuindo também na formação educacional delas.

Em sua primeira partida, o time se aproveitou bastante da fragilidade da Ponte Preta para construir um placar elástico, mas já vimos um pouco do time do Rodrigo? Quais são as principais semelhanças e diferenças da equipe do Singo Santos para a sua?

Entrei no clube após a quarta rodada do Campeonato Brasileiro e tivemos apenas dez treinamentos juntos antes da minha estréia. É totalmente diferente assumir uma equipe na pré-temporada e durante uma competição. Aproveitei muitos aspectos positivos do trabalho desenvolvido pelo professor Singo Santos. Obviamente cada treinador tem sua forma de pensar o jogo, e por isso desde o primeiro treinamento desenvolvi ideias que considerei serem importantes para a nossa equipe. As atletas entenderam, aceitaram e se portaram muito bem, e fizeram uma grande partida.

Quem são seus técnicos de referência tanto do futebol feminino como no masculino?

Existem muitos treinadores e treinadoras que são referenciais, e é até injusto da minha parte citar nomes. Muitos me inspiram e foram importantes na minha trajetória até aqui. Mas não posso deixar de falar sobre o meu mentor, professor Miluir Macedo, que como treinador teve trabalhos desenvolvidos no mundo inteiro. Sendo um dos formadores do jogador Luís Figo no Sporting de Portugal, um dos poucos técnicos brasileiros a disputar as Eliminatórias da Euro dirigindo a Seleção de Andorra, entre outros trabalhos. É a minha principal referência no futebol e uma das principais como ser humano. Merecidamente tenho que citá-lo e agradecer-lhe por todos os ensinamentos.

Um debate constante no futebol dá-se pela validade do futebol reativo – há quem chame de futebol “feio”, há quem chame de estratégia vencedora. Qual a sua visão sobre essa polêmica esportiva e como seria o time ideal na sua visão?

Existem exemplos vitoriosos de equipes reativas e de equipes com um jogo propositivo. Penso sempre em me adaptar ao grupo de atletas e desenvolver estratégias que potencializem a equipe. O time ideal será sempre o que vence e convence.

O Protocolo do Distrito Federal já permitiu a volta aos treinos, imagina-se que o longo contato com as jogadoras tenha facilitado o processo de aprendizado sobre as características de cada uma delas. A partir desse estudo e do que já aplicaram em treinamento, até que ponto já poderíamos adiantar sobre como a equipe pretende se organizar em fase ofensiva e defensiva?

Na fase defensiva pretendemos ter uma equipe agressiva, compacta, equilibrada e consistente. 

Na fase ofensiva pretendemos ter amplitude e profundidade a todo momento, ocupar bem os espaços, ter mais de um apoio a portadora da bola, mas não necessariamente jogar só com passes curtos. Se jogar longo for mais efetivo, faremos. Iremos nos adaptar aos jogos. Sempre com o objetivo de criar adversidades ao adversário.

Vimos o Minas Brasília sofrer fisicamente contra os principais times da competição, especialmente na derrota de virada para o Flamengo Marinha. A equipe carioca construiu o placar no final do jogo, quando as donas da casa perderam a intensidade. Como você enxerga esse parâmetro e quais as suas expectativas de evolução nesse sentido para as 16 rodadas que ainda faltam ser disputadas?

Quando cheguei ao clube encontrei atletas extremamente preparadas em todos os aspectos. A conquista ou o insucesso de uma equipe não deve ser baseado somente em aspectos físicos. Considero que existem muitos fatores que tornam uma equipe vencedora e é nisso que estamos focados, trabalhando diariamente para desenvolver conteúdos que nos tornem mais preparados para enfrentar os nossos desafios da temporada.

Fechando a entrevista, qual foi sua maior inspiração para se tornar treinador e qual o seu maior sonho dentro da modalidade do futebol feminino e também da sua carreira no geral?

A minha maior inspiração foi o amor que tenho pelo futebol. Estar na função de treinador, poder influenciar e colaborar diretamente aos atletas e no desenvolvimento do jogo também me enche os olhos. Estou muito feliz com o momento atual da minha carreira e aproveitando cada instante. É uma honra vivenciar um momento tão importante na história do Minas Brasília. Espero que conquistemos muitos títulos juntos.

Técnico Rodrigo Campos e as irmãs Nayeri e Nayara Albuquerque, presidentes do Minas Brasília. (Twitter Rodrigo Campos)

O Minas ocupa a 10º colocação do campeonato com seis pontos somados. Foram duas vitórias e três derrotas. O primeiro time na zona de rebaixamento é o Flamengo Marinha, que soma os mesmos seis pontos. Os demais que brigam para não cair ainda não pontuaram no campeonato. Apesar de um longo e difícil caminho pela frente, a equipe brasiliense possui argumentos para engatar a terceira temporada seguida na elite do futebol brasileiro.

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Giselle Andreolla

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