''MISTER, ONDE É QUE EU JOGO?''

Os relatos de António Duarte como treinador em Portugal

Quando cheguei aos sub-15 logo percebi que teríamos uma tarefa árdua pela frente. O escalão não ganhava um jogo há uma temporada e meia e tinha 4 pontos somados na totalidade desses jogos todos. O que encontrei foram jovens desacreditados do seu valor e potencial. Os que tinham chegado ao clube nesse ano também não transpiravam confiança. Era estranho, os rapazes tinham qualidade suficiente para fazer campanhas mais interessantes, mas há coisas que fogem do nosso domínio. Não ganhar jogos não é o problema quando sabes que aprendes e melhoras a partir disso, mas o clima daquele grupo não tinha perspetiva de crescimento.

(…) Hoje olho para trás e vejo que toda a caminhada mudou aqueles jovens. Tenho a certeza que estão e serão ainda melhores jogadores, mas sobretudo melhores Homens. Aquela ligação que criamos entre todos, próximos numa idade entre os 12 e os 15, permanecerá para a vida e quando tu vivencias isso percebes que, realmente, ninguém precisa dos objetos metálicos quando tens o brilho nos olhos, os sorrisos e as lágrimas de alegria deles. Quando eles te vêem na rua e fazem questão de atravessá-la para ir ter contigo. Quando te mandam uma mensagem na brincadeira ou a falar da falta que sentem dos nossos treinos.

Terminamos a temporada a meio da tabela com 26 pontos conquistados. Eu sei, isto é o menos importante no futebol de formação. Mas a verdade é que nunca devemos enganar os nossos jogadores e fazê-los acreditar no processo quando na prática acontece o contrário. A derrota dói. Dói muito mais neles. Mas há derrotas e derrotas. Já tenho saudades daqueles domingos. Dormir feliz quando via que as nossas derrotas traziam vitórias. Aqueles jogos que perdíamos no resultado por detalhes (pequenos ou grandes) devido à nossa inexperiência, mas que ganhávamos no processo. Aquela semana de treino a seguir ao jogo era a melhor de sempre. O próximo adversário pagava o preço. E se não pagasse… o seguinte pagaria o dobro.

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Nunca gostei da frase ‘’somos todos iguais’’. Somos todos iguais nos direitos e liberdade comum do ser humano (ou pelo menos devíamos ser), mas somos todos diferentes e merecemos um tratamento especial por isso. A igualdade de todos os meus atletas tinham mais a ver com as regras e horários, mas não na relação interpessoal e nem fazia questão que assim fosse. Até porque lidava com 25 personalidades e estranho seria se fossem todas iguais. Uns eram mais fechados, outros mais abertos, dependendo do contexto, dia da semana ou problemas que tivessem em casa ou na escola. Outros necessitavam de mais atenção em momento X por uma questão tática, outros no momento Y por uma questão psicológica, outros na situação Z porque estavam a regressar de lesão. Tive um jogador que esteve a semana inteira de cabisbaixo porque terminou com a namorada e isso alterou o seu rendimento, que podia ter sido maior, mas neste caso foi bem menor. Então, tinha de jogar com a inteligência emocional. Não é uma manipulação de sentimentos, porque não existe fingimento, mas é um moldar das minhas atitudes conforme as circunstâncias. Ter a mente clara e uma visão capaz de ver o horizonte para lhes dar a melhor palavra possível para seguirem em frente.

(…) A estrutura principal estava nos eixos. No setor de ataque, a falta de um 9 de área casou bem com o facto de termos extremos que preferem atacar o espaço vazio ao invés de correrem com bola. Estava criado o sub-conceito do falso 9. Quando digo falso 9, isto integra todos os jogadores em torno, não só o 9 que sai da zona central. O falso 9 só tem essa denominação porque além do 9 não estar lá, os extremos estão, no fundo, a representar o papel do mesmo. O nosso leque de opções dava-nos, pelo menos, 3 jogadores que sabiam recuar e receber em apoio e tinham qualidade no último passe. Para as alas tínhamos um biótipo de extremos que preferem correr sem bola. Confesso que foi esquisito porque cresci a ver o extremo português carregar jogos com bola. Assim de cabeça lembro-me de Luís Figo, Cristiano Ronaldo antes do Real Madrid, Ricardo Quaresma, Nani… e fico por aqui.

Tenho memória de quando jogava à bola em criança. Nos meus 6 anos eu queria estar lá na frente a marcar golos porque nessa idade nós vemos os melhores como aqueles que marcam mais. Com o passar dos anos fui recuando porque os que têm maior qualidade ténica têm tendência de vir pegar na bola cá atrás. Comigo não foi diferente. O jogo precisava de mim e eu precisava do jogo para mim. Tudo o que a equipa da minha sala fazia tinha de ter a minha direção, afinal eu tinha o título de melhor da turma e talvez melhor do ano. (…) E as dores de cabeça começaram quando tive um jogador desses. Há muito tempo que não trabalhava com um jogador assim. Daqueles que pegam na bola, driblam 5 ou 6 e ainda marcam ou dão assistência. Aquele que a equipa pode estar a sofrer taticamente e a serem massacrados pelo adversário, mas ele vai pegar na bola e mudar a história do jogo através de ações individuais. O jogador autossuficiente. Que tem um reportório de atributos técnicos que o fazem dar respostas independentemente do cenário em que se encontra.

No início optamos por colocá-lo como integrante do falso 9, mas notámos de imediato que passava muito longe do jogo e a fluidez na construção e criação de jogo que queríamos não era o ideal. Naturalmente os colegas procuravam encontrá-lo o mais rapidamente possível. Por vezes queríamos forçar o passe sem condições para tal e acabávamos por estragar lances. A ideia era que naquela função ele tivesse a maior liberdade possível para se movimentar, sair à procura do jogo, mas a comunicação com os colegas para as trocas não estava a funcionar. Não insistimos e após o 3º jogo baixamos o camisa 10 para o setor médio.

A rebeldia não tem só benefícios como é óbvio, também traz custos acrescidos noutras vertentes. Dentro do nosso 4x3x3/3x4x3 ele atuava como interior. Podia jogar ali tranquilamente, afinal as suas qualidades não se destacam só com bola, é um jogador de alta rotação, combativo e de grande reação à perda. Mas um dos problemas sem bola era a falta de entendimento sobre quando podia saltar à pressão e quando não podia. Ele queria sempre pressionar o portador da bola e isso criava problemas nas costas, pois nem sempre existiam condições de cobertura ou compensação posicional. Em fase ofensiva os problemas eram outros. Como ele tinha necessidade de estar sempre em contacto com a bola, não era de surpreender que ele quisesse assumir o peso em zonas recuadas como 1º homem ou 2º homem de meio-campo. A questão é que toda a sua natureza era agressiva, tudo o que ele fazia era na base da explosividade e isso era impensável para o tipo de meio-campista de gestão de jogo que pretendíamos. Sendo certo que só existe um ritmo de jogo, cada vez que ele pegava na bola era para conduzir, driblar e forçar o passe em profundidade criando cenários de jogo caóticos com várias perdas de posse. Ele tinha bastantes lacunas na interpretação do jogo. Em vários momentos podia conduzir mais, atrair o adversário e soltar, mas optava sempre por soltar demasiado cedo. Ou então, num momento de jogo em que o adversário estava em bloco baixo, ele continuava a querer procurar a profundidade onde não existia. Toda uma série de características de antítese.

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A Michelle já não podia aturar mais todas estas dúvidas que tinha em relação às funções e dinâmicas que ele influenciava na equipa – santa paciência que tem aquela alma. (…) Retirá-lo estava fora de questão. Mantê-lo dava-nos incompatibilidade de jogo. De fora é fácil pensarmos que daria para adaptá-lo e ensiná-lo aquilo que pretendíamos, mas não se molda um jogador num estalar de (vários) dedos. (…) Sempre tive para mim que no futebol de formação o importante é que os atletas cheguem ao escalão máximo o mais completo possíveis em termos técnico-táticos. Bielsa também defendia essa tese. E eu ouvia nas aulas, tanto no curso de treinadores como na faculdade, o modelo de jogo… o modelo de jogo. E eu desconfiava do modelo de jogo do jeito como eles descreviam. Transmitia-me a sensação de rigidez sem volta, de caminho único e correto, de adaptar os nossos atletas às nossas ideias acima de tudo e de um fim a atingir. E eu sinto que o modelo de jogo não tem meta, ele molda-se conforme o tempo (…) Nasci no seio da Periodização Tática, mas nunca me pareceu que todos os professores entendessem realmente o que ela significava. Pelo menos não na totalidade. Também não creio que seja algo que se aprenda e vomite, há que procurar mais por ela. Na verdade, se não a interiorizarmos estaremos longe de entender a sua complexidade. E ela vai crescendo, claro, porque tudo evolui mesmo que não-linearmente.

Certa vez o professor perguntou-nos se já tínhamos modelo de jogo. Se não tivéssemos era bom que começássemos a escrever pelo menos as características do nosso modelo de jogo porque seria importante estarmos preparados. E eu questionava-me: como é que eu vou descrever um modelo de jogo sem jogadores? Quer dizer, eu posso escrever uma receita sem nunca ter misturado os ingredientes e cozinhado antes? Eu imagino que se juntar «guacamole» com carne picada irei ter um sabor que me agrada, mas não poderei ter a certeza que é efetivamente saboroso se eu nunca tiver experimentado essa combinação antes. As ideias gerais na forma como cada treinador vê o futebol para mim funcionam como filosofia de jogo e não como modelo. O modelo para mim é a composição dos jogadores em funcionamento. É o impacto de cada indivíduo, as sinergias entre eles. E claro que só é possível construir um modelo de jogo com os jogadores. Sublinhar ‘’com os jogadores’’ porque esta situação que eu vivia era um sinal claro que tinha de ser sempre flexível. Não é que eu fosse mudar o ”jogar” da minha equipa na globalidade por causa de um jogador, mas eu tinha que alterar certas coisas para poder fazer a máquina funcionar.

Trent Alexander-Arnold concretiza “o sonho” ainda em idade adolescente.

(…) E assim foi, insistimos com ele no setor médio porque víamos maior potencial de sucesso ali. Ao longo dos meses fomos corrigindo os problemas técnicos individuais. Começamos por lhe dar noções dos indicadores de pressão: como e quando poderás saltar à pressão ou guardar posição? Depois vários cenários de treino onde ele fosse obrigado a decidir (conduzir ou passar?). Mas na sua essência nunca o conseguiríamos mudar, nem nunca fizemos questão de mudar a sua natureza. (…)

Para lhe provocar e ver realmente se havia chance de poder trabalhar nisso, houve um treino onde eu preparei 2 exercícios baseados em zonas confinadas. Ele parecia um animal feroz preso numa jaula a ser atiçado. Um deles era um quadrado no meio-campo onde ele (e os outros médios) só podiam sair caso a equipa conseguisse passar a bola a quem estava naquela zona. ‘’Isto está muito parado, Mister’’ – disse-me ele. O outro exercício era uma divisão do campo, onde os jogadores da esquerda não passavam para a direita e vice-versa. Às tantas ele fartou-se, pisou o lado contrário (uns 4/5 metros), recebeu a bola e voltou para o corredor esquerdo e deu seguimento à jogada. Não falei nada, nem nenhum jogador contestou. Creio que eles próprios sabiam que lhe era natural. Por mais que lhe orientássemos a não ir para a zona onde estava o colega – porque isso criaria uma sobreposição – passados 5 minutos ele estaria a fazer o mesmo. Toda a sua personalidade era dificílima de lidar, então contornamos a conjuntura e fizemos com que ele entendesse quando e como é que seria benéfico criar uma sobreposição (principalmente para atrair adversários). (…)

Leia mais: Como é ser treinador no Brasil?

Acabamos a temporada a jogar em algo parecido a um 4x2x3x1 – somente em fase ofensiva, na defensiva continuávamos em 4x3x3/4x1x4x1 -, mas eu não gosto de falar em números quando ataco. Isto porque os movimentos e contra-movimentos são tantos que se torna impossível de quantificar… Tínhamos os extremos a virem para dentro, o 9 continuava a procurar zonas recuadas juntamente com o camisa 10, os laterais subidos, etc, não vale a pena nos apegarmos a números se tudo isto se mistura (de forma pensada). Porém, esta foi a melhor solução que encontramos em termos de disposição tática, visto que assim ele estaria mais afastado da base da jogada, mas ao mesmo tempo não estaria longe do centro do jogo. Seria um intermediário. E claro, toda a sua evolução enquanto jogador permitiu que ele continuasse a marcar a diferença da forma que ele sabe, mas agora com melhores tomadas de decisão e interpretação do jogo. Ao passo que, os colegas em torno também foram instruídos com este cuidado – talvez não tanto porque cada um tem um impacto diferente no ‘’jogar’’. Por exemplo, eles já sabiam que quando o 10 recuava, o outro médio teria liberdade para subir, as trocas começaram a fluir e a ter um melhor entendimento no modelo de jogo criado por nós. (…)

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2 comentários

  1. Falaste muito bem quando disseste que o tratamento só deve ser igualitário em questões de horários, vestimentas, e coisas do tipo. Já o tratamento humano e futebolístico, deve ser ajustado à personalidade e demandas de cada um. Parabéns pelo texto.

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António Duarte

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