Não sei ou a vã glória do treinador

De uma frase de Fernando Santos para a situação dos treinadores na Liga Portuguesa onde, após a sétima jornada, Moreirense e Gil Vicente mudaram de técnico.

“A primeira parte, não sei”, disse Fernando Santos no final do jogo frente à França, depois de uns primeiros 45 minutos onde nada daquilo que o treinador parecia projetar para a partida aconteceu. Portugal tentou ir a jogo com a mesma ideia com que tinha travado os franceses no jogo da primeira volta da fase de grupos da Liga das Nações, mas o conjunto orientado por Didier Deschamps tinha outras ideias e impediu que os portugueses criassem perigo.

O ar desalentado de Fernando Santos ao dizer aquele “não sei” terá criado diferentes ondas de entendimento para quem o via. Por um lado parecia reforçar o que tinha acontecido no jogo, com os franceses a terem sempre o comando na mão, desfazendo com aparente facilidade as tentativas dos portugueses. Por outro lado era também uma confirmação de como a equipa de Portugal está demasiado entregue ao que os seus jogadores conseguem fazer em determinado momento, absorvendo as suas características sem uma identidade pensada, sem uma presença de treinador que ajude a modificar comportamentos perante dificuldades identificadas.

Frente à Croácia, o desalento transformou-se em exasperação, com o técnico português a distribuir culpas pelos jogadores não demonstrarem, em campo, o que Fernando Santos gostaria de ver. No entanto, aquele “não sei” do fim-de-semana passado tinha um poder bem maior. Porque parecia também descrever o que muitas vezes se torna vida do treinador, como se tem visto no caso da Liga Portuguesa, com a mudança de comando técnico de duas equipas no aproveitamento da paragem da competição para os jogos das seleções.

Moreira de Cónegos, a incógnita

Ricardo Soares pegou no comando do Moreirense com a temporada passada a decorrer e acabou com a equipa em oitavo lugar, uma excelente posição para um dos conjuntos que trabalha com orçamento reduzido. Na presente temporada, a equipa viu sair jogadores importantes como foram os casos de Fábio Abreu, que marcou 15 golos, bem como Bilel, João Aurélio, Nenê, Iago Santos e Luís Machado, todos entre os onze mais utilizados. Foi também, recentemente, afetada pelo Covid-19, o que lhe fez adiar o último encontro. Com 8 pontos somados, a equipa poder-se-ia ver, em caso de vitória frente ao Paços de Ferreira, no 5º lugar da tabela. Uma caminhada impressionante.

No entanto, Ricardo Soares foi afastado do comando da equipa, por decisão da direção do clube. No campo desportivo, não existem grandes razões para que esta saída se desse. O técnico tem levado a equipa a um nível competitivo elevado e, mesmo esperando melhores reforços para esta temporada, continuava a render. Para o seu lugar o Moreirense volta a fazer uma aposta de risco, como lhe tem sido habitual, com a estreia de César Peixoto na principal divisão do futebol português. O ex-jogador teve passagens discretas por Académica e Desportivo de Chaves, na 2ª Liga, tendo agora um desafio exigente, repetir aquilo que Ricardo Soares vinha conseguindo no clube. Miguel Leal, Pepa, Sérgio Vieira, Vítor Campelos foram treinadores que tiveram em Moreira de Cónegos a sua porta de entrada na Liga portuguesa. Pela média dos sucessos obtidos, talvez o “não sei” seja uma boa resposta para aquilo que os adeptos do Moreirense podem esperar.

Barcelos em mudança

Na época passada, o Gil Vicente teve o teste mais duro da sua existência, regressando à Primeira Liga para cumprir a reversão de uma decisão da justiça desportiva. Com uma passagem pelo terceiro nível do futebol português, chamou Vítor Oliveira, fez um plantel do zero e foi uma das sensações da temporada, acabando em 10º lugar. Isso não foi suficiente para manter o técnico no clube, com a vontade de mudar a forma de jogar e de abordar a nova temporada. Rui Almeida foi o nome escolhido, permitindo a sua estreia na competição. O trabalho realizado nas divisões secundárias francesas dava excelente nota daquilo que se poderia esperar, como tínhamos antevisto aqui mesmo no Footure. E as primeiras jornadas mostraram isso mesmo, apesar de também a sua equipa ter sido fortemente atingida pelo Covid-19, impedida de treinar e com um jogo adiado no início da temporada.

Depois de não perder nos primeiros três jogos disputados, com vitória frente ao Portimonense e empates com Santa Clara e Tondela, o Gil Vicente somou quatro derrotas consecutivas. No entanto, olhemos para os resultados, a equipa perde por apenas 0-1 frente ao FC Porto, viu o Sporting dar a volta ao resultado nos derradeiros minutos para terminar 1-3, voltando a perder por margem mínima com Vitória de Guimarães e Nacional (num jogo em que a sua equipa falhou dois penáltis). O Gil Vicente voltou a ter um plantel reformulado, apresentava um futebol estruturado e prometia cumprir com o objetivo da manutenção. Mas, no entanto, quem decide acaba por entender que as mudanças preconizadas no final da época passada de nada valem perante a possibilidade de voltar a trocar de treinador. Porquê? “Não sei”.

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Luís Cristovão

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