O êxodo sul-americano para a MLS

As saídas de jogadores formados na América do Sul para os Estados Unidos ficam mais constantes a cada janela de transferências, em um duelo de perdas, ganhos e ciclos de renovação que só cresce

Não há como negar que a Major League Soccer vem crescendo e se tornando uma liga de atratividade pelos mais diversos fatores – para audiência e atletas. Novas franquias surgem temporada após temporada, o investimento cresce cada vez mais e o trabalho é constante para aprimorar os jogadores formados dentro do país e, por consequência, elevar o nível técnico do campeonato e da própria Seleção Norte-Americana. Estender este assunto aqui é inútil, afinal, o Caio Nascimento aprofundou bem mais a pauta em sua coluna na última sexta-feira.

Entretanto, há outro ponto que vem chamando a atenção na MLS e que possui reflexos diretos no futebol da América do Sul. A cada janela de transferências que passa, a ida de jovens talentos que surgem em terras meridionais é mais frequente. Brasil, Argentina, Colômbia, Uruguai, Chile. Não importa a nacionalidade. Os times dos Estados Unidos estão com o olhar atento nas oportunidades que surgem.

Apenas nesta última semana, duas transferências de jogadores de bom desempenho e projeção foram definidas. Primeiro, o Austin FC – equipe criada há pouco mais de dois anos e que jogará sua primeira temporada em 2021 – confirmou a aquisição do meia Tomás Pochettino, um dos melhores jogadores do futebol argentino em 2020 com a camisa do Talleres. Um negócio surpreendente de certa forma, visto que o River Plate o observava e até mesmo alguns clubes europeus seguiam seus passos. Pochettino, aliás, é só mais um dos vários jogadores sul-americanos que o time captou para construir seu elenco.

Anteriormente, os texanos já tinham ido ao Paraguai para buscar dois jogadores do Guaraní. O primeiro a subir o mapa-múndi foi o garoto Rodney Redes (20). O veloz e habilidoso ponta criado na base aborígen foi negociado em meados de 2020, mas foi cedido ao próprio clube que o revelou para seguir com tempo de jogo enquanto o Austin FC não entra em campo. Logo depois, na virada de 2020 para 2021, o defensor Jhojan Romaña (22) seguiu os passos de Redes para assinar com os debutantes da temporada. Além deles, outro jogador sul-americano que partiu para a capital do Texas foi o ponta Cecílio Domínguez (26), cedido pelo Independiente também no ano passado e emprestado na sequência para o Guaraní.

As perdas não se resumem apenas a equipes coadjuvantes. As grandes potências do futebol sul-americano também veem seus pupilos comprando passagens para a América do Norte. Também nos últimos dias, o meia Santiago Sosa (21) trocou o vermelho e branco do River Plate pelo vermelho e preto do Atlanta United. Com as movimentações recentes no elenco millonario, havia a expectativa de que Sosa pudesse receber oportunidades mais constantes pelas mãos de Marcelo Gallardo. Porém, agora irá para o comando de seu compatriota Gabriel Heinze. E pescar jogadores abaixo dos 23 anos na América do Sul, inclusive, não é nenhuma novidade para os campeões nacionais de 2018.

Em temporadas anteriores, o Atlanta levou nomes como a joia do Independiente campeão da Sul-Americana, Ezequiel Barco e o meia Eric Remedi, ex-Banfield. Do ano passado para cá, outros três nomes tomaram o caminho do estado da Geórgia: os meias Marcelino Moreno (25), do Lanús, e Franco Ibarra (20), do Argentinos Juniors, além do atacante paraguaio Erik López (19), do Olimpia. Fora os garotos, atletas experientes como o atacante Lisandro López também encontraram espaço no clube, partindo para talvez o seu desafio derradeiro da carreira em solo norte-americano.

Os movimentos de Pochettino e Sosa são apenas os exemplos mais próximos desta partida em massa de jovens atletas da América do Sul para o Norte. Nos últimos três meses, a lista vai ainda mais longe: Jhon Espinoza (Aucas para Chicago Fire), Claudio Bravo (Banfield para Portland Timbers), Jhon Jáder Durán (Envigado para Chicago Fire), Freddy Vargas (Deportivo Lara para FC Dallas), Andrés Reyes (Atlético Nacional para NY Red Bulls), Déiber Caicedo (Deportivo Cali para Vancouver Whitecaps), Joaquín Torres (Newell’s Old Boys para CF Montréal) e Rodrigo Piñero (Danúbio para Nashville SC). O Brasil não passou batido nesta leva, com Brenner saindo do São Paulo para o FC Cincinnati e Fábio deixando o Oeste para ir ao NY Red Bulls.

Se por um lado o processo de formação e venda ajuda a manter a roda da revelação de novos jogadores girando aqui no continente, por outro lado, isso escancara a dificuldade de reter o talento gerado, sobretudo por conta de fatores econômicos. Com países em crise, economia enfraquecida e, como consequência, clubes com dificuldades de investimento, a saída encontrada acaba sendo negociar atletas com idade cada vez mais baixa devido à urgência por rechear o caixa, mesmo que isso signifique, em certo ponto, abrir mão da qualidade técnica. E se antes era apenas a Europa que atuava desta maneira no mercado, a concorrência aumentou.

O que acaba sendo perda para uns, é ganho para outros. A MLS, por sua vez, vai se consolidando como uma liga de potência ao menos em organização e poder financeiro, já que ainda há caminho a ser percorrido para se atingir excelência técnica comparável com os grandes campeonatos do mundo.

Vista neste momento como uma ponte para o futebol do velho continente, a Major League Soccer se esforça para mudar esta realidade justamente com essa busca incessante por recursos na América do Sul. Contratar, desenvolver e tentar manter os atletas por lá neste curto prazo significará uma vitória enorme para a liga. Em contrapartida, resta aos clubes sul-americanos buscar uma maneira de evitar perder seus talentos tão cedo. É um “duelo” que ainda dará muito assunto em um futuro próximo.

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Dimitri Barcellos

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