Os mistérios e as joias do Leste Europeu

Nesta semana, Caio Nascimento escreve sobre promessas que surgem fora das cinco grandes Ligas... um pouco mais longe: quem são as joias do Leste Europeu?

O Leste Europeu, especialmente para os amantes do futebol, é uma questão que incita o imaginário. Desde os tempos em que a União Soviética comandava tudo, passando pela independência de vários países nos anos 90, que posteriormente viraram potências. É muito comum você encontrar na internet páginas versando sobre “como seria a União Soviética com os jogadores de hoje” ou “como seria a seleção da Tchecoslováquia hoje” e, uma das mais clássicas, “como seria a seleção da Iugoslávia hoje”.

Apesar do clichê, são exercícios legais de se fazer e que ressalta a importância do futebol na sociedade oriental da Europa.

Com mais de 20 países, o Leste Europeu no futebol é essencialmente lembrado por 11 confederações que já conquistaram títulos no passado ou, como é o objetivo desta coluna, revelam muitos jogadores de qualidade. Incluindo a Turquia, que conta com a única cidade transcontinental do mundo (Istambul) – e por influências culturais -, sempre são lembrados Romênia, Croácia, Rússia, Sérvia, Ucrânia, Polônia, Chéquia (ex-República Tcheca), Eslováquia, Eslovênia e Hungria.

De 2015 pra cá, Romênia, Sérvia, Ucrânia, Turquia, Chéquia e Hungria representaram o Leste Europeu de maneira digna em competições de base. Ucrânia e Sérvia foram campeãs do mundo na categoria Sub-20 em 2019 e 2015, respectivamente. Aliás, essa geração gloriosa da Ucrânia é a mesma que pegou o quarto lugar na Eurocopa Sub-19, em 2018, após liderar um grupo que tinha França, Inglaterra e Turquia. Recentemente, a Romênia ficou com o terceiro lugar na Euro Sub-21, quando terminou em primeiro num grupo com França, Inglaterra e Croácia. A Turquia foi quarta colocada na Euro Sub-17, em 2017, e terceira colocada no Torneio de Toulon de 2018.

Falando em Toulon, a Chéquia é figurinha carimbada nessa competição, tendo ficado em quarto lugar em 2016 e 2017, além do terceiro lugar na Euro Sub-19 em 2017. A Hungria, que já foi uma potência nos tempos de Puskas, busca renovar sua seleção ao fazer campanhas dignas na Euro Sub-17, onde ficou com o sexto lugar em 2017 e o quinto em 2019. Os Magiares se classificaram para o Mundial Sub-17, aqui no Brasil, no ano passado.

Colocando as campanhas de lado, o lado oriental da Europa é uma verdadeira barganha para clubes grandes do cenário do Velho Continente. Croácia e Polônia revelam com certa facilidade nomes de peso para o futebol. A Rússia, que envelheceu muito sua seleção nos últimos anos, teve um boom interessante causado pela Copa do Mundo em seu país.

Quem são as joias do Leste Europeu?

Quem puxa a fila das melhores e mais seguras apostas no futebol europeu é a Croácia. A atual vice-campeã mundial, mesmo com desempenho fraco na última Euro Sub-21, apresenta nomes do calibre de Domagoj Bradaric, meia canhoto de 20 anos do Lille; Nikola Vlasic, meia de 22 anos do CSKA Moscou; e Josip Brekalo, extremo ambidestro de 21 anos do Wolfsburg. Além desses nomes, há também a iminência da geração de ouro do Dinamo Zagreb, que conta com nomes como Josko Gvardiol, zagueiro de 18 anos; Antonio Marin, extrema de 19 anos; Tomislav Krizmanic, meia de 18 anos; Lovro Majer, meia de 21 anos; Nikola Moro, meia de 22 anos; e Leon Sipos, centroavante de 20 anos.

Com exceção de Majer e Moro, todos esses meninos citados participaram da campanha do Dinamo Zagreb, que até a paralisação da Youth League devido ao coronavírus, que chegaram as quartas de final.

Brekalo é apontado como o mais talentoso dentre os jovens convocados para a seleção principal da Croácia. Foto: HNS

Apesar da enorme qualidade croata, a Ucrânia aparece como principal candidata a destronar a base rival no Leste Europeu. Como dito antes, os ucranianos conquistaram o Mundial Sub-20 com bastante notoriedade e, como consequência, apresentaram ao planeta alguns jogadores de grande potencial, como o diabólico Georgi Tsitaishvili, extrema de 19 anos do Dinamo Kiev, que já é comparado com certo camisa 10 do Barcelona. Além dele, a Ucrânia dispõe de Andriy Lunin, goleiro de 21 anos emprestado pelo Real Madrid ao Real Oviedo; Dennys Popov, zagueiro de 21 anos do Dinamo Kiev; Serhiy Buletsa, meia de 21 anos emprestado pelo Dinamo Kiev ao Dnipro 1; Vladyslav Supriaha, extrema de 20 anos também emprestado ao Dnipro 1 pelo Dinamo; e Danylo Sikan, centroavante de 19 anos do Shakhtar Donetsk.

Vocês perceberam que tal qual como o Dinamo Zagreb na Croácia, o Dinamo Kiev é a principal fonte da Ucrânia? Pois bem, ainda tem mais dois: o lateral esquerdo Vitaliy Mykolenko de 20 anos e o canhotinho enjoado Viktor Tsygankov de 22 anos.

Rápido, técnico e domínio perfeito de bola. O nome é difícil de pronunciar, mas Tsitaishvili promete, e muito. Foto: Getty Images

A Romênia, que uma vez encantou o mundo com Gheorghe Hagi, aposta literalmente na linhagem real para salvar o futebol nacional. O filho da lenda, Ianis Hagi, 20 anos, está desenvolvendo seu futebol sob os cuidados de Steven Gerrard no Rangers (emprestado pelo Genk).  O jovem Hagi liderou a Romênia com muita categoria na campanha que culminou com o terceiro lugar na Euro Sub-21 em 2019. O Vittorul Constanta, do Gheorghe, ajudou a revelar Dragos Nedelcu, Florin Coman, ambos hoje no Steaua, e Tudor Baluta, hoje no Brighton. Ionut Nedelcearu, zagueiro de 23 anos do UFA, e Dennis Man, extremo de 21 anos do Steaua, são outros nomes de potencial na terra do Drácula.

Tal pai tal filho? Parece que sempre vai ter um Hagi para salvar a Romênia. Foto: PA

Outrora dona da região, a Rússia tende a ter problemas para rejuvenescer sua seleção. É notória a predileção por jogadores experientes no selecionado nacional. Além disso, como as equipes russas possuem poder aquisitivo avantajado em relação às outras equipes do Leste Europeu, essas agremiações muitas vezes optam por adquirir jogadores famosos do que dar chances aos mais novos.

O CSKA Moscou, hoje, é a equipe com média de idade mais baixa dentre os grandes. As principais promessas russas são da equipe moscovita: Fedor Chalov, centroavante de 21 anos, e Ilzat Akhmetov, meio-campista também de 21 anos. Ambos geralmente abocanham uma titularidade na seleção. Ivan Oblyakov, outro meio-campista de 21 anos do CSKA, é outro atleta russo que deve ganhar notoriedade em breve. Vadim Karpov, 17 anos, também do CSKA, é costumeiramente comparado a Matthijs De Ligt, hoje na Juventus, pelo estilo de jogo e pela titularidade com tão pouca idade.

Ainda em Moscou, mas pelas cores do Lokomotiv, você encontra Stanislav Magkeev, volante de 20 anos, e Timur Suleymanov, atacante de 20, que chamaram a atenção na Youth League do ano passado.

Posicionamento e chute de primeira. Fedor Chalov é letal dentro da pequena área. Foto: Twitter da UCL.

A Sérvia, que fora campeã mundial Sub-20 a cinco anos, hoje passa por uma entressafra que tem Luka Jovic, do Real Madrid, como principal nome. No entanto, mesmo com resultados em competições europeias abaixo do esperado, a Sérvia tem bons nomes no mercado. O mais bem avaliado no momento é Strahinja Pavlovic, que pertence ao Mônaco, mas que ainda veste as cores do Partizan, onde é zagueiro titular absoluto com só 18 anos de idade. Também no Partizan e também com o sobrenome Pavlovic, tem o meia-ofensivo de 18 anos chamado Lazar (não, eles não são irmãos).

No entanto, falando em amor fraternal, o Manchester City tem à seu dispor os irmãos e meio-campistas Ilic, Ivan e Luka, que estão emprestados ao NAC Breda, da Holanda. Quem acompanha o futebol italiano já deve ter ouvido falar de Dusan Vlahovic, um centroavante grandalhão de 20 anos, que é constantemente comparado a Aleksandr Mitrovic. O Estrela Vermelha, líder do campeonato sérvio, tem Veljko Nikolic, armador de 20 anos, comandando as ações deixadas por Marko Marin, além de Andrija Radulovic, craque da equipe na Youth League, onde também tem a função de armador.

Parece um armário, mas esse é o mais novo hype da Sérvia. Forte, gigante e mentalmente inteligente, Pavlovic já é jogador do Mônaco. Foto: Starsport.

Para os antigos integrantes da Tchecoslováquia, a situação não está tão fácil. Existem apenas dois nomes, de fato, que hoje entregam algo e é pela Chéquia: Alex Král, volante de 21 anos do Spartak Moscou, e Michal Sadílek, lateral e extrema esquerda do PSV.

A Eslovênia possui um trio interessante de atletas de 18 anos para ficar de olho: Omar Kocar, volante e peça importante do Dinamo Zagreb na Youth League; Nik Prelec, centroavante de imposição física da Sampdoria; e Renato Simic, extrema direita da Fiorentina.

Falando em trios, a Hungria, tem à disposição três jogadores de boa qualidade técnica e que podem ser os pilares da nova geração: Dominik Szoboszlai, 19 anos, meio-campista responsável pela armação da seleção principal e também do Red Bull Salzburg; Mihály Kata, 17 anos, segundo volante e meia-central do MTK, que chamou muito a atenção apesar da fraca campanha da Hungria no Mundial Sub-17 no Brasil; e András Nemeth, 17 anos, centroavante que pertence ao Genk, responsável pelos gols salvadores na Euro Sub-17, em 2019, e de boa atuação no Mundial Sub-17.

Já a Bulgária tem um nome bastante interessante para ficar de olho. Trata-se do zagueiro e volante Valentin Antov, 19 anos, e titular do CSKA Sofia desde os 17. Ele já defende a seleção principal, sendo muitas vezes titular.

Bom o suficiente, maduro o suficiente. Szoboszlai é o maestro da nova geração húngara, que já desperta interesse em gigantes europeus. Foto: MTI.

O futebol polonês sofreu muito com as nacionalizações. Por vezes perdendo jogadores para a Alemanha, atualmente o país consegue manter uma geração de atletas promissores em sua esquadra. Em termos técnicos, Mateusz Bogusz, 18 anos, do Leeds é o jogador mais promissor da nova geração. Meio-campista de bom passe e visão de jogo. Marcel Zylla, 18 anos, meia e extremo direito do Bayern de Munique, é forte fisicamente e de boa técnica. No entanto, o mais famoso e com regularidade em nível mais elevado é o goleiro Radoslaw Majecki, do Legia Varsóvia. Ele ficou entre os três melhores goleiros do Mundial Sub-20 de 2019, além de já ter feito mais de 100 partidas como titular da baliza da equipe mais popular da Polônia.

Novo Szczęsny? Majecki é um verdadeiro prodígio e não deve ficar por muito mais tempo no Legia. Foto: Gazeta.

Por último, a Turquia. Como explicado anteriormente, questões culturais geralmente apontam esse país transcontinental para o Leste Europeu, sobretudo em competições de base. O cenário do futebol turco é bastante curioso. As principais promessas do país não atuam no futebol local, saindo cada vez mais cedo e com os clubes investindo muito mais em jogadores rodados. Soa familiar? Pois é. O principal nome da geração é o atacante Ahmed Kutucu, 20 anos, do Schalke. Tecnicamente não é o melhor, porém, é o jogador ofensivo com mais tempo de jogo numa liga que exige mais do que a dos concorrentes.

Os defensores Merih Demiral (Juventus) e Ozan Kabak (Schalke), 21 e 19 anos respectivamente, se complementam. Um é mais forte e o outro é mais técnico. Cengiz Under, 22 anos, da Roma é rápido e habilidoso, mas deixa a desejar nas tomadas de decisão. Dentre os que atuam na Turquia, o goleiro Ugurcan Çakir, 23 anos, do Trabzonspor, é o que mais tem panca para crescer no cenário mundial.

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