Os novos passos do Montevideo City Torque (e do City Group) na América do Sul

O braço uruguaio da grande companhia esportiva cresce no cenário doméstico e mira um horizonte ambicioso em seu projeto para ganhar protagonismo

Caçula e “disruptivo”, o Montevideo City Torque começa a estabelecer suas bases de maneira sólida no futebol do Uruguai. Desde suas origens, em 2007, já indicava que seria um clube bem diferente do comum. Foi fundado por um grupo de empresários uruguaios, pretendia colocar em prática um modelo de gestão que fugisse do usual para os padrões do país. De lá para cá, subiu das divisões amadoras, passou pelo segundo escalão e, atualmente, vem amadurecendo na elite.

O ioiô vivido entre 2017 e 2019, com promoção, queda e nova subida para a primeira divisão, tem tudo para cessar nesta temporada. A campanha no Apertura foi, de certa forma, surpreendente diante dos prognósticos antes do começo do campeonato. A 3ª colocação, apenas três pontos atrás de Nacional e do campeão Rentistas – outro clube recém-promovido –, foi o reflexo inicial de um trabalho que busca mudar a realidade do Torque há três anos.

Em abril de 2017, a equipe foi adquirida pelo badalado City Football Group, o mesmo conglomerado que detém as operações de outros times mundo a fora como o New York City FC (EUA), Melbourne City (Austrália), Yokohama F. Marinos (Japão), Girona (Espanha) e, claro, o poderoso Manchester City. E, com isso, novos projetos dentro e fora de campo tomam forma para tentar fazer o Torque uma nova potência no Uruguai.

Falando das quatro linhas, é notória a diretriz de tentar reproduzir um jogo ofensivo e de construção, assim como é visto na nave-mãe inglesa. Os comandados de Pablo Marini costumam exibir um futebol de protagonismo com a bola no pé, com uma saída bastante organizada desde o campo defensivo, um meio-campo dinâmico para gerar linhas de passe, triangulações rápidas pelos lados explorando a subida dos laterais e bom volume nas proximidades da área adversária para a finalização. A busca por replicar tal modelo e ir o aprimorando no cenário sul-americano não é acaso, afinal, o Torque pinta como mais um braço do City Group para prospectar, produzir e absorver novos talentos.

O primeiro grande exemplo de jogador revelado pelo Torque e levado a outra “filial” é Valentín Castellanos. O atacante de 22 anos surgiu para o futebol profissional no clube uruguaio, e, no começo de 2019, foi negociado em definitivo com o New York City FC. Esta estada no mercado sul-americano, vale ressaltar, não significa apenas lidar com atletas para o próprio Torque. A proximidade com Brasil e Argentina permite ao City Group ter um olhar mais preciso e amplo para buscar nomes visando o futebol europeu.

Recentemente, o Manchester City pescou Nahuel Bustos no Talleres, um dos atacantes de maior projeção do continente nos últimos anos. Para ajudar na sua adaptação, o repassou por empréstimo ao Girona, lhe dando a possibilidade de se habituar em um ambiente de menor pressão, menor exigência e onde conseguirá acumular melhores minutos em campo pela menor concorrência por posição. Outro jogador contratado pelos citizens e que passa pelo mesmo processo de Bustos é o lateral brasileiro Yan Couto. Negociado pelo Coritiba e destaque pela Seleção Sub-17 no último ano, está emprestado ao time espanhol.

Este intercâmbio após o ingresso do City Group em outros continentes não é nenhuma novidade. As incursões no futebol japonês desde a aquisição de parte do Yokohama F. Marinos, ainda em 2014, já renderam a chegada do defensor Ko Itakura, ex-Kawasaki Frontale, e do meia Ryotaro Meshino, ex-Gamba Osaka, em Manchester.

Voltando a falar de América do Sul e Torque, há poucos dias, outra transferência que demonstra bem um possível início de inversão na polaridade de forças no Uruguai foi consumada. O City Group adquiriu o promissor meia de 20 anos Santiago Rodríguez, do Nacional, e deve repassá-lo ao Torque por alguns meses, antes de levá-lo ao Girona ou ao New York City. E o impacto de um negócio deste perfil é tremendo. Um jovem de grande projeção, de um dos mais clássicos clubes do país, partindo para vestir as cores de um time de curta história, não deixa de ser um choque e tanto na cultura interna uruguaia.

Fora de campo, as mudanças planejadas no clube uruguaio vão muito além apenas do redesenho do escudo, da identidade da instituição e do rebatismo de Clube Atlético Torque para Montevideo City Torque, feito no começo deste ano de 2020. A parceria com o City Group busca mexer também na estrutura física e no aprimoramento de instalações no futebol do Uruguai, tentando elevar o padrão geral com a construção de um centro de treinamentos do mais alto nível.

O complexo que está sendo construído nas cercanias de Montevidéu abrigará tanto a equipe principal quanto as categorias de base. Ali, terão a sua disposição cinco campos (quatro naturais e um sintético), além de todas as instalações de vestiários, preparação física, centro médico e o núcleo administrativo do clube. A expectativa é de que as obras terminem entre o final de 2020 e o início de 2021, e a inauguração aconteça até o final do primeiro semestre do próximo ano. Está será a quarta academia de futebol do City Group no quarto continente diferente, com o espaço de Ciudad de la Costa se unindo aos training grounds de Manchester, Melbourne e Nova York.

O projeto das novas instalações do Montevideo City Torque, próximo a capital uruguaia

Uma revolução desta magnitude, sem dúvidas, mexerá com o status quo do futebol uruguaio. A tendência é de que este progresso force os clubes mais tradicionais – sobretudo Nacional e Peñarol – a buscarem novas alternativas para seguir o passo de evolução e fujam da estagnação conceitual em que se encontram há alguns anos. Além disto, esta é uma porta de entrada para que outros investidores olhem para os clubes do país e novos negócios sejam oportunizados.

Claro, a preocupação com a perda das raízes e do sentido de pertencimento único que caracterizam o futebol em terras celestes a partir da chegada de uma cultura externa são plenamente plausíveis. Entretanto, mais do que nunca, será necessário saber aliar isto a práticas mais sustentáveis e que possam devolver o poder competitivo e financeiro aos clubes. Se uma sacudida era vital para virar o panorama no Uruguai, o Montevideo City Torque está proporcionando isto.

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Dimitri Barcellos

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