Playbook de Roger Machado: compreensão da liderança, pluralidade de ideias e a hierarquia no futebol

Nesta segunda parte da entrevista exclusiva concedida ao Footure, Roger Machado conversou sobre o modelo de gestão compartilhada, confrontos de gerações, hierarquia como processo meritocrático e a influência das redes sociais na tomada de decisão no futebol.

Essa é a segunda parte da entrevista com Roger. Já leu a primeira? Se não, confere aqui!

Uma carreira vitoriosa como atleta, tendo conquistado quatro Copas do Brasil, Libertadores, Brasileiro e Recopa Sul-Americana. No auge, vestiu a camisa da Seleção Brasileira. E, nos aproximadamente 500 jogos disputados, foi titular em quase todos. A vivência em diversos contextos, aliada à maturidade de ideias e comportamentos, iniciou um processo de entendimento sobre a importância da liderança.

“Quando fui ficando mais velho, depois dos 30 anos, no Fluminense, joguei um ano como titular e depois não consegui mais. O banco de reservas passou a ser algo mais presente. Assim, pude perceber a importância desse contexto. Uma vez que era um cara experiente e com uma liderança dentro do grupo, passei a perceber que poderia utilizar a minha liderança em prol do treinador que liderava todo o processo”, ressaltou Roger Machado.

Agora como treinador, Roger acredita muito na gestão do campo para o vestiário. Ao criar um ambiente saudável de treino, os jogadores se sentem motivados a trabalhar e desenvolver as capacidades técnicas, táticas, físicas e mentais. No entanto, ressalta que um ambiente harmônico não significa que haja ausência de discussões e divergências.

“Penso também que um grupo de futebol saudável não é o que não possui problemas. Na minha casa, somos quatro e temos divergências. E em um grupo de 30 atletas é natural que isso exista. Mas ser um grupo harmonioso não é pensar igual, e sim respeitar a pluralidade de ideias e pensamentos. Cada jogador com seus respectivos objetivos pessoais, mas que estejam em comunhão com as metas coletivas e da instituição”, ponderou o treinador.

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Roger Machado dando instruções ao Saldanha durante o jogo (Foto: Felipe Oliveira/E.C. Bahia)

Dentro do processo gerencial, a busca pelo sentimento de justiça é algo corriqueiro por parte dos técnicos, e a meritocracia é um elemento fundamental para nortear a tomada de decisão, para que seja mais justa com os valores buscados. Não à toa, foi um mantra bastante entoado nas coletivas de imprensa do técnico Roger Machado, o que gerou muitas vezes críticas por parte da torcida do Bahia por incompreensão ou discordância.

“A hierarquia é um processo meritocrático. Não posso ter falta de coragem para colocar um jovem no jogo, pois fui lançado aos 18 anos. E também não posso ter preconceito com um atleta por ser mais velho, pois joguei com 34 anos. Penso bastante como jogador, e o processo meritocrático me diz o seguinte: ‘Professor, joguei 30 partidas e te ajudei a ganhar muitos pontos. E tem 3 jogos que estou mal. E o moleque com justiça está entrando bem. Mas você vai me sacar e não me proporcionará a chance de me recuperar em campo?'”, explanou o treinador.

E continuou: “E se o garoto entrar e não conseguir suportar a pressão? Assim, o jogador vai pensar que estou colocando-o novamente como titular, pois ele não conseguiu sustentar, e preciso da ajuda dele para sanar os meus problemas. É claro que quem joga bem tem o direito de permanecer jogando. Mas também é assim com aquele que passa um mau momento. Quanto tempo é? Qual momento? Não sei, é a sensibilidade”, ponderou.

“O que costumo ter como parâmetro é que, ao observar que a instabilidade é individual, posso optar por dar continuidade por um período maior de tempo. Mas, ao perceber que a instabilidade individual está tendo uma repercussão sistêmica, nesse momento interfiro e preservo o atleta por um, dois ou quantos jogos forem necessários para que se recupere. Se como técnico retiro o jogador a cada partida que o desempenho não é bom, não irá existir uma equipe. Além disso, causará muita instabilidade no processo, pois retiro o direito do jogador de oscilar”, concluiu Roger.

Você confere outros trechos da entrevista abaixo

Roger, qual o seu estilo de liderança e qual o peso da gestão de grupo para a longevidade do trabalho?

O futebol brasileiro sempre flertou com o modelo militar. Sobretudo, nas suas conquistas. Não à toa, houve uma militarização do futebol na preparação física, na hierarquização, na forma de liderar dos técnicos e no aspecto disciplinar. E, por vezes, faz com que as pessoas almejem esse tipo de gestão.

É algo que também é assimilado por outros setores que trabalham com futebol. Um exemplo simples é que, ao estar fazendo um primeiro tempo equilibrado ou ruim, a equipe voltou melhor no segundo tempo e venceu. Na coletiva, sou perguntado sobre o tipo de cobrança feita no intervalo da partida, quando, na verdade, o que houve foi a transmissão da informação aos atletas para superar as dificuldades impostas pelo adversário. Nunca parto do pressuposto que os jogadores não se esforçaram em campo.

Não sou adepto desse modelo gerencial, não possuo esse perfil, uma vez que busco muito mais uma gestão compartilhada ao invés de um modelo vertical. Isso é motivado, também, pela minha experiência como atleta e auxiliar-técnico. Ainda como atleta, já demonstrava interesse no aspecto tático do jogo, questionava os técnicos em busca dos porquês.

Uma vez, um companheiro de time chegou a mim dizendo que não devia ser amigo de treinador. Quando o técnico pensar em sacar alguém do time titular, o primeiro seria eu, por ter a proximidade e acreditar que aceitaria melhor a ida ao banco de reservas. Falei para ele que não concordava. Certo dia, trabalhando como auxiliar, o técnico chegou a mim e disse para não me aproximar muito dos jogadores, pois, no primeiro momento de dificuldade, o jogador podia me sacanear.

Percebendo essa dicotomia de pensamentos, comecei a observar que existia algo errado no processo, porque os dois lados apenas coexistiam. Trazendo o ambiente do quartel, penso que as relações de grupo de jogadores devem ser similares por construir amizades capazes de perdurar por toda a vida. Esses laços afetivos, quando transportados para dentro de campo, são uma química perfeita.

Além disso,, na beira do campo, há um estereótipo de que o treinador precisa estar gritando, pulando e gesticulando a todo instante. E não sou animador de auditório. Preciso estar centrado para passar as melhores informações, e para que os jogadores tomem melhores decisões dentro do campo. A agitação na área técnica vai ocorrer quando percebo que o atleta não está reproduzindo comportamentos que são treinados.

Assim como foi o episódio com Ernando, no qual você gritava e gesticulava afirmando que não tinha bola longa?

Nesse contexto, estávamos com um ataque mais baixo, formado por Élber e Rodriguinho. Naturalmente, vamos ter dificuldade para reter disputando na área central do campo com os zagueiros. Essa bola longa podia até ser feita, se fosse no espaço ou no corredor lateral. Os laterais detêm maior dificuldade e, além disso, se a primeira bola for vencida pelo lateral, a segunda bola pode me conferir um arremesso manual e, consequentemente, sai do eixo central. Ao passo que essa bola é vencida por um zagueiro que cabeceia bem contra um atacante mais baixo, a probabilidade dessa bola voltar para próximo da minha área é muito grande.

Como você busca solucionar problemas de relacionamento dentro do clube?

A minha sala no clube é um local que o jogador não pode deixar de entrar. Por que? Pois, após um período no clube, passo a conhecer o atleta e sei se tem algo errado a partir de um “bom dia” que é dado.

Eu sei se, ao ter dado uma orientação em tom mais alto no dia anterior, ou por ter realizado uma crítica em função de ter feito alguma coisa que não estava em conformidade com o que foi treinado, se assimilou bem a crítica ou se ainda tem algum resquício e precisarei intervir. Ou, até mesmo, se está com um problema em casa e pode refletir no treino, gerando um problema desconectado.

Para solucionar problemas de relacionamento, o primeiro passo é identificar quais são os problemas que é preciso resolver no curto, médio, longo prazo, ou aqueles que vão ser solucionados por alguma liderança do elenco. Se tentar resolver todos os problemas imediatamente, corre-se o risco de, no ímpeto, causar um incêndio em uma situação que era apenas uma brasa. É preciso acreditar que o processo e o modelo gerencial serão capazes de solucionar os problemas.

Temos os 11 titulares, e ficam 13 no banco de reservas. Esses do banco de reservas ficam conversando entre si, se o técnico não está enxergando que existem dois ou três atletas que não estão bem e que poderia ser oportunizado uma chance a quem está fora. E ainda tem os 10 que não foram relacionados, que começam a conjecturar que, se o técnico saísse, poderia ter mais chances de jogar.

É uma alquimia para valorizar todos no processo, buscando ser o mais justo possível, tentando obedecer o aspecto do mérito. Muitas vezes, as pessoas confundem o mérito com antiguidade, quando, na verdade, são vários fatores que determinam o mérito. Em uma reunião de família, meu tio me questionou pelo fato de algumas vezes um jogador mais jovem entrar bem um jogo e não colocá-lo como titular na sequência. É preciso fazer gestão, respondi.

Pegando gancho nessa resposta tratando de gerações, gostaria de saber a sua impressão no que tange ao comportamento da geração Z. Existe uma diferença grande na forma de lidar?

Eles são muito folgados (risos). O Lucas Fonseca e o Douglas me chamavam de professor, e o Saldanha e o Edson me chamavam de Roger (risos). Mas não me importo, é algo da geração. E gosto bastante dessa relação, e, embora sendo próxima, o respeito ao comando e à forma de liderança permanece intacta.

Uma noite dessas, em casa, recebo um vídeo do Saldanha perguntando: ‘Professor, o que aconteceu aqui?’. Fui abrir o vídeo rapidamente, e me deparei com o Adriano [Imperador] me desmontando com uma trombada no jogo entre São Paulo e Fluminense (risos). Aí mandei para ele: ‘Você não quer jogar? Pega o telefone do treinador para tirar onda’. E ele pediu desculpa (risos).

Disputa de bola entre Roger Machado e Adriano, pelo Campeonato Brasileiro de 2008

No outro dia, mandei o vídeo para todos, e, antes de iniciar o treino, reuni o elenco e perguntei se o Saldanha não queria jogar. “Te dei 15 minutos contra o Ceará e é assim que você me agradece? Agora vai ter que correr duas vezes mais no treino”. E ele, todo desconfiado, pediu desculpas. Aí foi aquela resenha. Os demais jogadores dizendo que o Saldanha estava folgado (risos).

Outro momento foi em um rachão jogando com eles. Cheguei no lado do campo, cruzei a bola para área e o Saldanha não foi. Perguntei o porquê de não ter ido na bola, e ele respondeu que acreditou que não teria força para cruzar a bola (risos). Aí começou a resenha dos jogadores dizendo que o Saldanha não ia jogar mais (risos).

Muito se fala do trabalho de desenvolvimento individual de jogadores realizado por Jorge Sampaoli e Rogério Ceni. Você acredita que falam pouco do seu trabalho nesse aspecto? E como procura desenvolver os atletas?

Não posso ser injusto. Acredito que a repercussão seja satisfatória sobre a minha capacidade de melhorar os atletas. Trabalhar com jogadores jovens e em desenvolvimento é uma das grandes virtudes que tenho, pois apresento a paciência e a didática necessária para que sejam desenvolvidos.

Mas isso não implica em ser babá de jogador, porque tenho que dar atenção a todos. Essa proximidade que consigo estabelecer com o jogador me permite acessá-lo com mais facilidade, dividindo as experiências na época de jogador

Quando está dirigindo um clube de futebol, qual o seu papel dentro do processo de contratações?

Hoje é tudo integrado. O Departamento de Inteligência, o Executivo de Futebol e o treinador prospectando e indicando. Por vezes, acontece de ser uma indicação específica ou pelas características. Os analistas, algumas vezes, são alimentados e iniciam o processo de observação para confirmar ou desaconselhar a contratação respeitando os princípios de jogo adotados.

Roger, você passou por Juventude, Novo Hamburgo, Grêmio, Atlético-MG, Palmeiras e Bahia. Ao longo da sua trajetória como técnico, o que tem observado de evolução no processo de contratação? Há algo que precisa ser melhorado?

De forma geral, percebo uma evolução e um encaminhamento para buscar informações acerca das ideias de jogo, e também do modelo de gestão para conduzir o processo em um clube de futebol. Por exemplo, ao participar de um processo de contratação de técnicos no Chile, tenho que enviar informações acerca dos modelos de jogo, os conceitos treinados, a forma de desenvolver o treino, liderança, etc.

Mas, sobretudo no Brasil, os gestores continuam contratando não pelas capacidades técnicas do profissional, mas sim pelo momento. Então, se o treinador der sorte de estar na curva ascendente quando foi demitido pelo último clube, automaticamente será lembrado quando houver vaga em aberto em algum clube. E o mesmo acontece no sentido oposto. Se o técnico estiver no momento descendente, não será lembrado no momento que o mercado estiver aquecido.

Soma-se a isso uma peça fundamental nesse quebra-cabeça: as redes sociais. Afinal, elas detêm um poder de influência na tomada de decisão muito grande. Por vezes, lançam um nome para saber se será bem recebido. Quem está na ponta do processo não quer contratar um treinador que vai chegar com rejeição no clube. Não querem comprar essa briga.

Brinco que vai chegar o dia no qual existirá um aplicativo em que o sócio gold irá eleger os 11 jogadores que entrarão em campo. E, como técnico, vou ficar restrito a realizar treinos.

O Cartola FC é algo bem próximo dessa realidade citada por você…

Sim. E, volta e meia, as pessoas invadem o meu WhatsApp para enviar mensagens com xingamentos por ter mudado a escalação da equipe. Não sei onde a sociedade vai chegar. Esse ambiente externo, que tem exercido grande influência no jogo, tem deteriorado a minha relação com o futebol. E a balança está começando a inclinar para encerrar a carreira de técnico e iniciar uma nova etapa da minha vida. Mas, por hora, sigo o planejamento de seguir como treinador por mais cinco temporadas.

Com 10 anos de carreira à beira do gramado completados, o que você planeja para os próximos anos?

Treinar por mais cinco temporadas, a princípio, e buscar experiências que me enriqueçam pessoalmente. De preferência, outro país para que possa levar a minha família. Em virtude do trabalho no Atlético-MG, no qual esperava ter um tempo maior e acabei saindo no início do Brasileiro, tomei a atitude de deixar a minha família sediada em Porto Alegre.

Não é fácil gerenciar a instabilidade emocional gerada a partir da derrota de dois jogos, e ouvir as minhas filhas me perguntarem se vou ser demitido. Agora, quero algo que me conceda a oportunidade de conciliar trabalho e vida pessoal.

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