Por que as concussões são tão perigosas para os jogadores

A preocupação da FIFA com as concussões sofridas pelos jogadores dentro de campo aumentou — e um protocolo já começa a ser testado; hoje vamos falar qual a importância de cuidar de perto esse tipo de lesão

Uma das cenas mais comuns no futebol é a de jogadores disputando a bola no alto. Por vezes acertam o objeto esférico, por vezes acertam a cabeça do adversário. Nessa última situação, cortes no rosto, quedas preocupantes e desmaios chamam atenção de colegas, treinadores, médicos, árbitros e torcedores. Na Copa de 2014, por exemplo, o zagueiro holandês Bruno Martins Indi assustou ao cair feio após choque de cabeças. Na final da Champions 17/18, outro caso bem conhecido: o goleiro Karius, também depois de choque com Sergio Ramos, falhou em lances decisivos e teve sua carreira marcada pelos lances. Em ambos os casos, os atletas sofreram concussões cerebrais.

No primeiro texto dessa viagem para dentro da cabeça dos jogadores, vimos como o encéfalo é um importante centro de processamento das ações dos atletas, desde o planejamento, passando pelas emoções, até a ordem para a execução de um movimento. Todas essas estruturas, embora superpotentes, são frágeis – a consistência é parecida com a de uma gelatina – e, por isso, precisam de muita proteção. É aí que entra a caixa craniana, uma estrutura rígida (osso) que guarda o cérebro e todas as outras partes que possuem funções essenciais para nos manter vivos e conscientes.

Dentro da caixa craniana, todas as estruturas estão seguras para realizar as conexões que precisam para nos fazer funcionar. Quer dizer, não tão seguras assim. Quando um choque muito forte acontece na cabeça, nem a rigidez do osso consegue impedir que o cérebro, geralmente o principal atingido, sinta o impacto. Nesse momento acontece a concussão cerebral.

A concussão, um dos tipos de traumatismo craniano, é um trauma sofrido pelo cérebro. Os grandes impactos externos fazem com que o cérebro se movimente dentro da caixa craniana e esse movimento brusco causa pequenas lesões que podem causar desmaios, tontura, confusão mental, perda de memória, visão embaçada, enjoos e vômitos, entre outros sintomas.

Naquele momento em que os médicos entram em campo para o atendimento e examinam os jogadores, eles aplicam o Concussion Recognition Tool, o CRT, um guia rápido para avaliar o grau de lesão que consiste em perguntas como “onde você está”, “qual o placar do jogo”, “que dia é hoje”, além de exames no globo ocular.

A sensibilidade do cérebro faz com que ele precise de algum tempo para se recuperar do impacto. Karius, ex-goleiro do Liverpool, não teve esse tempo e seguiu em campo depois do choque. Suas falhas de percepção espacial e execução do movimento podem ser explicadas pela concussão que sofrera minutos antes.

A rigidez no tratamento das concussões no momento em que elas acontecem estão sendo cada vez mais discutidas no meio futebolístico. Isso porque, mais importante do que prejudicar o desempenho do atleta na partida, outro choque pode causar derrames, problemas cognitivos e até morte.

Os derrames, danos cognitivos e morte ocorrem porque a área machucada não se recupera completamente, suas funções ficam prejudicadas e há a enorme possibilidade de comprometimento das ligações com outras estruturas, levando a afetar outros “setores” e, consequentemente, outras capacidades abstratas e motoras. A Síndrome do Segundo Impacto –outro choque forte na cabeça em um curtíssimo período de tempo- pode ser fatal, assim como as concussões acumuladas ao longo da carreira. Foi o caso de Bellini, capitão do primeiro título mundial do Brasil. Em 2014, quando morreu em decorrência do Mal de Alzheimer, seu cérebro foi doado para estudo e um grupo de cientistas da USP concluiu que os impactos constantes na cabeça na época em que jogava foram os responsáveis por diversas lesões cerebrais, incluindo o aparecimento da doença degenerativa.

Reprodução: VEJA

No futebol, acredita-se que cerca de 3% de todas as lesões são concussões cerebrais, que metade dos jogadores que jogam há pelo menos 10 anos já sofreram com o problema e que, nos campeonatos nacionais, ao menos um jogador de cada clube teve/têm concussão. Para se ter uma ideia do perigo da concussão, ressonâncias magnéticas e tomografias computadorizadas não detectam as alterações, porque a lesão é a nível químico, não na estrutura propriamente dita do cérebro. Ou seja, na imagem pode parecer estar tudo bem mesmo que realmente não esteja. Por esse motivo, mesmo quando um atleta se choca na cabeça durante uma partida e aparenta estar bem, testes posteriores são feitos para investigar a situação. De novo entram em cena as perguntas para verificar memória, tempo de reação, aspectos cognitivos e, geralmente, existe um banco de dados do jogador, com informações colhidas na pré-temporada, para comparação de resultados.

Embora na maioria dos casos os jogadores se recuperam e voltam a jogar depois de uma ou duas partidas, a atenção dos órgãos internacionais e dos comitês médicos tem se voltado para o tema. Em uma clara preocupação em amenizar os problemas decorrentes das concussões, a FIFA testou no Mundial de Clubes 2020, realizado no Catar, uma nova regra: uma substituição extra pode ser feita em caso de concussão. E já na primeira edição a regra entrou em ação. No confronto entre Tigres e Ulsan Hyunday, Aquino, do clube mexicano, foi avaliado e substituído depois de sofrer um choque na cabeça. Além dessa medida, o tempo de avaliação em campo também aumentou e agora os médicos podem passar até 3 minutos examinando os atletas.

O futebol está mudando e, com ele, o entendimento sobre as questões que afligem seus principais personagens. Os choques de cabeça, claro, continuarão existindo, afinal as disputas no alto são tão constantes quanto a bola na rede, mas a adoção de protocolos de cuidado mais rígidos ajudarão a evitar situações de problemas mais graves.

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