Ten Hag e a missão de reconstruir o Manchester United

O círculo vicioso continua e os Red Devils se preparam para entrar em mais uma 'nova era'. Não sabemos se vai dar certo, mas a escolha de Ten Hag dá perspectivas animadoras

David Moyes, Louis van Gaal, José Mourinho, Ole Gunnar Solskjaer e Ralf Rangnick. Cada um de sua forma, todos deixaram um aviso bem claro: o Manchester United pós-Ferguson não é um clube verdadeiramente confiável. Problemas dentro e fora dos gramados, elencos montados equivocadamente, falta de organização em praticamente todas as áreas… a lista é extensa.

Dito isso, sempre aparecem os momentos em que as expectativas se renovam. E estamos, dentro desse círculo vicioso, vivendo um desses momentos novamente. A chegada de Erik Ten Hag representa um alento a um clube que sabe – ou deve saber – que ficou pra trás da elite do futebol e dos seus principais rivais.

Diante da ineficiência de corrigir seus próprios problemas e da eficiência da maioria dos adversários em seus processos, os Red Devils se encontram sem saída. Precisam de profissionais e práticas de alto nível para tentar diminuir essa distância e voltar a disputar títulos relevantes.  

O treinador do Ajax,  apesar de ainda estar no início da carreira, já deu amostras suficientes de que pode ser um profissional de alto nível. Ele foi um dentro do contexto em que estava inserido até aqui, resta ver se manterá a linha em um cenário de exigências muito maiores. A resposta só teremos com o tempo e envolve uma série de fatores.

Sobretudo, o clube precisa lhe dar autonomia para implantar sua visão em todas as áreas que façam sentido. Não adianta buscar um nome pelo seu potencial e miná-lo com uma forma arcaica de pensar o esporte. Um sinal positivo nesse sentido já aconteceu: aparentemente não queriam um assistente escolhido por Ten Hag – Steve McClaren, que já foi do United entre 1999 e 2001 e esteve com o holandês no Twente -, mas estão mais dispostos a dar o braço a torcer e fazer a sua contratação. 

Depois de anos de fracasso nos moldes preferidos da instituição, o técnico deve ter a liberdade de contar com quem confia. E isso vale para o elenco também. Está claro que certa reformulação é necessária e os jogadores não podem ter a sensação de garantia de vaga. Reforços são precisos na defesa, no meio e no ataque, tanto para elevar o nível do grupo quanto para possibilitar a execução do estilo de jogo do treinador.

O experimento com Rangnick de treinador não deu certo – veremos o próximo passo, com ele na consultoria (Foto: Reprodução/Sporting News)

E, mais do que isso, saídas também são importantes para fazer uma nova limpa no plantel e abrir espaço na folha salarial. É hora de trabalhar com frieza e visão de longo prazo para em algum momento possivelmente colher os frutos. Reduzir a pressão por resultados imediatos e entender que a evolução pode levar tempo. 

Já está claro que não há chance de rivalizar com Liverpool, Manchester City e companhia com o estado atual da equipe ou então com melhorias pontuais, mesmo se essas melhorias envolvessem nomes de peso, repercussão e euforia. Se os processos forem respeitados e Ten Hag tiver tempo o suficiente pra replicar – com adaptações, óbvio – o que fez no Ajax, podemos ver um Manchester United forte mais pra frente.

O holandês já demonstrou ser capacitado em diversos aspectos, dentro e fora dos gramados. Nas quatro linhas, ele busca ser dominante em todos os sentidos possíveis e desenvolve uma estrutura facilitadora para tal. Os jogadores são posicionados e se movimentam de uma forma que costumam garantir a superioridade na posse, volume de jogo, criação de chances (muito no 1v1) e pressão/cobertura na perda da posse.

Que comecem as especulações… (Foto: Reprodução/News Beezer)

Mesmo levando em conta o nível mais baixo da Eredivisie, o fato do Ajax ter marcado 85 e sofrido 15 gols nesta temporada corrobora com isso. Mas claro, para assumir um gigante não basta dar bons treinos e ter estratégias inteligentes. O treinador precisa ter o respeito de todo o vestiário, saber gerenciar atletas (e estrelas), lidar com a pressão de torcida e imprensa e sempre ser coerente com a realidade.

Na Inglaterra e no resto do mundo, comandar um dos maiores clubes do país é uma missão para poucos. Para, resumidamente falando, profissionais diferenciados. Para o alento do torcedor, Ten Hag dá sinais de que vai se consolidar como um desses profissionais. Se vai dar certo não podemos cravar – e o histórico da última década nos deixa com um pé atrás -, mas esta parece ter sido uma escolha certeira para (re)iniciar o projeto de reconstrução de uma potência.

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