Torneio da França: inúmeras incertezas e uma convicção, é Luana + 10!

Ainda em processo de evolução, Seleção Brasileira comandada por Pia Sundhage no Torneio da França tem uma certeza: Luana Bertolucci

Durante o Torneio da França, competição amistosa que aconteceu na última semana, a Seleção Brasileira se viu derrotada pela primeira vez desde que a Pia assumiu o comando técnico da equipe. Entre muitos testes, mais erros que acertos nesses três jogos, fincou-se de vez a nossa maior certeza dessa era: Luana Bertolucci.

Ausente na lista inicial para copa do mundo – fora chamada após lesão da Adriana, participando do torneio, mas presente em todas as convocações da técnica sueca, Pia Sundhage, Luana parece ser a única certeza do time. Desde a primeira partida, a meio campista é a jogadora que se mostra mais regular em campo, jogando bem mesmo nos piores momentos da equipe. 

Já na estreia da Pia Sundhage no comando da seleção, Luana foi não apenas titular, como também a capitã. Só perde a faixa quando a Marta está em campo.

Em toda a era pia, Luana é a jogadora que mais participa do jogo. Desde a construção vindo de trás, no apoio ao ataque, no equilíbrio numérico nos diferentes setores de campo, na recomposição em transição defensiva, no combate as principais jogadoras adversárias, ela se apresenta onde a equipe precisa que tenha alguém. É comum ler no Twitter: e a Luana faz tudo. Quem diz isso não está mentindo.

Luana na era Pia Sunghage:

  • 11 jogos
  • 26.5 passes certos por jogo
  • 1.3 passes decisivos por jogo
  • 1.9 dribles completados por jogo
  • 7 divididas vencidas por partida
  • 1.6 faltas cometidas por jogo
  • 4.6 bolas recuperadas por jogo
  • 2.1 bolas recuperadas no campo adversário por jogo
  • 2.6 desarmes por jogo
  • 5.2 interceptações por jogo
Torneio da França
Marta passando a braçadeira para Luana no Torneio da França

O Torneio da França

Foram três partidas no torneio amistoso da França. O Brasil encarou a Holanda, finalista da última copa do mundo, já na primeira rodada, e o empate por 0x0 acabou sendo surpreendente, levando em conta o favoritismo das holandesas, ainda que sem todas as suas titulares em campo.

Na segunda rodada, contra a França, a sede de revanche pela eliminação na copa do mundo não foi saciada, e a seleção foi derrotada pela primeira vez sob o comando da Pia. O jogo de melhor desempenho da equipe foi contra o Canadá, já na última rodada, que contou com o primeiro gol da Marta diante dos olhos da nova treinadora, mas que acabou terminando com um gosto amargo após o Brasil abrir 2×0 e levar o empate no final.

O jogo contra a Holanda

No dia anterior a partida, os seguidores fieis da seleção ficaram surpresos com a informação de que Luana Bertolucci, dona do meio de campo, jogaria improvisada na lateral direita. Seria a primeira vez dela atuando na posição, teste um tanto quanto inusitado, mas a Pia sempre deixou claro sua preferência por jogadoras versáteis, e a capacidade da Luana de se adaptar aos contextos do jogo, deu confiança para a treinadora efetuar a tentativa.

Pensando no contexto coletivo da seleção brasileira e o fato das olimpíadas estarem se aproximando, não ter uma linha defensiva formada e já adaptada a jogar junto é preocupante. Individualmente falando, nenhuma das opções testadas na posição mostrou total segurança até agora, e, apesar das desconfianças, Luana não só fez uma excelente partida como foi a melhor em campo.

imagem: @emporionpodcast

O jogo terminou empatado por 0x0, mas a falta de entrosamento da linha de defesa permitiu algumas boas chances a seleção holandesa, que acabou por não aproveitar. Erros de posicionamento e movimentação ainda são comuns. 

Veja como a jogadora holandesa vem de trás sem nenhum acompanhamento, entre a dupla de volantes e e as zagueiras de costas para o lance,

Apesar dos erros coletivos, individualmente a Luana ganhou quase todas as disputas contra a Martens e Miedema, duas jogadoras de alto nível mundial e que eram preocupação defensiva para o Brasil na partida.

Luana se movimenta de forma a bloquear a opção de passe no corredor, fazendo a interceptação.

A leitura de espaço que a Luana tem é acima da média, seja atacando ou defendendo, ela sempre sabe onde deve se posicionar para ser opção de passe, dar apoio nas construções ofensivas ou oferecer sobra defensiva. Sabe quando tentar um passe, quando ela mesma deve tentar resolver a jogada, acionar as melhores opções de jogo, enfim, possui a inteligência que a tornou braço direito da Pia Sundhage. 

Luana na cobertura defensiva

Contra a Holanda, o Brasil optou por duas volantes com características defensivas predominantes, e a participação da Luana para a saída de bola fez-se fundamental para fluir o jogo, ainda que tenha encontrado dificuldades de associação nesse contexto muito pela falta de entrosamento das jogadoras em campo. 

Ainda assim, Luana foi completa na partida, muito bem adaptada fora de sua posição. Encurtou o campo de atuação da Holanda no seu setor, fez bem o balanço defensivo, e ocupou os espaços no ataque, tanto oferecendo amplitude quanto criando por dentro.

Luana, como lateral direita, preenchendo o espaço pelo meio e participando das construções de ataque.
Luana sendo opção na amplitude na inversão de jogada. (e que controle de bola heim)

O jogo contra a França

O jogo contra a França foi o que mais deixou a desejar quanto ao desempenho da equipe. Diante de um adversário que vive melhor momento, e que eliminou a seleção brasileira na última copa do mundo e jogava em casa, as escolhas da Pia acabaram não funcionando.

O Brasil foi a campo com uma escalação que prometia posse de bola e a busca pelo jogo associativo. Luana voltou para o meio ao lado de Formiga, Tamires, lateral esquerda titular, também foi a escolhida para a partida. Mais a frente, estavam Adressinha, Andressa Alves, Cristiane e Bia Zaneratto. 

Tamires foi a lateral esquerda da seleção brasileira durante a copa do mundo de 2019, porém, não é segredo para ninguém que há algum tempo deixou de atuar na posição. A jogadora do Corinthians, hoje com 32 anos, atua como meia aberta pela esquerda. Por outro lado, assim como na lateral direita, nenhuma das opções testadas mostraram mais argumentos que Tamires para tomar a posição.

Dentro de um contexto de jogo em que o Brasil se defenda a partir da posse, Tamires é com certeza a melhor opção, pela inteligência que tem de movimentar e fechar os espaços do campo e a alta capacidade criativa, além de ir bem na bola parada.

O grande erro: características das jogadoras x característica do jogo

Andressinha e Andressa Alves tiveram a responsabilidade de acionar o ataque da equipe, com a Cris centralizada e a Bia sendo sua dupla de ataque com maior mobilidade. As duas jogadoras tem característica de atuar de frente para o ataque, a partir de jogadas que são construídas desde a defesa.

Posicionada aberta, Andresa Alves tem como característica se movimentar de fora para dentro e oferece pouca profundidade, sendo mais participativa na base das jogadas de ataque. Andressinha, por sua vez, precisa atuar mais recuada, de frente para o ataque, enxergando o campo. Atuando aberta, pouco oferece ao time.

Diante de uma equipe que hoje está em um nível acima, o Brasil possuía jogadoras que tem característica de obter a posse da bola, mas tiveram que se preocupar em defender-se primeiro e buscar a transição ofensiva em velocidade para contra-atacar.

Se defendendo no 4-4-2, Andressinha, que tem menos velocidade que a Bia Zaneratto, era quem se aproximava da Cris. 

Quando retomava a bola, a Luana era a principal peça de ligação ao ataque, e conseguiu muitas vezes desafogar o Brasil lá de trás, porém, a formação e posicionamento das jogadoras de frente não permitiram ao time a leveza e velocidade para contra-atacar.

Andressinha e Andressa Alves, as meias abertas, não ofereciam profundidade. A Cris até cumpria seu papel fazendo o pivô, mas ninguém infiltrava para aproveitar os espaços que ela abria. Isso porque a Bia, que poderia ser essa opção de passe atacando as costas da defesa, estava constantemente mais recuada para auxiliar na marcação.

Ou seja, o time tinha em campo peças que tem como característica propor o jogo, ter o controle da partida a partir da posse de bola, subir ao ataque com paciência e troca de passes, mas se defendia e tentava contra-atacar sem pontas velozes e sem meio campistas agudas.

Como consequência, muitos erros de passe e desgaste físico, já que o time recuperava a bola e a perdia logo em sequência.

Luana foi o destaque positivo mais uma vez, protegendo bem a área, diminuindo o espaço de quem recebia a bola em seu setor, roubando bolas e acionando o ataque, enfim, oferecendo o pouco de mobilidade que o time teve no primeiro tempo.

O Jogo contra o Canadá 

Os primeiros 45 minutos contra o Canadá foram os melhores do Brasil no torneio. Diferente do 4-4-2 característico da Pia não apenas a frente da seleção brasileira mas ao longo de seus trabalhos mais vitoriosos, o Brasil se montou no 4-2-3-1 com a Formiga e Luana sendo as responsáveis pela saída de bola e proteção a área. 

4-2-3-1 que proporcionou ao Brasil seu melhor momento no torneio, com excessão da Andressinha jogando atrás da Bia Zaneratto (a jogadora mais adiantada), pois foge de suas características atuar tão próxima a atacante.

Se a Luana conseguiu se destacar em contextos de pressão a saída de bola e improvisada na lateral direita, imagina em sua posição de origem diante de uma equipe que marca em bloco baixo? O jogo propositivo do Brasil finalmente funcionou bem.

As saídas de jogo limpas com Luana e Formiga, tendo a Marta com liberdade pelo meio quando o Brasil tinha a bola e sendo bem participativa nas armação das jogadas, inclusive também para pisar na área, fizeram o jogo da seleção fluir bem, e foi tabelando com Bia Zaneratto pelo meio que a camisa 10 do Brasil recebeu dentro da área para bela finalização e seu primeiro gol na era Pia.

As escolhas da Pia para essa primeira etapa diante do Canadá foram as melhores do torneio, exceto pela Andressinha a frente e pelo meio no 4-2-3-1. Como já contextualizado, Andressinha tem característica de atuar de frente para jogada, longe da área. É enxergando bem o campo e o posicionamento de suas companheiras que ela toma as melhores decisões para a equipe.

Se no segundo tempo com a expulsão da Jucinara (LE), pouco temos de positivo a enxergar, a saída da Formiga permitiu a Andressinha seus melhores momentos na era Pia, jogando ao lado da Luana e aumentando a dinâmica de ataque do Brasil.

O que tirar do torneio?

Acabamos por ter mais dúvidas que certezas ao fim da competição. Os melhores minutos do Brasil foram quando a equipe pode buscar o jogo propositivo, mas sabemos que diante de equipes de nível acima, teremos que saber jogar de forma reativa e ser mais agudos e intensos nas transições.

Para conseguir ser competitiva nas duas estratégias com um elenco tão curto quanto é o das olimpíadas, a Pia busca jogadoras o mais versáteis possíveis, e ninguém mais que a Luana conseguiu se destacar em todos os contextos de jogo, inclusive atuando fora de posição.

Muitas dúvidas, uma certeza: é Luana e mais dez.

Números: Empório de notícias

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Giselle Andreolla

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