O que as transmissões de futebol podem aprender com as de videogame

Interatividade, liberdade e diversidade: streams de esports apontam futuros possíveis para as transmissões de futebol e outros esportes tradicionais

Exclusividade, preço alto, limitações diversidade e interatividade. Assim é hoje são as transmissões de futebol dos principais eventos ao redor do globo.

De alguns anos pra cá, já discutimos o futebol enquanto entretenimento e sabemos que entre os produtos concorrentes de uma partida do campeonato brasileiro, por exemplo, não estão apenas outros jogos de outras ligas de futebol, ou mesmo de outros esportes, mas estão também a Netflix, Amazon Prime Vídeo, Fortnite, Candy Crush, Spotify ou qualquer outro serviço ou atividade que possa ser mais atrativa ao consumidor.

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Sentar em frente a TV e assistir passivamente uma partida, sem ter o controle de qual imagem ou informação será mostrada na tela, sem poder escolher o narrador e quais comentaristas você quer ouvir, não é mais tão divertido com em outros tempos, nossas atividades mudaram, nosso cérebro mudou, hoje queremos tudo instantâneo, on demand e personalizado. Até mesmo jogadores mais jovens já não tem paciência de assistir 90 minutos de futebol. 

É óbvio que o futebol não vai simplesmente diminuir o tempo jogado para 40 minutos ou se tornar um videogame onde o espectador controle o que os jogadores fazem em campo, mas a transmissão esportiva deveria buscar alternativas para deixar o produto em uma embalagem mais versátil e que cada um possa consumir do jeito que mais lhe agrade. 

Some a essa realidade, a incerteza do mundo após a pandemia, onde alguns especialistas julgam que ainda vamos demorar a retornar, se é que vamos retornar algum dia, a ter eventos de grande aglomeração humana, como estádios lotados para partidas de futebol.

Se olharmos para os primos mais jovens do esporte tradicional, os esportes eletrônicos (ou esports), veremos que há possibilidades de agregar diversidade, conteúdo e interatividade nas transmissões e alcançar novos tipos de públicos e receitas.

Em 2020, os esports devem chegar a audiência de 500 milhões de pessoas e lucro de um bilhão de dólares (sem contar a compra dos próprios jogos), um aumento de 15% em relação ao ano passado segundo a consultoria Newzoo.

Esse dado foi estimado ainda antes da pandemia, e talvez a audiência cresça ainda mais devido ao isolamento social. O número de espectadores na Twitch, a maior plataforma de streaming de jogos eletrônicos, cresceu 31% entre fevereiro e março deste ano, segundo o site TwitchTracker, que monitora o tráfego de usuários na plataforma.

Assista a Live de Football Manager da dupla Mairon Rodrigues e Renato Rodrigues

Talvez esse seja o melhor momento para rever o que está sendo bem feito e o que precisa ser melhorado nos esportes tradicionais, com a mudança do perfil da audiência, a diversificação cada vez maior na concorrência pela atenção do consumidor, até mesmo as formas de entretenimento mais tradicionais precisarão se reinventar.

Como fã de futebol e também de videogame, cito 3 direções nas quais acredito que as transmissões esportivas poderiam seguir os esports.

1. LIBERDADE DE PLATAFORMAS

Esports: A grande maioria dos esports tem sua transmissão livre, quem quer que seja que tenha um computador e software para transmitir via plataformas de streaming, como Twitch e YouTube, pode criar seu canal e transmitir qualquer evento, desde uma partida entre amigos até os eventos oficiais.

Esportes tradicionais: nos últimos anos tivemos um acréscimo considerável nas plataformas, além dos tradicionais canais de TV,  abertos e pagos, apareceram as transmissões via stream no Facebook e YouTube dos próprios clubes e federações além das plataformas exclusivas como DAZN e MyCujoo. O que ainda falta é a democratização, a possibilidade de vários desses canais transmitirem ao mesmo tempo o mesmo evento e dar o poder de escolha ao espectador. 

Desafios: Nesse caso, não há qualquer limitação tecnológica, o problema aqui seria repensar as formas de receita que conhecemos hoje, principalmente no Brasil onde o direito de transmissão representa parcela considerável da receita dos clubes.

2. DIVERSIDADE NAS TRANSMISSÕES

Esports: além da possibilidade de escolher por qual “canal” você quer assistir a competição, nos jogos eletrônicos existem ainda ferramentas que permitem escolher qual narração e comentários você prefere ouvir. Um exemplo é o jogo DOTA 2, onde você pode assistir as competições diretamente por dentro do game, escolhendo entre os canais de áudio oficiais do campeonato, disponíveis em diversas línguas. 

Esportes tradicionais: dentro das plataformas digitais de transmissão existentes hoje, creio que seria possível programar mais de um canal de áudio, onde poderíamos ter diversidade nas abordagens de acordo com o gosto do consumidor. Em um canal de áudio poderíamos ter narração e comentários tradicionais, em um segundo poderíamos ter comentários mais focados em análise tática e técnica, para aqueles que se interessam profundamente pelo esporte e ainda poderíamos ter uma terceira com narração e comentários mais bem humorados para quem quer apenas entretenimento.

Desafios: outra questão que diz muito mais respeito a direitos de transmissão do que a tecnologia, uma vez diversificadas as formas de transmitir, essa questão estaria resolvida rapidamente.

3. INTERATIVIDADE E PROFUNDIDADE

Esports: nas transmissões de videogames que são feitas por dentro do próprio jogo, existem camadas extra de informações, como gráficos e estatísticas da partida que são geradas automaticamente e fáceis de serem apresentadas na tela durante e enriquecem a transmissão. 

Quanto a interatividade possibilitada pelas tecnologias de streaming, podemos entender em dois níveis: um mais básico onde o público e quem está transmitindo podem interagir entre si através de comentários e reações, e um segundo nível de interação, que é permitir ao espectador escolher a câmera, as informações e o que mais deve aparecer na tela em tempo real. 

Esportes tradicionais: para executar a interação entre transmissor e receptor, já existe a tecnologia, os streams via redes sociais já funcionam com essa possibilidade e mesmo as transmissões mais tradicionais da tv fazem isso de forma mais moderada, com mensagens e vídeos que os espectadores enviam e são colocados na tela para todos assistirem. 

Já para o segundo nível de interação, onde o consumidor escolhe o que ver na tela em cada momento, creio que a tecnologia esteja bem próxima, já existem dezenas de câmeras em uma competição esportiva, porém o diretor escolhe qual será mostrada em qual momento, assim como existem dezenas de plataformas de dados gerados em tempo real, desde estatísticas, mapas de calor, quadros com análise tática e uma infinidade de informações que podem ser úteis ao espectador. Bastaria conectar os dados e as imagens dessas plataformas, assim como as imagens de todas as câmeras disponíveis, ao consumidor final, permitindo a ele ser o diretor da sua própria transmissão.

COMO RESOLVER A QUESTÃO DAS TRANSMISSÕES DE FUTEBOL?

É claro que mudanças dessa natureza devam ocorrer aos poucos, principalmente pela ruptura da estrutura de negócios que temos hoje, mas talvez estejamos entrando numa fase onde essa evolução seja acelerada.

Já estamos falando em diminuição de receitas dos clubes, de salários de jogadores, de direitos de transmissão e outras mudanças profundas no mercado. O futebol pós-2020 e tudo que o cerca será diferente e vai nascer agora.

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Clubes, ligas e federações precisam encontrar novos modelos de receita e distribuição dos direitos que sejam compatíveis com o consumidor e tecnologia atual. A certeza é que a mudança dificilmente será feita pelos mesmos atores. Novas empresas e pessoas devem entrar na equação e trazer as inovações necessárias para um novo jeito de transmitir e vender o futebol ao espectador.

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Filipe Borin

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