A Atalanta é vítima do próprio sucesso?

Os bergamascos conseguiram fazer sucesso na Itália com um time ofensivo, mas será que suas virtudes estão mais próximas dos defeitos do que se imagina?

Nas últimas duas semanas, a Atalanta veio de um empate polêmico com o Napoli, uma derrota para o Cagliari em casa e um empate com a Sampdoria que lhe deixaram na sexta colocação do campeonato.

Apesar do empate com o City no meio da semana da Champions, a pergunta que não quer calar, e que titula este texto, é basicamente: a Atalanta é vítima do próprio sucesso ofensivo? Uma pergunta que pode tentar ser respondida com o que aconteceu com a Atalanta treinada por Gasperini e a reação de seus adversários sobre o futebol praticado por ela mesma. 

Afinal de contas, a Atalanta não virou o melhor ataque da Serie A até aqui, com 30 gols, à toa. Foi tudo às custas de um sistema ofensivo que funciona muito bem. E funciona graças a leitura que estes jogadores tem de seu esquema. Vamos citar, por exemplo, uma partida que cita estes dois lados: o empate em 3 a 3 com a Lazio:

A pressão alta da Atalanta no jogo contra a Lazio (Foto: L’Ultimo Uomo)

Aqui acima, uma situação particular das dificuldades da Lazio naquela tarde, mas também da intensidade de Atalanta. Luis Alberto, mesmo sem companheiros particularmente reativos nos movimentos para a frente, e com Parolo controlado por Freuler, poderia ter tocado para trás e deixado a Atalanta descobrir mais. 

Aqui, Luis Alberto entrega mal pra Palomino que aciona Muriel. A jogada termina no terceiro gol bergamasco (Foto: L’Ultimo Uomo)

A ideia de Luis Alberto, que já era pressionado por “Papu” Gómez, era provavelmente procurar a verticalização pelo meio, e acionar Correa, já obstruído por Palomino, que se antecipa, e a jogada termina com o gol do mesmo Papu, que marcou após uma assistência maravilhosa de Muriel o terceiro gol da Atalanta naquela tarde na capital.

Neste jogo, também há uma imagem que explica como funciona a pressão alta ofensiva da Atalanta, especialmente de sua grande estrela: Papu Gómez, que já é conhecido pelo drible e pela sua facilidade de lançar companheiros, neste caso tem seu jogo facilitado por suas leituras de pensamento ágeis

O posicionamento de Papu Gómez, um pouco mais recuado e por muitas vezes a referência dos defensores na fase de construção (Foto: L’Ultimo Uomo)

Mesmo sendo atacado e pressionado mais rapidamente, a medida em que seus companheiros lhe fornecem as soluções corretas para troca de passes, Gómez consegue verticalizar facilmente e desencadear situações perigosas de ataque para os bergamascos.

Em meio a isso é fato que o jogo da Atalanta ficou mais visado. Especialmente após a goleada por 7–1 sobre a Udinese, os bergamascos enfrentaram times que souberam até certo ponto neutralizar suas ações ofensivas, como o Cagliari de Maran ou a Sampdoria de Ranieri.

Curiosamente, em ambas as partidas, como abordaremos mais adiante, a Atalanta perdeu um jogador por expulsão. Cagliari e Samp também apresentam esquemas que fortificaram seus meio-campos, uma com um 4–3–1–2, e outra com um simples 4–4–2, respectivamente, que neutralizaram o ataque da Dea.

É bem verdade que são adversários, especialmente o Cagliari de Maran, que notabilizaram-se por saber neutralizar equipes ofensivas, que na pior das hipóteses para os sardos, conseguiram tirar vitórias suadas, como a Juventus na temporada passada, a Inter de Conte ou mesmo o Napoli de Ancelotti na temporada anterior, mas que foi vencido na atual. 

Neutralizando times como a Atalanta através de uma forte marcação no meio-campo, e com um sistema defensivo muito bem organizado, que embora Ranieri não queira copiar em sua Sampdoria, também conseguiu executar contra a Dea.

As próximas rodadas da Serie A dirão se estes serão passos em falso na caminhada pela permanência na Champions League, ou se acabaram virando uma maneira de neutralizar o poderoso ataque da Atalanta, que passaria a ter problemas além de seu outro problema: a defesa.

Toloi sobe na marcação contra Insigne. Palomino deixa Milik com mais espaços, e Djimsiti marca Lozano. O centro da defesa de Atalanta é desprotegido e atacado por Callejón, que passa rápido sobre Freuler pela direita. (Foto: L’Ultimo Uomo)

Repare neste lance contra o Napoli em como Toloi e Palomino abrem espaços pelo meio por conta dos encaixes individuais e permitem espaços para a criação napolitana. Isso se deve talvez ao estilo de jogo gasperiniano, como bem citou Fabio Barcellona, na sua análise de Napoli-Atalanta para o L’Ultimo Uomo:

“Para a equipe de Gasperini, tanto na defensiva quanto na ofensiva, é essencial vencer os duelos individuais que naturalmente derivam de marcações ao homem completas. E, consequentemente, à medida em que a qualidade individual dos adversários aumenta e seu desejo de driblar as marcações dos times de Gasperini, o sistema defensivo da Atalanta parece se tornar menos eficiente.”

Outro grande porém, agora mudando de competição, é que a Atalanta até consegue repetir suas boas atuações na Champions League. Mas algumas coisas dão errado demais na hora dos resultados finais, a ponto das goleadas sofridas pra Dinamo Zagreb (4–0) e Manchester City (5–1) terem deixado a Atalanta com poucas chances de classificação.

Mas como explicar uma diferença tão importante no desempenho entre jogos nacionais e europeus? É o hino da Liga dos Campeões que faz as pernas dos jogadores da Atalanta tremerem? Ou existe uma diferença de nível entre a Serie A e a Liga dos Campeões de que a terceira força da liga italiana pode ser uma equipe qualquer na derrota?

Muito foi escrito na Itália sobre como a Atalanta não conseguiu manter a mesma intensidade da Série A, simplesmente porque jogou com equipes capazes de competir com ele a esse respeito. Mas essa teoria não é confirmada pelos dados. 

Entre estes dados, está um importante: a Atalanta possui o terceiro melhor coeficiente de agressão da Champions League em 0,31, uma métrica que mede qual a proporção de passes de um oponente é pressionada agressivamente.

Certamente existem muitos fatores concomitantes para entender esses porquês, mas continuando a análise quantitativa, uma clara razão tática surge na base das dificuldades da Atalanta, basicamente na fase defensiva de jogo: o drible.

Qualquer pessoa que assista aos jogos da Série A, mesmo distraidamente, sabe que Gasperini usa marcações homem a homem durante todo o campo, especialmente durante a fase de pressão. Esse tipo de marcação origina uma série de duelos individuais em todo o campo. 

Se um oponente conseguir se libertar da marcação individual, ele pode desencadear uma reação em cadeia que pode desequilibrar toda a estrutura de Atalanta. Ao adotar um sistema de marcações flexíveis, os nerazzurri ainda podem se adaptar, alterando as atribuições de marcações na corrida. 

Mas toda vez que um defensor é superado, a situação pode se tornar catastrófica. E isso em uma defesa que não é conhecida pela agilidade de seus integrantes, se torna um grave problema quando o adversário joga com a bola nos pés.

E na Liga dos Campeões, os nerazzurri foram driblados muitas vezes. Não é necessário haver um gênio tático como Pep Guardiola para analisar o jogo ocorrido em Manchester, mas o próprio Pep disse: “Quando conseguimos chegar ao último terço do campo, ali há um homem contra um homem e, se você vencer um duelo, terá oportunidade [de gol]”.

Outro ponto desses problemas no jogo da Atalanta foi visto diante do Shakhtar, em Milão, aqui, outra vez Fabio Barcellona destaca:

Na fase sem a posse de bola, a Atalanta quer participar de duelos individuais em todo o campo, jogando antecipadamente e ignorando a manutenção da estrutura defensiva do seu 3–4–1–2 teórico. Um sistema desse tipo, jogado pela Atalanta de maneira extrema, é particularmente sensível ao resultado dos duelos individuais envolvidos e, em outros aspectos, sujeita os jogadores a um alto estresse na tomada de decisão, considerando que, de maneira reativa, todas as opções defensivas são fortemente influenciadas não pela manutenção de uma estrutura definida e, portanto, ordenada e clara a priori, mas pelas escolhas dos adversários.

As outras equipes da Serie A obviamente perceberam como o drible pode ser uma arma fundamental contra a Atalanta, que é o time contra o qual mais dribles se era tentado liga até a 9ª rodada (23,11 por jogo). No entanto, o Dínamo Zagreb, o Shakhtar Donetsk e o Manchester City adotaram a mesma estratégia, tentando ainda mais o drible (31,67 em média, é claro, o número mais alto nesta edição da Liga dos Campeões), como bem ressaltado pelo texto de Flavio Fusi no L’Ultimo Uomo.

Média de dribles dos adversários nas três primeiras rodadas de Champions League (via: StatsBomb/L’Ultimo Uomo)

Alguns pontos existem em comum entre os times da Serie A e da Champions. Primeiro, a característica da Atalanta, que talvez explique até o declínio nos últimos quatro jogos sem vitória. Em tempos de uma maratona de jogos, a situação fica mais complicada pra um time que depende de estar “tinindo” do ponto de vista técnico e mental pra funcionar bem.

É bem verdade que a ausência de Zapata pesou muito para a Dea nesse período recente. Muriel tem algumas das características terminais de seu compatriota? Tem. Mas a presença de Duván, colabora por exemplo, para uma supremacia territorial em campos adversários que seus substitutos até agora não demonstraram ter.

Uma pista pode ser a questão mental nos momentos de dificuldade, que foi sentida na Champions League nas derrotas sofridas, como foi sentida também, por exemplo, na derrota até certo ponto surpreendente diante do Cagliari pela Serie A. 

Parece estranho dizer sobre indisciplina, mas as vezes acontece em momentos de dificuldade, curiosamente com a segunda equipe mais bem disciplinada até o momento da liga (atrás do Parma). No jogo citado, medida em que o Cagliari fez 1–0, o time bergamasco ficou mais nervoso, tomou mais cartões, entre eles a expulsão de Ilicic por falta violenta. 

Fato que aconteceu também no empate por 0 a 0 contra a Sampdoria, com a expulsão de Malinovskyi. Curiosamente, ambos os adversários que souberam neutralizar o ataque nerazzurri com sistemas defensivos eficientes. Além disso, duas expulsões de dois jogadores que são peças ofensivas importantes para Gasperini. 

Outro ponto de questão mental, são os gols sofridos em curto espaço de tempo. Fatos que aconteceram contra o Torino e a Lazio na Serie A, com 2 gols em 10 minutos ou até menos, fatos que aconteceram contra Dinamo Zagreb e Manchester City na Champions League. O fato é que a Atalanta contra certas equipes, sofre o golpe e as vezes tende a sofrer mais ainda.

E sofrer golpes em sequência ajuda a derrubar até mesmo em situações perto de vitórias. Como principalmente no jogo citado contra a Lazio, que de um 3 a 0 administrável, virou um 3 a 2 em cinco minutos, e que no final, virou um 3 a 3 e dois preciosos pontos perdidos que lhe fazem falta na tabela do campeonato. 

São situações que o técnico Gasperini terá que gerir para que o sarrafo da Atalanta continue no mais alto nível possível, especialmente no momento em que é uma das equipes mais visadas do futebol italiano. E procurar uma perfeição digna de uma Dea (Deusa), como é conhecida a equipe de Bérgamo. 

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