A geração 2004 que chama a atenção no futebol profissional

Um dos temas mais abordados na coluna, especialmente após o estouro da pandemia pela Covid-19, é a tendência em vermos jogadores muito jovens “furando a fila” no futebol profissional. Se antigamente um jogador com 21 anos de idade era considerado jovem, atualmente ele já está na “última fronteira”. O “novo jovem” mesmo são os atletas sub-17, que nem adultos são.

A necessidade bateu a porta de algumas equipes para utilizar joias ainda mais novas nesse processo — a famosa geração 2004. Financeiramente, pelo hype ou até pelo nível de futebol, entre 2019 e 2020 alguns nomes ganharam minutos em suas equipes principais, tanto na Europa quanto na América do Sul. Aliás, Luka Romero, uma das maiores promessas argentinas, figurou aqui no começo da temporada.

Abaixo você verá alguns dos melhores nomes da geração 2004 que já estrearam profissionalmente e que merece a sua atenção.

Youssoufa Moukoko

Um dos eventos mais aguardados na Alemanha era o aniversário de Youssoufa Moukoko, que aconteceu no dia 20 de novembro. Ao completar 16 anos, o centroavante do Borussia Dortmund estava legalmente apto para estrear profissionalmente pela equipe do Vale do Ruhr.

Nascido em Yaoundé, capital de Camarões, Moukoko viveu no país africano até os 10 anos de idade. No entanto, em 2014, ele se mudou para Hamburgo para morar com o pai, que vivia na belíssima cidade portuária alemã desde os anos 1990. A jovem estrela começou a jogar futebol em solo germânico na base do St. Pauli, chamando assim a atenção do Borussia Dortmund. Sabidamente dono de uma rede de captação muito competente, o BVB se encantou com as proezas do menino de 12 anos de idade.

Moukoko é dono de vários recordes na base, como o mais jovem a disputar uma partida sub-17 da Bundesliga e o mais jovem a debutar na Youth League, com 13 e 14 anos respectivamente. Inclusive, o desempenho de Youssoufa na última edição da Youth League foi um grande aviso do que estava por vir.

Ao lado de Giovanni Reyna, que já é titular da equipe de Lucien Favre, Moukoko se notabilizou pela capacidade goleadora, sendo um finalizador muito frio e consciente. Além disso, a pérola do Dortmund é muito importante no aspecto tático por atacar e criar espaços na grande área. Na transição rápida, Moukoko também se destaca pela capacidade em recuperar a posse de bola já no campo de ataque.

Infelizmente, o jovem é alvo de racismo e dúvidas quanto a sua idade. Aos 16 anos, Moukoko mede 1,79m de altura e, mesmo jogando em categorias muito abaixo da idade, é evidente a proeminência física do centroavante. Internacionalmente, Moukoko está elegível para defender as cores da seleção alemã.

Aliás, devido a lesão de Erling Braut Haaland, é provável que o menino prodígio ganhe minutos como titular da equipe aurinegra em dezembro. Na vitória por 2×1 contra o Zenit, na Rússia, pela última rodada da fase de grupos, Moukoko debutou oficialmente na Liga dos Campeões ao entrar no lugar de Passlack no segundo tempo, tornando-se assim o mais jovem da história a pisar no gramado pela maior competição de clubes do mundo.

Ângelo e Savinho

A geração brasileira dos nascidos em 2004 é uma das mais elogiadas pelos especialistas em futebol de base no país. O título no Sul-americano Sub-15, em 2019, corroborou com essa expectativa que fora criada entorno dos atletas. Com a saída de Guilherme Dalla Déa do comando da seleção sub-17, Paulo Victor Gomes, técnico campeão do torneio mencionado acima, assumiu a vaga na categoria. Em sua primeira convocação, vários jogadores campeões com Gomes no sub-15 já figuravam na lista.

Dentre os vários atletas destacáveis, dois chamam a atenção um tiquinho a mais que os outros: Ângelo, do Santos, e Sávio, do Atlético-MG. Ambos são extremos, são canhotos, têm basicamente a mesma altura e já estrearam profissionalmente por suas respectivas equipes.

O elogiadíssimo tridente ofensivo da seleção sub-17 formado por Sávio, à direita, Matheus Nascimento, no centro, e Ângelo, à esquerda. Matheus Nascimento, inclusive, é outra enorme promessa do futebol brasileiro, que atua pelo Botafogo, e que já fizera sua estreia como profissional no clube carioca, porém, tendo somado apenas 13 minutos em duas partidas que saíra do banco de reservas.

Ângelo, natural de Brasília, foi captado pelo Santos quando tinha apenas 10 anos de idade. No clube desde o sub-13, a mais nova joia santista sempre atuou em categorias elevadas devido ao desempenho mostrado em campo. Em 2020, Ângelo foi alçado a equipe sub-20 com apenas 15 anos. Seria surpreendente analisando friamente os números, mas no campo – mesmo contra garotos muito mais velhos – a jovem pérola alvinegra justificava com gols, lances plásticos e maturidade.

Podendo atuar em qualquer um dos lados do campo, mas preferencialmente na direita como um ponta invertido, visando a finalização e a capacidade em utilizar o “pé fraco” nos cruzamentos, Ângelo demonstra agilidade para se desmarcar, inteligência de jogo para escolher a melhor jogada e têm a explosão física que o ajuda a vencer duelos na partida. Com 1,73m e um porte físico avantajado, a promessa não teve dificuldades para se adaptar a desafios maiores na carreira.

Todavia, a expectativa gerada em torno de Ângelo fez com que Cuca o promovesse a equipe titular e o utilizasse na partida contra o Fluminense, no Maracanã, quando a equipe santista perdera por 3×1. O ponta bateu o recorde de Pelé e hoje é o segundo jogador mais jovem a estrear profissionalmente com a camisa do Santos, ficando atrás apenas de Coutinho, que tinha 14 anos quando pisou no gramado, pelo alvinegro, entre os adultos. Ângelo estreou profissionalmente aos 15 anos e 10 meses de idade.

Essa ação gerou dúvidas quando a abordagem do clube. Por um lado, existe a teoria de que a utilização de Ângelo foi feita no afã pelas belas partidas que ele vinha fazendo na base santista no momento, mesmo após a saída de Rodrigo “Chipp” Casarin, ex-treinador da equipe sub-20, que o fez dar um salto no desempenho. Do outro lado, há a teoria de que o baixo desempenho coletivo da equipe sub-20 do Peixe poderia atrapalhar no desenvolvimento da joia, que precisa de competitividade.

Já o Sávio, natural de Duque de Caxias, está no Atlético-MG desde o sub-14. Sempre atuando com destaque nas competições nacionais desta categoria, Savinho entrou no radar da seleção, onde começou a elevar o desempenho. Acostumado a jogar com e contra jogadores mais velhos, não demorou muito para a joia atleticana ganhar a titularidade na equipe sub-17 durante o Brasileiro.

Após a pandemia, Sávio já estava na equipe de transição do Galo, e conseguiu chamar a atenção de Jorge Sampaoli, um treinador que custa a dar oportunidades para jovens estrelas. Veloz, corajoso e com uma capacidade estonteante nos dribles, o ponta recebeu sua primeira oportunidade na vitória do Atlético Mineiro contra o Atlético Goianiense no primeiro turno do Brasileirão. Na ocasião, o garoto, que fez uma exibição muito boa, quase saiu de campo com gol.

Assim como Ângelo, Sávio também é muito maduro nas tomadas de decisão. Influenciado por um bom corpo de treinadores no Atlético, a grande promessa da equipe de Belo Horizonte é lapidada cuidadosamente. Na seleção sub-15, Savinho costumava atuar pela direita enquanto Ângelo caia mais pela esquerda, porém, devido a facilidade em jogadas individuais em qualquer banda, os dois costumeiramente trocam de lado para confundir a marcação adversária.

Julio César Enciso

As coincidências entre Ângelo e Sávio se entrelaçam com outra grande promessa do futebol sul-americano. Trata-se de Julio César Enciso, 16 anos, do Libertad. Rival da dupla brasileira nos amistosos preparatórios para o Sul-americano Sub-15 e posteriormente na competição, que aconteceu no Paraguai, o então camisa 7 da Albirroja deu um trabalho tremendo para a defesa canarinho.

Homônimo de Julio César Enciso, que defendeu as cores de Cerro Porteño, Internacional, Olimpia, 12 de Octubre e da seleção paraguaia, o jovem nascido em 2004 não tem nenhuma relação com o antigo volante.  Aliás, a semelhança fica apenas por conta do nome, pois Julito é um jogador ofensivo, de dribles estonteantes, arremates de longa distância com a perna direita e com grande velocidade.

Antes de chamar a atenção nos confrontos contra o Brasil, Enciso já havia estreado pela equipe profissional do Libertad na primeira divisão. Com apenas 15 anos, a joia entrou em campo contra o Deportivo Santaní, na vitória por 4×0 dos Gumas. Na ocasião, Enciso atuou por cerca de 30 minutos, criou a jogada do quarto gol e ainda meteu um elástico à la Ronaldinho Gaúcho no defensor adversário.

Entretanto, devido aos problemas na comissão técnica do Libertad, Julio César Enciso acabou por ser utilizado em apenas três partidas em 2019, todas no começo do ano passado. É importante salientar que as promessas guaranis estão estreando cada vez mais cedo no campeonato paraguaio. Fernando Ovelar foi lançado profissionalmente com 14 anos pelo Cerro Porteño, Hugo Quintana – hoje emprestado ao Palmeiras – com 16 anos e Ivan Franco, do próprio Libertad, com 17.

Óscar “Tacuara” Cardozo (37 anos) e Julio César Enciso (16 anos) celebrando juntos um gol. O lendário centroavante paraguaio já era profissional quando a maior promessa do país estava nascendo. Foto: Reprodução.

Ressuscitado por Ramón Díaz e apadrinhado por Gustavo Morínigo, atual treinador dos Gumas, Enciso anotara seu primeiro gol como profissional em setembro passado, na vitória por 3×0 sobre o Sportivo San Lorenzo, na estreia do ex-treinador da seleção sub-20/17, em uma jogada clássica: o pibe pegou a bola na ponta esquerda, deixou dois marcadores para trás com um corte rápido e seco para dentro e finalizou forte no canto esquerdo do goleiro adversário.

Na partida de ida pelas oitavas de final da Libertadores, contra o Jorge Wilstermann, Morínigo lançou Julio Enciso logo na volta do intervalo. Um minuto após a partida reiniciar, o fenômeno paraguaio recebera a bola na esquerda, acionou o turbo e arriscou de fora da área para abrir o placar. Ele deu um pouco de sorte porque a bola desviou no zagueiro? Sim, mas só vence aqueles que arriscam. E Enciso fora fundamental para a construção do placar de 3×1, que deu uma bela folga para os Gumas na volta, que se classificaram para as quartas de final.

Apesar do Paraguai estar um pouco longe de oferecer as melhores condições para o desenvolvimento das jovens estrelas, Julio César Enciso possui todas as ferramentas necessárias para continuar atuando profissionalmente. Confiante, habilidoso, bom físico e, acima de tudo, focado, a joia gumarela merece a nossa atenção.

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Caio Nascimento

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