Ao contrário de Sarri, Lampard transforma o Chelsea para melhor

A lenda dos blues deu nova vida para um time e um ambiente que precisavam de mudanças.

Após um bom trabalho no Napoli, onde por pouco não quebrou a hegemonia da Juventus, Maurizio Sarri chegou em 2018 prometendo revolucionar o Chelsea. Pregava o jogo bonito, ofensivo, ‘progressista’. O time conhecido por um pragmatismo que muitas vezes trazia estratégias com ênfase no aspecto defensivo estava preparado para se abrir a novos caminhos.

Ou achava que estava. Ou não imaginava que esses caminhos poderiam ser negativos. No fim das contas é uma soma de fatores, mas a realidade é que o italiano voltou para seu país natal após uma temporada que não vai deixar saudades – apenas por ter sido a última de Hazard, peça que salvou a pele do treinador mais do que deveria. O belga se obrigou a assumir um papel que raramente era preciso.

Com Sarri, a dependência em Hazard atingiu níveis extremos (Foto: Reprodução/Chelsea Fans Brasil)

Se costumeiramente esteve cercado de uma boa estrutura para florescer, o agora craque do Real Madrid teve que se desdobrar para tirar coelhos da cartola. Conseguiu, mas isso porque o time era tudo menos surpreendente ou ‘disruptivo’. Suas táticas voltadas para mecanismos rígidos engessou um clube que gostava da liberdade intuitiva nas tomadas de decisões.

Mesmo com as outras formas de rigidez que Mourinho e Conte traziam, os atletas tinham um incentivo maior para agirem como achassem necessário durante as situações de jogo. Com Sarri, o sistema virou uma prisão e culminou em uma previsibilidade que facilitava o trabalho dos adversários. Eram atuações ensaiadas, mas a um nível tão extremo que quem estava do outro lado enxergava exatamente o que precisavam fazer para anular.

“Nós jogamos da mesma forma fora contra o Manchester City e em casa contra o Huddersfield, com as mesmas táticas. Se você assistisse a uma partida da nossa temporada, teria assistido a 50. Sabiam como jogar contra a gente”, disse Rob Green, terceiro goleiro em 2018/19.

Teve vaga pra Champions League, título da Europa League e algumas boas partidas, mas ainda longe da transformação positiva que havia sido prometida. E sem sinais de que ela realmente aconteceria. Afinal de contas, os problemas não foram só dentro das quatro linhas. Jovens de talento como Hudson-Odoi estavam do lado de fora pedindo passagem e, em geral, não recebiam chances.

Hudson-Odoi por pouco não renovou, mas agora é um dos melhores jogadores da temporada (Foto: Reprodução/Twitter)

“Eu falei para o Chelsea nunca perder Hudson-Odoi, porque ele seria o novo Hazard. Mas Marina (Granovskaia, diretora) disse que ele não queria renovar. O motivo? Porque Sarri não o escalava. Então foi obrigado a lhe dar chances e ele foi seu melhor jogador”, palavras de Piet di Vissier, conselheiro do clube.

O que a equipe mais precisava era de mudanças, então soma-se as situações e era o cenário perfeito pra buscar esse diferencial. Mas as coisas não se alteravam. Era toda semana a mesma escalação, o mesmo plano de jogo, a mesma performance sonolenta e as mesmas justificativas. O elenco precisava se adaptar à filosofia do seu comandante, que segundo alguns jornalistas cogitou sacar Hazard temporariamente por ele não estar respeitando suas instruções.

Como você pode imaginar, o ânimo não era dos maiores. Maurizio trocou Londres por Turim, assumiu a Juventus e abriu as portas para o retorno de uma lenda dos blues. Frank Lampard chegou com algumas contestações, muito por ter deixado certas dúvidas enquanto treinou o Derby County, mas a escolha não poderia ter sido melhor. A cada dia vai ficando claro que era o cenário perfeito para ele.

O Chelsea precisava – agora sim – de uma transformação na equipe, a inclusão de suas promessas, o desenvolvimento de um clima mais positivo e a capacidade para lidar com uma proibição de agir na janela de transferências. O ex meio-campista tratou de trazer de volta aquilo que sempre fez bem ao clube.

Lampard combina com o Stamford Bridge como poucos. E faz um bom trabalho por lá (Foto: Reprodução/The Top Flight)

A previsibilidade deu lugar à flexibilidade, marcada pela maneira que uniu a escolha por um sistema padrão com a disposição em fazer mudanças quando necessário. O ritmo lento e condutivo ao sucesso das defesas rivais foi embora e a diretriz agora é jogar com agressividade, energia e buscando o gol – lembrando seu próprio estilo como atleta.

Menos horizontalidade, mais verticalidade e a intenção de na prática ‘acordar’ uma instituição que procurava essa injeção de ânimo desde que os problemas com Conte apareceram em 17/18. Indica que geriu muito bem a ausência de reforços do mercado, utilizando peças que voltaram de empréstimo e construindo o caminho para outros prospectos da base.

Impressiona como os garotos formados em Cobham não se destaquem apenas pela técnica ou a execução dos fundamentos, mas tenham uma capacidade atlética acima da média para a idade. Abraham, Hudson-Odoi, Mount, Tomori e James são alguns exemplos que finalmente tiveram a oportunidade de demonstrar que têm perfil para contribuir no time principal.

São talentos que de certo modo trazem mais do que muita contratação poderia oferecer, valorizam o trabalho interno do clube e garantem a sobra de vontade dentro de campo. Assim como as novas estratégias, representam um fator importante para a característica de intensidade que busca o staff. O Chelsea está na quarta colocação na Premier League e lidera seu grupo na Champions com seus jogadores e sua forma de jogar, traçando identidade.

Jovens como Mount e Abraham finalmente estabelecem a ponte entre base e time principal nos blues (Foto: Reprodução/Stadium Astro)

Pontos fracos existem, claro. Jorginho, mesmo que esteja sendo mais útil com Lampard do que com Sarri – seu ‘mentor’ -, sofre sem a bola e a ausência de Kanté (lesão) torna frágil a proteção da defesa. Que vai precisar se reforçar quando possível. O ataque rende, mas bons times conseguem chegar na meta de Kepa sem tanta dificuldade e essa é uma área que precisará ser corrigido.

Pulisic ainda é uma incógnita e, se a decisão de não basear a escalação em nome ou em valores é acertada, em breve vão surgir questões mais fortes sobre o americano. Não encaixou como titular por adaptação ao país? Ritmo de jogo? Físico? Não vejo detrimento do conjunto continuar fora do radar, mas é algo que Frank terá de lidar. Felizmente para o torcedor, os indícios são de que o inexperiente técnico está construindo sua história com a melhor das atitudes.

Dando uma cara ao time, mas podendo usar outras sem perder a eficiência ou o senso de imprevisibilidade e agressividade. Fazendo o que é necessário e preterindo medalhões por meninos que já os superam em vários quesitos. Cuidadoso, mas sem medo de errar. Ciente das limitações do plantel, mas positivo e um combustível para o desenvolvimento dos jogadores. E responsável por resgatar a confiança de um clube que precisava se mexer. Agora tem um comandante disposto a isso.

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Lucas Filus

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