Arthur Elias e seu arsenal de possibilidades

Com um grupo bastante completo, o Corinthians de Arthur Elias retornou muito forte no Brasileirão

Arthur Elias é o técnico do Corinthians desde a reativação do time feminino em 2016. Com o clube, conquistou uma Copa do Brasil, um Campeonato Brasileiro, um Paulista e duas Libertadores. Foram cinco títulos em 4 anos. Em 2020, após viver um 2019 espetacular — conquistando a segunda Libertadores, o primeiro paulista da história do clube, sendo vice-campeão brasileiro e entrando pro Guiness Book após bater recorde de número de vitórias consecutivas (34) —, o Corinthians iniciou o Brasileirão como amplo favorito a conquista do título. 

Ao contrário do que se esperava, o time alvinegro não sobrou nas primeiras rodadas. Venceu três partidas em sequência jogando no automático, e enfim perdeu a invencibilidade de 44 jogos após ser derrotado pelo São Paulo em uma atuação irreconhecível. A partida seguinte prometia dores de cabeça para uma equipe ainda tentando encontrar seu melhor nível e após sofrer uma derrota amarga. Nada além do que uma embalada e ainda mais forte Ferroviária (algoz do Brasileirão na temporada anterior) buscando sua quinta vitória consecutiva no campeonato. 

Um dia antes da partida, porém, foi anunciada a paralisação do futebol brasileiro e o país entrou em quarentena. Nesse período, o Corinthians perdeu (de novo) a artilheira Millene, que havia se transferido para o futebol chinês e retornado justamente em decorrência da pandemia, mas nem chegou a reestrear na equipe. Por outro lado, ganhou o reforço de Yasmim, que estava no Benfica; contou com mais tempo para o retorno de Gabi Nunes, que estava no departamento médico há quase 1 ano; além de Adriana, que já havia voltado para equipe mas ainda muito fora de ritmo.

O cenário antes da parada não era favorável, ainda que com bom aproveitamento no campeonato. O ponto de interrogação estava instaurado na cabeça do torcedor: haveria o Corinthians caído de nível em relação a 2019? os adversários teriam aprendido a anular os pontos fortes da equipe e agora tudo seria mais difícil? e a resposta a essas perguntas até poderia ser simplesmente sim, mas não para um time comandado por Arthur Elias.

A volta avassaladora do Corinthians de Arthur Elias após a paralisação

Era possível acompanhar pelas redes sociais das atletas do Corinthians o alto nível de preparo físico que elas se submetiam para manter a forma — e o resultado foi visto logo na primeira rodada após a paralisação. O tão esperado e temido jogo contra a Ferroviária aconteceu, e a equipe do Arthur Elias não tomou conhecimento do adversário. 

Após se enfrentarem em duas finais em 2019 e também disputarem uma semifinal de campeonato paulista, Tatiele Silveira, técnica da Ferroviária, e Arthur Elias sabiam que seria mais um jogo de xadrez e que levaria vantagem àquele que mantivesse o mais alto nível de concentração e intensidade.

O Xeque de Tatiele

Ao contrário do 4-3-3 que desfilou bom futebol nas primeiras rodadas, Tatiele postou sua equipe no velho 4-4-2 defensivo em bloco médio, visando controlar o jogo pelo meio. Sabendo que esse é o desenho base do Corinthians e da saída de 3 do jogo do Arthur Elias, com a volante Zanotti buscando a bola entre as zagueiras, a intenção da equipe grená talvez fosse limitar as opções de passe da equipe corinthiana, forçando os lançamentos longos ou os erros ao tentaram sair jogando pelo chão. 

Ferroviária no 4-4-2

O Mate de Arthur Elias

Povoar o jogo pelo meio em momento defensivo, e permitir liberdade das jogadoras do setor em se movimentar para construir as jogadas, confundindo a marcação adversária quando tem a bola, são características marcantes da Ferroviária. Sabendo disso, o Arthur Elias mudou um pouco sua formatação e estratégia. Diferente do que o time visitante esperava, o Corinthians começava as jogadas com a Zanotti mais avançada, e a saída de 3 deu lugar ao 2+4, com a dupla de zaga sendo responsável por iniciar as construções.

Saída 2-4 do Corinthians

O meio de campo então ganhava igualdade numérica, e com uma intensidade bem acima da Ferroviária, o Corinthians conseguia se movimentar e construir linhas de passe pelo meio e pelos lados, não apenas por estar voando fisicamente, mas por outro ponto fundamental da estratégia: Giovanna Crivelari.

O 4-4-2 tão característico do Corinthians deu lugar ao 4-5-1, com a Crivelari atuando mais recuada, e não ao lado de Adriana como era o esperado. Sua função no jogo era se movimentar e estar presente no setor da bola tanto em momento ofensivo quanto em momento defensivo, e ela o fez com maestria até ser substituída no segundo tempo — algo planejado já que vencer o jogo era fundamental, e Arthur Elias sabia que exigiria muito da camisa 19, sendo impossível atuar mesma forma os 90 minutos depois de 5 meses sem jogar.

Flutuando por todos os setores do campo, Giovanna Crivelari permitia ao Corinthians superioridade numérica no setor da bola, e foram longos minutos da Ferroviária tentando encaixar a marcação e equilibrar as ações em campo, mas fora alguns momentos de incômodo a partir da participação de Aline Milene, a equipe grená não conseguiu ser competitiva na partida.

A intensidade

O Corinthians talvez seja o time mais intenso da América do Sul, e não havia atingindo alto nível nesse sentido antes da paralisação. Além disso, muito confortável no jogo com Millene na referência, a equipe ainda sofria para gerar profundidade e incomodar a zaga adversária.

O sistema defensivo do Corinthians é, antes de mais nada, ter o controle do jogo a partir da posse da bola. O time não fica confortável sem ela, e mesmo sabendo se defender, busca recuperá-la o mais rápido possível e voltar a controlar as ações. A pressão pós-perda e compactação das linhas, além da sincronia dos movimentos das jogadoras é fundamental para o time jogar bem, e dentro desse contexto, a principal substituta da Millene, Adriana, ainda sofria para comandar o ataque. Andressinha, reforço antes da temporada começar, também oscilava bastante, principalmente no momento sem a bola. Juliete e Pardal, pilares do time de recordes em 2019, começaram a temporada bem abaixo do restante da equipe.

Na volta da paralização, porém, o time parece estar em 2019, mas com ainda mais argumentos de jogo que antes. A falta de intensidade da Andressinha sem a bola pode até não ter sido resolvida completamente, mas a jogadora já demonstra evolução nas mãos do Arthur Elias, e vêm sendo titular com méritos ao lado da experiente e onipresente Gabi Zanotti.

Talvez a melhor versão da camisa 10 do Corinthians em toda sua carreira seja a dos últimos anos, atuando como 1º volante. E por mais que a atleta já tenha 35 anos, parece viver seu auge técnico, tático e também físico. Há muito é quem dita o ritmo da equipe alvinegra de área a área, mas acumulando tantas responsabilidades iniciando as jogadas do time ou protegendo a área dos contra-ataques rivais, a falta de participação direta em gols era recorrente. 

A partir do encaixe da Andressinha na equipe, fazendo compensações com a Zanotti, sendo também essa volante que inicia as jogadas e atingindo um maior nível de intensidade sem a bola, a Gabi Zanotti se tornou uma versão ainda melhor de si mesma. Além de ditar o ritmo, ganhou campo de ação para ser mais frequente no último terço e participar mais ativamente dos gols a partir de assistências ou balançando as redes ela mesma.

Adriana, que no início do ano era até facilmente controlada pelas defensoras de costas para o gol, na volta da paralização é um trator. Além de incomodar muito com sua velocidade e dribles, permitindo uma dinâmica muito maior ao ataque corinthiano.

Elenco robusto

Na última convocação, nada menos que sete titulares do Corinthians apareceram na lista da técnica Pia Sundhage. A goleira Lelê, a dupla de zaga Érika e Pardal, as meio campistas Tamires, Andressinha e Vic Albuquerque e a atacante Adriana

Para compensar, Giovanna Crivelari entrou em campo contra o Iranduba na referência de ataque, Cacau e Gabi Portilho ganharam a titularidade jogando abertas, Mimi e Campiolo formaram a dupla de zaga, e Ingryd e Grazi substituíram Andressinha e Vic Albuquerque

Ingryd, cumprindo a função da Andressinha — ainda que tenha características um pouco diferentes — foi a melhor em campo. Uma reserva de luxo que seria titular em qualquer time do Brasil, mas no Corinthians, por enquanto, é a jogadora que assegura o alto nível técnico pelo meio de campo mesmo quando a equipe está desfalcada. Enquanto Andressinha tem maior capacidade de sair jogando, acionar a companheira melhor posicionada a partir de passes longos e progredir em campo com associações rápidas, Ingryd tem mais facilidade em carregar a bola, proteger a posse e distribuir o jogo no último terço, além de recompor defensivamente de maneira mais efetiva.

Giovanna Crivelari, um dos nomes menos badalados do ataque corinthiano, é talvez a atacante mais completa não só do Corinthians como do futebol brasileiro. Seja como segunda atacante criando jogadas para a centro-avante ou atacando os espaços criados pelo pivô da jogadora de referência, seja atuando como meia e permitindo ao Corinthians muito equilíbrio ofensivo e defensivo, ou seja na referência de ataque, Giovanna Crivelari influencia e muito o jogo do Corinthians, mesmo quando não é a protagonista do jogo. Outro fator que pesa muito a seu favor: ela é decisiva. Não à toa fez os gols que colocaram o Corinthians em vantagem tanto na final da libertadores de 2019, como no primeiro jogo da final do histórico paulista contra o São Paulo no ano passado. 

Cacau é experiente e conhece o Arthur Elias como poucas, entra em campo, sabe o que fazer o faz bem, brilhando com gols ou não. Gabi Portilho, mais um reforço para essa temporada, é outra atacante de alto nível para o plantel corinthiano. Conhece os atalhos da grande área e é muito acima da média jogando em espaço curto, tem o 1×1 muito apurado e gera muito jogo em seu setor.

A dona do time

Gabi Zanotti, camisa 10 e faixa, possivelmente a jogadora mais regular do Brasil. Fundamental para sair jogando, onipresente atacando ou defendendo. O grande destaque do Corinthians pós paralização e a dona da equipe há anos. Potencializa todo o time, faz a engrenagem funcionar, dosa a intensidade, o ritmo e encaixa suas jogadas a partir de uma leitura de jogo muito acima da média para saber o momento e a condição certa de inverter jogadas, retornar a bola, se apresentar para ser apoio, iniciar a movimentação da pressão pós perda, controlar os espaços em transição defensiva, enfim, uma meio campista completa.

As dores de cabeça do Arthur Elias são aquelas que todo técnico quer ter: que titular eu tiro para colocar a outra titular que está no banco? E assim o Corinthians voltou da paralização com 100% de aproveitamento. Foram 6 jogos, 6 vitórias, 16 gols marcados e apenas 2 sofridos. Os 16 gols foram assinalados por 12 jogadoras diferentes, o que mostra uma não dependência do time em poucos nomes decisivos que balançam as redes.

Gols do Corinthians:

3 – Adriana (titular)

2 – Zanotti (titular) e Portilho (reserva)

1 – Tamires (titular), Vic Albuquerque (titular), Andressinha (titular), Erika (titular), Crivelari (titular), Cacau (reserva), Pamela (reserva), Ingryd (reserva), Paulinha (reserva)

Ou seja, das 12 jogadoras que marcaram gols desde a volta do campeonato brasileiro, sete são titulares e cinco são reservas. Elenco equilibrado, o que permite ao Arthur Elias rodar o time e manter o alto nível mesmo quando sofre desfalques.

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Giselle Andreolla

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