Caputo: o “bomber di provincia” do Sassuolo conseguirá chegar até a Euro?

Francesco Caputo, atacante do Sassuolo, deixou um bom número de gols na última Serie A e foi lembrado por Mancini; ele pode sonhar com a Euro 2021?

O futebol italiano tem um tipo de figura curioso ao longo da história, especialmente a partir dos anos 90, que são os “bomber di provincia”, que nada mais são do que os atacantes artilheiros dos clubes normalmente de cidades menores, que por via de regra não frequentam as primeiras posições da Serie A, ou mesmo que frequentem a ponta da Serie B.

Em alguns casos ao longo da história jogadores de grandes equipes do país em tempos de dificuldade mantiveram seu status de “bomber di provincia” nelas, já que seus clubes, mesmo grandes, estavam na Serie B ou na Serie C, jogando contra equipes menores, mas com seus artilheiros garantindo gols que auxiliaram o acesso delas.

Estes foram os casos de Schwoch, que depois de ser matador de província no Vicenza, manteve seu status nos tempos de Napoli na Serie B, e posteriormente no Torino. O de Ferrante, já com o Torino. E Riganó, na Fiorentina nos tenebrosos tempos de Serie C e Florentia Viola, tiveram seus momentos de serem considerados “bomber di provincia” mesmo jogando em grandes clubes

Nota: para explicar o fenômeno, vale essa info-matéria de L’Ultimo Uomo sobre alguns deles).

Mas alguns outros jogadores provaram a história dos artilheiros de província em sua essência, longe das grandes cidades e grandes torcidas, como o caso de Igor Protti e Dario Hubner, os dois únicos a serem artilheiros das três principais divisões italianas, e que são a definição do que são os “bomber de provincia” em forma de jogadores, com seus grandes momentos, especialmente em Bari e Brescia, respectivamente. 

Protti teve oportunidades em grandes equipes e não tiveram tão bons momentos, com Protti tendo tido problemas no Napoli, mas destes “bomber di provincia”, vale destacar o sucesso de Nicola Amoruso, que além de artilheiro de equipes menores, marcou seus gols na Juventus, ou Cristiano Lucarelli, que mesmo fazendo gols no Torino e em outros clubes como a Atalanta ao longo da carreira, não largou o seu amor pelo Livorno. 

O fenômeno foi aos poucos se extinguindo, seja pela necessidade de mais recursos técnicos que acabou por muito tempo entre os anos 2000 e 2010 se reduzindo, seja pelo fato de que os centroavantes precisam ter um maior papel de jogo e que as fases ofensiva e defensiva não são mais separadas como antes, e seja pelo fato de que financeiramente muitas equipes não tem mais como bancar esse tipo de jogadores, ou até mesmo, para os românticos, que o “amor foi embora”.

Além disso, é um fator que tem sua explicação auxiliada em vista de que a aposta de equipes da elite ou mesmo da Serie B por atacantes italianos sempre costuma ser tardio, visto a lista da atual temporada ser dominada por atacantes acima dos 25 anos, dentro e fora da Itália. O italiano mais jovem entre os artilheiros da A foi Petagna, da Spal, que marcou 12 gols e completou 25 anos recentemente. 

Essas características podem ser muito bem descritas na atualidade para um atacante italiano, veterano como estes em seu sucesso, de características simples, e que tem feito sucesso no Sassuolo, uma equipe longe dos grandes centros e das grandes torcidas do futebol italiano, por isso. Ele é Francesco Caputo, de 33 anos.

Aparentemente poderia ser um italiano comum, um grande apreciador de cervejas artesanais, com uma cara não destacável e um jogador comum em vista de que seu jogo não apresenta muito mais além do que as suas finalizações a gol. Um atacante que tem só a sua terceira temporada na elite do Calcio em 15 temporadas de carreira (irá para a quarta geral e terceira consecutiva em 2020–21). 

É bem verdade que seu estilo matador, e de bom finalizador já vinha tendo sucesso nas divisões inferiores, teve no acesso do Empoli a elite em 2017–18, e continuou tendo mesmo com o rebaixamento dos toscanos na temporada 2018–19, em que marcou 16 gols na elite. 

Mas Caputo pode ser explicado além disso tirando os olhos da bola. Há jogadores que são mais bem observados quando estão sem a bola, quando seus companheiros (ou adversários) a movem, e quando estão olhando para longe dos olhos que todos veem, e neste caso realmente se entende sua influência no contexto de uma partida, porém, isso também é mais difícil de passar ao público em geral. 

Alguns lances podem provar a utilidade do atacante para o jogo do Sassuolo na temporada 2019–20. Vamos citar um dos gols neroverdi no 3–3 diante da Inter em San Siro, em um dos melhores jogos de Caputo na temporada, e em um dos seus 21 gols no campeonato:

Quando Muldur parte da direita pro meio com a bola, e Djuricic ganha de Gagliardini e se desmarca, a defesa interista não nota o movimento de Caputo, que, em sua versão “dourada”, passa em velocidade já ganhando de Ranocchia e Bastoni, e enquanto Djuricic carrega a bola, está livre entre três interistas, e recebe na cara do gol pra marcar.

Vale destacar a opção inteligente de Caputo ao finalizar, tendo em vista que com Handanovic caído, mesmo que o esloveno esteja no chão, o goleiro é alto demais pra se tentar um chute por cobertura, o que fez o artilheiro tentar um chute rasteiro pra marcar, e com sucesso. 

Caputo Sassuolo
Frame do começo da jogada do primeiro gol do Sassuolo nos 3–3 diante da Inter: todos olham Djuricic, mas é Caputo (em vermelho), quem parte livre em velocidade. (Foto: L’Ultimo Uomo)

Este lance demonstra a inteligência do atacante não apenas na maneira de finalizar, mas muito principalmente pela maneira do desmarque e pela velocidade contra alguns zagueiros, mesmo sendo um homem de 33 anos de idade. 

Vale também destacar que essa velocidade e até mesmo um bom drible foi visto com alguns belos gols dentre seus 21 gols na temporada, como se pode ver no vídeo com seus gols na competição. Entre eles, alguns de seus mais belos gols com dribles em velocidade contra zagueiros de Bologna e Roma, além dos seus gols tradicionais de oportunismo:  

Caputo sobrevive muito porque tem alguns fatores de jogo que os antigos bomber de província não tinham. Se antigamente os centroavantes podiam se poupar fisicamente esperando a melhor oportunidade para atacar, hoje participam mais do jogo.

O texto de Daniele Manusia para L’Ultimo Uomo sobre ele tem um trecho que destaca bem seu jogo:

Caputo não tem os meios atléticos ou técnicos para transformar essas leituras em algo tão devastador como Cristiano Ronaldo ou Immobile, para representar uma ameaça cada vez que a bola atingir sua área. O seu talento é mais próximo do de Filippo Inzaghi: a capacidade de se encontrar no lugar certo na hora certa e, ao mesmo tempo, de se adaptar à situação.

Caputo não vence os duelos que enfrenta, os evita, não vence seu marcador no um contra um, ele escapa dele. Ainda que aproveite ao máximo o corpo, com proteções inteligentes nas quais entra em contato com o adversário e o utiliza como pivô para se movimentar, Caputo faz um jogo secreto de esconde-esconde com o adversário. É o que fazem todos os grandes atacantes.

Muitos poderiam considerar a temporada de Caputo como consequência do Sassuolo de De Zerbi, como já abordamos as táticas do time e a importância do atacante. Seria um paradoxo, considerando o quanto de trabalho está por trás desse momento incrível em sua carreira, especialmente tendo em vista a boa fase dele no Empoli já nos tempos da elite. 

Quantos anos ele passou nas profundezas do futebol italiano (a partir da primeira categoria), para se acostumar a jogar na beira de uma linha de impedimento, para atacar em profundidade, procurando o ar para se desmarcar e respirar longe dos defensores, pensando em cada jogada antes mesmo de a bola cair em seu pé, sempre fazendo a jogada mais simples, até chegar a elite e brilhar nela.

Em meio a isso, Caputo pode sonhar com a Euro 2021? Tudo indica que sim, tanto que foi convocado para as primeiras partidas da Nations League deste ano contra Bósnia e Holanda. Tudo depende da adaptação do jogador ao esquema de Roberto Mancini.

Algo a se sonhar por uma adaptação é em vista que a Azzurra joga no mesmo módulo de 4–3–3 em que o Sassuolo joga, embora evidentemente tenha funções diferentes. Mas para se manter lá, além de desempenhar bem quando convocado, ele precisa se manter prolífico frente aos adversários da Serie A.

É bem verdade que o esquema ofensivo do time de De Zerbi pode ajudar nesse quesito, produzindo mais gols ao artilheiro, mas a disputa com nomes mais jovens e consolidados na seleção, como Immobile e Belotti, pode pesar contra o veterano artilheiro. 

Por outro lado, o artilheiro neroverdi fez mais gols que Belotti na Serie A em 2019–20, o que pode ser um bom caminho para sonhar em estar na lista dos 23 da Euro itinerante. Basta se manter no ritmo na atual temporada, que o artilheiro pode continuar sonhando com a Azzurra. 

E o Sassuolo poderá continuar sonhando com os gols de seu “bomber di provincia” moderno. Para a Serie A, o sucesso de Caputo pode representar o renascimento desses artilheiros, um pouco mais veteranos, e que garantem os gols de uma equipe ao longo da temporada. É esperar pra ver. 

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Caio Bitencourt

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