DALIC DESENHOU UM PLANO MEMORÁVEL, MAS DESCHAMPS RESPONDEU À ALTURA

Por @FilusLucas A Croácia chegou na decisão apresentando fatores curiosos. Por um lado se via um elenco extremamente capacitado, intenso e preparado para superar qualquer adversário. Por outro, ainda existia a sensação de que Zlatko Dalic não tinha encontrado um padrão para seus comandados serem superiores diante de várias formas de jogo. Isso ficou claro […]

Por @FilusLucas

A Croácia chegou na decisão apresentando fatores curiosos. Por um lado se via um elenco extremamente capacitado, intenso e preparado para superar qualquer adversário. Por outro, ainda existia a sensação de que Zlatko Dalic não tinha encontrado um padrão para seus comandados serem superiores diante de várias formas de jogo. Isso ficou claro nas partidas contra Dinamarca e Rússia, quando foram negados pela organização alheia e a escassez de uma conexão particular.

Passaram nos pênaltis, viraram sobre a Inglaterra e alcançaram a vaga para a final. A opção do treinador foi por dar sequência ao que estava dando os resultados mais visíveis, com Brozovic no núcleo de um 4-3-3. Desde o início a intenção era agredir, partir pra cima e mostrar que não estavam ali por acaso. O papel do meia da Internazionale foi fundamental para o equilíbrio do conjunto, realizando suas ações conforme os movimentos dos companheiros mais ‘livres’.

Principalmente a parceria cerebral formada por Rakitic e Modric. Os dois foram essenciais no torneio e hoje bateram de frente com outra dupla de alto nível, Kanté e Pogba. Os franceses vinham se destacando pela aplicação defensiva e, por isso, poderiam ser uma ameaça para os croatas – visando a capacidade de quebrarem jogadas adversárias e lançarem suas próprias em questão de segundos.

A forma de abrir esse caminho passou pelo recuo constante dos atletas de Barcelona e Real Madrid, que participaram ativamente da saída de bola e controlavam o timing de suas ações no olhar dos marcadores. Com os articuladores oponentes tão longe, a reativa França ficou sem saber o que fazer; pressionava ativamente ou aguardava? Dentro desse cenário, os meias acabavam caindo na armadilha e agindo na intuição.

Os movimentos de Pogba ou Kanté eram os gatilhos para a ativação do momento ofensivo croata. Quando um subia a marcação, a bola era lançada e a estrutura para o prosseguimento do lance já estava armada. Nota-se isso pelo avanço gradativo de Rakitic ou Modric, um deles sempre pronto para conectar o ataque. Ao mesmo tempo, os laterais invadiam o último terço e ameaçavam a ultrapassagem. A postura corporal de Vrsaljko, constantemente visando a linha de fundo, sinalizava a existência de um artifício previamente ensaiado.

Os Bleus poderiam contrapor esse panorama com a velocidade de Mbappé nas costas dos laterais, mas o Golden Boy também estava preso à estratégia rival. A França tem um ‘formato’ que pende para a esquerda, contando com a recomposição diagonal de Matuidi, a tenacidade de Hernandez e o trabalho árduo de Griezmann. Na direita, a compactação é menor tanto vertical quanto horizontalmente. E o defensor por ali é Pavard, um defensor sólido, mas inexperiente.

O gol de Perisic foi um sopro de esperança na decisão.
O gol de Perisic foi um sopro de esperança na decisão.

Diante disso, Dalic instruiu o posicionamento ‘alto’ de Strinic e a aproximação de Rakitic. Soma-se ao perigo oferecido por Perisic – um dos melhores do mata-mata – e as eventuais corridas laterais de Mandzukic (como ele faz pela Juventus), a superioridade seria extrema. Mbappé, então, foi obrigado a recuar mais do que o normal e ajudar sem a bola. Em alguns momentos ele participou de divididas perto da bandeirinha de escanteio. Mesmo sendo um velocista nato, seu impacto nos contragolpes tinha sido (momentaneamente) inibido.

Outra prática croata foi superar as linhas adversárias com lançamentos pelo alto, seja para a ‘preparação’ do ato final (com pivôs e a escorada para os laterais) ou a tentativa direta (com cruzamentos da intermediária, pegando a defesa de surpresa). Essas bolas alçadas na área, além de realizadas em momentos inesperados, tinham um ‘embasamento’ forte por trás. Não era simplesmente uma questão de chegar ao gol o mais rápido possível, mas sim maximizar as características do plantel.

Mandzukic (1,90m), Rebic (1,85m) e Perisic (1,87m) são potências físicas e capazes de atuarem centralizados, então fazia sentido a junção do trio para envolver a dupla de zaga. A superioridade era numérica, no 3v2, ou qualitativa – visto que o ‘reforço’ que chegava para a defesa, através de Hernandez e Pavard, na maioria das vezes não dava conta dos duelos aéreos. O plano desenhado por Zlatko, portanto, foi muito bem pensado e executado até certo ponto. O desempenho agradava em organização e ritmo.

Só que do outro lado estava um rapaz também dotado de inteligência – e uma sintonia direta com seus comandados. Deschamps começou a colocar seu dedo no confronto quando, na situação supracitada dos cruzamentos, voltou a usar Pogba como um ‘zagueiro temporário’. Ele tinha cumprido esse papel contra a Bélgica de Fellaini e hoje novamente aparecia para encorpar a parte de trás. Com isso, Giroud dobrou sua carga na recomposição e ajudou a fechar as linhas de passe pelo centro.

Aos poucos, os azuis foram desmanchando os caminhos pretendidos pelos alvirrubros. O ímpeto de Rakitic e companhia continuava lá, mas já não era mais suficiente para gerar superioridade. A intensidade naturalmente caiu – lembrando que foram três prorrogações seguidas, ou seja, um jogo a mais nas pernas – e a França tirou proveito disso. Kanté já fazia uma atuação surpreendentemente fraca e estava inibido com um cartão amarelo.

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N’Zonzi entrou no seu lugar e soltou um dos caras do jogo. Com estatura avantajada e consciência posicional, ele recuou e liberou a versão completa de Pogba. O camisa 6 passou a mandar e desmandar nas transições, mostrando entrosamento com Mbappé (outro que foi solto por essa transformação de cenário) e chegadas precisas na área. Colocou seu nome no placar e viu seu companheiro entrar pra história como o primeiro jovem a balançar as redes em uma final desde Pelé.

Griezmann era a energia e o cérebro entre eles, agindo como um típico facilitador de jogadas no direcionamento da posse. A explosão e a leitura de Vida não foram suficientes para brecar um conjunto que uniu talento e estratégia. Quem leu o jogo melhor que ele foi Deschamps, dando uma aula a cada ajuste feito durante os 90 minutos. Foi uma resposta totalmente à altura do ótimo desempenho proporcionado pelo sistema de Dalic, que viu sua equipe perder pela primeira vez justamente na melhor exibição.

O nível tático era extremo, lembrando até um jogo de xadrez. Junta-se isso ao refinamento técnico das peças que decidiram a partida e tivemos uma final de muito respeito.

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