Gabigol: um fenômeno sociocultural

Os gols e comemorações, tornam Gabigol um símbolo frequente na imaginação das crianças no contato primário com a bola

O legado de Gabigol vai muito além dos gols importantes, resgate da autoestima da nação rubro-negra ou dos títulos do Carioca, Libertadores e do Brasileiro. É mais profundo. Mexe com a imaginação de milhares de crianças nas 27 unidades federativas do Brasil, ao longo dos 8.511.000 km² de extensão territorial que ligam norte ao sul e leste ao oeste. É um fenômeno sociocultural capaz de nortear o futebol brasileiro pelos próximos anos.

Gabriel Barbosa demonstra ser uma pessoa bacana e tranquila longe das quatro linhas. Mas quando pisa no solo sagrado, se transforma. O cara de sorriso fácil, dá lugar a um atleta competitivo que usa de todos os artifícios para desestabilizar o adversário. A marra e o deboche compõem o temperamento de um jovem de 23 anos que se tornou uma máquina de fazer gols e aniquilar oponentes. As comemorações dos gols com muques à mostra e cara fechada, se transformaram em marca registrada do camisa 9. E logo ganhou as redes sociais e foi sendo reproduzida por pessoas de diversas idades.

Assim como Romário em 1994, Ronaldo em 2002 e Neymar em 2011, Gabigol, é o símbolo das conquistas do Flamengo em 2019. A idolatria, que é consequência dos resultados esportivos, transbordaram o limítrofe das cores vermelhas e pretas e passaram a ser também verde e amarela. O fenômeno Gabigol alcançou o mais alto grau de influência e poder de transformação social de crianças e jovens. Uma vez que, estão inseridas em uma cultura que tem o futebol como o maior expressão cultural de um país, as crianças veem na imitação de Gabriel Barbosa uma forma de expor a representatividade que o jogador possui dentro do nicho social a que estão alocadas.

Ídolo das crianças, o camisa 9 do Flamengo ganhou até um sósia mirim (Wagner Meier/Getty Images)

A empatia e idolatria são emoções fundamentais para que as crianças desenvolvam a paixão pelo futebol. Nas ruas, no contato primário com o jogo futebol, é muito comum que elas assumam uma identidade a qual não lhes pertencem. Porém, dentro do processo de análise e escolha – seja pautando-se pelo biotipo, personalidade ou gosto pessoal – é identificada como a mais verossímil. E essa interiorização feita para jogar uma partida de barrinha ou goleiro-linha, traz consigo inúmeros valores, desde comportamentos (comemoração marrenta), até a reprodução de um gesto técnico característico (corte para a esquerda seguido de finalização). E diante do choque entre os comportamentos inatos e adquiridos, como resultante tem-se uma imitação deformada. Mas que gera uma satisfação prazerosa ao jogar futebol.

Lucas Andrade, de 9 anos, imita comemoração frente a frente com o ídolo Gabigol (Divulgação/TV Globo)

E mediante a um contexto de globalização, avanço da tecnologia, modificação de comportamentos e regras sociais, o futebol como parte integrante tem vivido grandes transformações. Se em um passado não tão distante jogar futebol era apenas um meio para interagir socialmente, estabelecer laços afetivos e desfrutar da pratica esportiva. E tinha a busca pela vitória como consequência. Atualmente, o fluxograma está invertido. Antes do deleite do jogo e interações sociais, veem a perseguição desenfreada pelo resultado. Relegando o prazer de se praticar futebol ao segundo plano. No Flamengo, Gabigol é o simbolo do resgate as origens do futebol brasileiro: alegre, marrento, solidário, plástico, competitivo e vencedor. O impacto do Fenômeno Sociocultural Gabigol ainda não dá para ser efetivamente mensurado, mas a influência já é perceptível e tem perspectiva de inspirar milhares de crianças por décadas.

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Jonatan Cavalcante

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